Martha Medeiros
Doidas e  Santas
L&PM EDITORES - 2008
Gnero: crnica
Numerao: rodap
Digitalizado e revisto por Virgnia Vendramini em de zembro de 2008

contracapa

"Toda mulher  doida. Impossvel no ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida no vale a pena ser vivida,
e d-lhe usar nosso poder de seduo para encontrar 'the big one', aquele que ser inteligente, msculo, se importar com nossos sentimentos e no nos deixar na
mo jamais... Uma tarefa que d para ocupar uma vida, no  mesmo?
Eu s conheo mulher louca. Pense em qualquer uma que voc conhece e me diga se ela no tem ao menos trs dessas qualificaes: exagerada, dramtica, verborrgica,
manaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois ento. Tambm  louca. E fascinante.
Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver at a Ultima Gota. S as cansadas  que se recusam a levantar da cadeira para ver quem est chamando l fora.
E santa, fica combinado, no existe. Uma mulher que s reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que no deseje mais nada? Voc vai concordar comigo:
s sendo louca de pedra."
Trecho da crnica. "Doidas e Santas"

Orelhas

Martha Medeiros, poeta, cronista, romancista, conquistou o Brasil com seus textos, publicados em jornais de repercusso nacional, sites e livros que se transformaram
em best-sellers. Doidas e Santas rene cem crnicas que falam direto ao corao de suas leitoras e de seus leitores. Nelas, Martha expe os anseios de sua gerao
e de sua poca, tornando-se uma das vozes mais importantes entre as recentemente surgidas no cenrio nacional. As alegrias e as desiluses, os dramas e as delcias
da vida adulta, as neuroses da vida urbana, o prazer que se esconde no dia-a-dia, o poder transformador do afeto, os mistrios da maternidade, enfim, o cotidiano
de cada um de ns tornou-se o principal tema da autora. Como toda grande artista, ela consuma o sortilgio da literatura: traduzir e expressar o que vai na alma
de sua enorme legio de admiradores.
Dona de uma sensibilidade incomum, Martha Medeiros tem para tudo um olhar, uma reflexo e uma reao fresca, nova, de algum que pela primeira vez se depara com
o inesperado, seja o assunto o Dia dos Namorados, a deciso de se comear a fumar, um sentimento de desconforto por qualquer coisa, uma parania que se imiscui sub-repticiamente
ou um amor que acaba. Sempre terna e indignada, amantssima da cultura contempornea e dona de um
imbatvel senso de humor, em  suas crnicas - assim como em sua poesia - Martha torna, para   todos ns e com muita destreza,
mais palatvel o impondervel da vida.

Martha Medeiros  colunista dos jornais
Zero Hora e O Globo. De sua autoria, a
L&PM Editores publicou os seguintes livros
poesia: Meia-noite e um quarto (1987),
Persona non grata (1991), De cara lavada
(1995), Poesia reunida (1999) e Canas
extraviadas e outros poemas (2001); e de
crnicas, Tofless (1997, Prmio Aorianos),
Trem-bala (1999), Non-stop (2001),
Montanha-russa (2003, Prmio Aorianos e
2 lugar do Prmio Jabuti) e Coisas da vida
(2005). A autora tambm publicou, pela
editora Objetiva, os romances Div (2002),
Selma e Sinatra (2005) e Tudo que eu queria
te dizer (2007).

Martha Medeiros
Doidas e  Santas
4S reimpresso
L&PM EDITORES
As crnicas deste livro foram origmalmente publicadas nos jornais O Globo e Zero Hora.

Capa'. Marco Cena
Reviso: J Saldanha e Patrcia Rocha
CIP-Brasil. Catalogao-na-Fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
Medeiros, Martha, 1961-
Doidas e santas / Martha Medeiros. - Porto Alegre, RS: L&PM, 2008.
232p.; 14cm
ISBN 978-85-254-1796-1
1. Crnica brasileira. I. Ttulo.
CDD: 869.98 CDU:821.134.3(81)-8
(c) Martha Medeiros, 2008
Todos os direitos desta edio reservados a L&PM Editores Rua Comendador Coruja 314, loja 9 - Floresta - 90.220-180 Porto Alegre - RS - Brasil / Fone: 51.3225.5777
- Fax: 51.3221-5380
PEDIDOS & DEPTO. COMERCIAL: vendas@lpm.com.br FALE CONOSCO: info@lpm.com.br www.lpm.com.br
Impresso no Brasil Primavera de 2008

SUMRIO

Veneno antimonotonia 9
Faxina geral 11
Casamento aberto 13
Obrigada por insistir 15
Vende frango-se 17
Regurgitar 19
A tristeza permitida 21
The Guitar Man 24
Vai, vai, vai... viver 26
Quebra de protocolo 28
O esprito da coisa 30
A moa do carro azul 33
A mulher invisvel 35
Quando o corpo fala 37
Os bastidores da crnica 39
O carto 41
Para que lado cai a bolinha 44
Belssimas 46
A separao como um ato de amor 48
Ainda sobre separao 51
Uma vida interessante 54
Eles s pensam nisso 56
Falar 58
Um lugar para chorar 60
O caf do prximo 62
Terapia do amor 64
Os honestos 67
A melhor me do mundo 69
O que mais voc quer?  72
Laos 74
Dia mundial sem tabaco 76
Mos dadas no cinema 78
Pipocas 80
A morte  uma piada 82
Os ricos pobres 84
O que a dana ensina 87
Emoo x adrenalina 89
Casa devo 91
Tarde demais, nascemos 94
O cara do outro lado da rua 96
Eu, voc e todos ns 98
Dando a impresso 100
O contrrio da morte 102
Delicadeza 104
Hoje e depois de hoje 106
Parar de pensar 108
Voltando a pensar 110
Qualquer um 112
Travessuras 114
Testes 116
Nenhuma mulher  fantasma 118
Esprito aberto 120
100 coisas 122
Ela 124
Pequenas crianas 126
Prisioneiros do amor livre 129
Do tempo da vergonha 132
Nunca jamais 134
Oh, Lord! 136
O violinista no metr 138
Mato, logo existo 140
Notcias de tudo 143
Simpatia pelo diabo 145
As supermes e as mes normais 147
A pior vontade de viver 150
As verdadeiras mulheres felizes 152
Babacas perigosos 155
Mania de perseguio 157
O valor de uma humilhao 159
A janela dos outros 161
Show falado 163
Divas abandonadas 165
Lagozadera 168
Em caso de despressurizao 170
Amo voc quando no  voc 172
Lcifer e os lcidos 175
Matando a saudade em sonho 177
Balanando estruturas 179
Povoar a solido 182
O capricho da simplicidade 184
Precisamos falar sobre tudo 187
Onde  que eu ia mesmo? 190
Grisalha? No, obrigada 193
O direito ao sumio 196
Guerreiras e heris 198
Antes de partir 200
Os quatro fantasmas 202
Um cara difcil 204
Jogo de cena 207
Muito barulho por tudo 209
Doidas e santas 211
A mulher banana 214
No sorria, voc est sendo filmado 217
Diferena de necessidades 219
O nibus mgico 221
Um poema filmado 223
Os olhos da cara 225
Absolvendo o amor 228
A garota da estrada 230

VENENO ANTIMONOTONIA

ralcatruas, alagamentos, violncia urbana. Eu colocaria mais uma coisinha nessa lista de pequenas tragdias com que somos brindados diariamente: o tdio. A cada
manh, abrimos os jornais e  a mesma indecncia poltica. Nas ruas, perdemos tempo com os mesmos engarrafamentos. Escutamos as mesmas queixas no local de trabalho. 
 sempre o mesmo, o mesmo. Como  bom quando algo nos surpreende.
Para quem vive na opressiva e cinzenta So Paulo, a novidade atende pelo nome de Cow Parade, a exposio ao ar livre de 150 esculturas em forma de vaca, em tamanho 
natural, feitas de fibra de vidro e decoradas com muita cor e insanidade por artistas plsticos, diretores de arte, designers e cartunistas. Um nonsense mais que 
bem-vindo, uma interveno no nosso olhar acostumado. Espalhadas por ruas, praas, nos lugares mais inesperados, l esto elas, vacas enormes, vacas profanas, vacas 
inslitas. Para qu? Para nada de especial, apenas para espantar o tdio, inspirar loucuras, lembrar que as coisas no precisam ser sempre iguais. Havia uma vaca 
no meio do caminho, no meio do caminho havia uma vaca.  poesia tambm.
Falando em poesia, h sempre uma nova e herica coletnea sendo lanada no mercado editorial, tentando atrair aqueles leitores que evitam qualquer coisa que rime. 
Desta vez, no  coletnea de mulheres poetas ou de poetas
9
do terceiro mundo, essas cortesias que nos fazem. Finalmente, o humor e a leveza baixaram no reino dos versos. O livro chama-se Veneno antimonotonia e traz o subttulo:
Os melhores poemas e canes contra o tdio. Organizado por Eucana Ferraz, a antologia pretende combater o vazio, o medo, a falta de imaginao.  um convite para 
a vida, e um convite feito atravs das palavras de Drummond, Chico Buarque, Antnio Ccero, Ferreira Gullar, Adriana Calcanhotto, Armando Freitas Filho, Vinicius 
de Moraes, Caetano Veloso, Joo Cabral de Melo Neto e outros ilustres, sem faltar Cazuza, claro, cuja cano Todo amor que houver nesta vida-uma das minhas letras 
preferidas - inspirou o ttulo da obra.
At hoje, pergunta-se: para que serve a arte, para que serve a poesia?
Intelectuais se aprumam, pigarreiam e comeam a responder dizendo "Veja bem..." e da em diante  um blablabl terico que tenta explicar o inexplicvel. Poesia 
serve exatamente para a mesma coisa que serve uma vaca no meio da calada de uma agitada metrpole. Para alterar o curso do seu andar, para interromper um hbito, 
para evitar repeties, para provocar um estranhamento, para alegrar o seu dia, para faz-lo pensar, para resgat-lo do inferno que  viver todo santo dia sem nenhum 
assombro, sem nenhum encantamento.
2 de outubro de 2005
FAXINA GERAL
H muitas coisas boas em se mudar de casa ou apartamento. Em princpio, toda e qualquer mudana  um avano, um passo  frente, uma ousadia que nos concedemos, ns 
que tememos tanto o desconhecido. Mudar de endereo, no entanto, traz um benefcio extra. Voc pode estar se mudando porque agora tem condies de morar melhor, 
ou, ao contrrio, porque est sem condies de manter o que possui e necessita ir para um lugar menor. Em qualquer dos dois casos, de uma coisa ningum escapa:  
hora de jogar muita tralha fora. E, se avaliarmos a situao sem meter o corao no meio, chegaremos a um previsvel diagnstico: quase tudo que guardamos  tralha.
Comeando pelo segundo caso, o de voc estar indo para um lugar menor. Salve! Considere isso uma simplificao da vida, e no um passo atrs. No haver espao para 
guardar todos os seus mveis e badulaques. Se voc for muito sentimental, vai doer um pouquinho. Mas no  crime ser racional: olhe que oportunidade de ouro para 
desfazer-se daquela estante enorme que ocupa todo o corredor, e tambm daquela sala de jantar de oito lugares que voc s usa em meia dzia de ocasies especiais, 
j que faz as refeies do dia-a-dia na copa. Para que tantas poltronas gordas, tanta moblia herdada, tantos quadros que, pensando bem, nem bonitos so? X! Leve 
com voc apenas o que combina e cabe na sua nova etapa de vida. O que sobrar, venda, ou melhor
10
ainda: doe. Voc vai se sentir como se tivesse feito o regime das nove luas, a dieta do leite azedo, ou seja l o que estiver na moda hoje para emagrecer.
No caso de voc estar indo para um lugar maior, vale o mesmo. Aproveite a chance espetacular que a vida est lhe dando para exercitar o desapego. Para que iniciar 
vida nova com coisa velha? Ok, voc foi a fundo de caixa e no sobrou nada para a decorao, compreende-se. Pois leve seu fogo, sua geladeira, sua cama, seu sof 
e o imprescindvel para no dormir no cho. Pra comear, isso basta. Coragem:  hora de passar adiante todas as roupas que voc pensa que vai usar um dia, sabendo 
que no vai. Hora de botar no lixo todas as panelas sem cabo, os tapetes desfiados, as almofadas com rombos, os discos arranhados, as plantas semimortas, aquela 
lixeira medonha do banheiro, os copos trincados, os guias telefnicos de trs anos atrs, todas as flores artificiais, as revistas empoeiradas que voc coleciona, 
a mquina de escrever guardada no ba, o aqurio vazio e o violo com duas cordas. Tudo isso e mais o que voc esconde no armrio da dependncia de servio. Vamos 
l, seja homem.
Caso voc no esteja de mudana marcada, invente outra desculpa qualquer, mas livre-se voc tambm da sua tralha. Poucas experincias so to transcendentais como 
deixar nossas tranqueiras pra trs.
9 de outubro de 2005
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CASAMENTO ABERTO
Andou circulando pela internet um texto creditado a Danielle Mitterrand, viva do ex-presidente francs Franois Mitterrand. Pelo teor, acredito que seja mesmo de 
sua autoria. Quando permitiu que a amante e a filha que ele teve fora do casamento comparecessem aos funerais, Danielle comprou uma briga com a ala mais conservadora 
da sociedade francesa. Agora est se defendendo com uma reflexo que serve para todos ns.
 sabido que a instituio casamento vem se descredibilizando com o passar do tempo. Hoje, uma relao que dura vinte anos j  candidata a entrar para o Guinness. 
Li outro dia uma pesquisa sobre os casais mais "divorciveis" da atualidade. A tal Paris Hilton era a mais cotada para se separar no primeiro ano de matrimnio - 
erraram: nem chegou a haver casamento. E fora do mundo das celebridades no  muito diferente. Os pombinhos esto no altar, e os amigos, na igreja, j esto fazendo 
suas apostas para a durao do enlace. Todo mundo quer casar, adora a idia, mas poucos ainda acreditam no felizes para sempre, e no porque sejam cnicos, mas porque 
conhecem bem o contrato que esto assinando: com exigncia de exclusividade vitalcia, ou seja, ningum entra, ningum sai. Difcil achar que isso possa dar certo 
nos dias atuais.
O casamento vai acabar? Nunca, mas vai continuar a fazer muita gente sofrer se no entrarem clusulas novas
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nesse contrato e se as cabeas no se arejarem. Danielle Mitterrand diz o seguinte: "Achar que somos feitos para um nico e fiel amor  hipocrisia, conformismo. 
 preciso admitir docemente que um ser humano  capaz de amar apaixonadamente algum e depois, com o passar dos anos, amar de forma diferente." E termina citando 
sua conterrnea, Simone de Beauvoir: "Temos amores necessrios e amores contingentes ao longo da vida".
Estamos falando de casamento aberto, sim, mas no desse casamento escancarado e vulgar, em que todos se expem, se machucam e acabam ainda mais frustrados. Casamento 
aberto  outra coisa, e pode inclusive ser monogmico e muito feliz. A abertura  mental, no precisa ser sexual.  entender que com possesso no se chegar muito 
longe.  amar o outro nas suas fragilidades e incertezas.  aceitar que uma unio  para trazer alegria e cumplicidade, e no sufocamento e represso.  ter noo 
de que a cada idade estamos um pouquinho transformados, com anseios e expectativas bem diferentes dos que tnhamos quando casamos, e quem nos ama de verdade vai 
procurar entender isso, e no lutar contra. Sendo aberto nesse sentido, o casal construir uma relao que seja plena e feliz para eles mesmos, e no para a torcida. 
E o que eles sofrerem, aceitarem, negociarem ou rejeitarem ter como nico intento o crescimento de ambos como seres individuais que so.
Enquanto no renovarmos nossa idia de romantismo, continuaremos a bagunar aquilo que foi feito apenas para dar prazer: duas pessoas vivendo juntas. Eu no conheo 
nada mais difcil, mas tambm nada mais bonito. E a beleza nunca est nas mesquinharias e infantilidades. A beleza est sempre um degrau acima.
16 de outubro de 2005
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OBRIGADA POR INSISTIR
At o mais seguro dos homens e a mais confiante das mulheres j passaram por um momento de hesitao, por dvidas enormes e tambm dvidas mirins, que talvez nem
merecessem ser chamadas de dvidas, de to pequenas. Vcuos, seria melhor dizer. Devo ir a esse jantar, mesmo sabendo que a dona da casa no me conhece bem? Ser
que tiro o dinheiro do banco e invisto nessa loucura? Devo mandar um e-mail pedindo desculpas pela minha negligncia? Nessa hora, precisamos de um empurrozinho. 
E  aos empurradores que dedico esta crnica, a todos aqueles que testemunham os titubeios alheios e dizem: v em frente!
"Obrigada por insistir para que eu pintasse, escrevesse, atuasse, obrigada por perceber em mim um talento que minha autocrtica jamais permitiria que se desenvolvesse."
"Obrigada por insistir para que eu fosse visitar meu pai no hospital, eu no me perdoaria se no o tivesse visto e falado com ele uma ltima vez, eu no teria ido 
se continuasse sendo regido apenas pela minha teimosia e pelo meu orgulho."
"Obrigada por insistir para que eu conhecesse Veneza, do contrrio eu ficaria para sempre fugindo de lugares tursticos e me considerando muito esperto e com isso 
teria deixado de conhecer a cidade mais surreal e encantadora que meus olhos j viram."
"Obrigada por insistir para que eu fizesse o exame mdico, para que eu no fosse covarde diante das minhas
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fragilidades, s assim pude descobrir o que trago no corpo e trat-lo a tempo. No fosse por voc, eu teria deixado este caroo crescer no meu pescoo e me engolir 
com
medo e tudo."
"Obrigada por insistir para eu voltar pra voc, para eu deixar de ser adolescente e aceitar uma vida a dois, uma famlia, uma serenidade que eu no suspeitava. Eu
no sabia que amava tanto voc e que havia lhe dado boas pistas sobre isso, como  que voc
soube antes de mim?"
"Obrigada por insistir para que eu deixasse voc, para que eu fosse seguir minha vida, obrigada pela sua confiana de que seramos melhores amigos do que amantes,
eu estava presa a uma condio social que eu pensava que me favorecia, mas nada me favorece mais do que esta liberdade para a qual voc, que me conhece melhor do
que eu mesma, apresentou-me como sada."
"Obrigada por insistir para que eu no fosse quela festa, eu no teria agentado ver os dois juntos, eu no teria aturado, eu no evitaria outro escndalo, obrigada
por ter ficado segurando minha mo e ter trancado minha porta."
"Obrigada por insistir para eu cortar o cabelo, obrigada por insistir para eu danar com voc, obrigada por insistir para eu voltar a estudar, obrigada por insistir
para eu no tirar o beb, obrigada por insistir para eu fazer aquele teste, obrigada por insistir para eu me tratar."
Em tempos em que quase ningum se olha nos olhos, em que a maioria das pessoas pouco se interessa pelo que no lhes diz respeito, s mesmo agradecendo queles que
percebem nossas descrenas, indecises, suspeitas, tudo o que nos paralisa, e gastam um pouco da sua energia conosco, insistindo.
 23 de outubro de 2005
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VENDE FRANGO-SE
Algum encontrou esta prola escrita numa placa em frente a um mercadinho de um morro do Rio: "Vende frango-se".  poesia? Piada? Apenas mais um erro de portugus?
 a vida e ela  inventiva. Eu, que estou sempre correndo atrs de algum assunto para comentar, pensei: isso d samba, d letra, d crnica. Vende frango-se, compra 
casa-se, conserta sapato-se.
Prefiro isso aos "q te cmg?" espalhados pelo mundo virtual, prefiro a ingenuidade de um comerciante se comunicando do jeito que sabe,  o "beija eu" dele.
Vende carne-se, vende carro-se, vende gelia-se. No incentivo a ignorncia, apenas concedo um olhar mais adocicado ao que  estranho a tanta gente, o nosso idioma. 
To poucos estudam, to poucos lem, queremos o qu? Ao menos trabalham, negociam, vendem frangos, ao menos alguns compram e comem e os dias seguem, no importa 
a localizao do sujeito indeterminado. Vive-se.
Talvez eu tenha  ficado agradecida por esse senhor ou senhora que se anunciou de forma errnea, porm inocente, j que  do meu feitio tambm trocar algumas coisas 
de lugar, e nem por isso mereo chicotadas, ao contrrio: o comerciante do morro me incentivou a me perdoar. Esquecer o nome de um conhecido, no reconhecer uma 
voz ao telefone, chamar Gustavos de Olavos, confundir os verbos e embaralhar-se toda para falar: sou a rainha das gafes, dos
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tropeos involuntrios. Tento transformar em folclore, j que falta de educao no . Conserta destrambelhada-se. Eu me ofereo como cliente. Quem no? Sabemos 
todos como  constrangedor no acertar, mas l do alto do seu boteco, ele nos absolve. Ele, o autor de um absurdo, mas um absurdo muito delicado.
Vende frango-se, e eu acho graa, e achar graa  uma coisa boa, sinal de que ainda no estamos to secos, rudes e patrulheiros, ainda temos grandeza para promover
o erro alheio a uma inesperada recriao da gramtica, fica eleito o dono da placa o Guimares Rosa do morro, vale o que est escrito, e do jeito que est escrito,
uma vez que entender todos entenderam. Fica aqui minha homenagem  imperfeio.
9 de novembro de 2005
REGURGITAR
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Eu li o livro antes de ver a pea, o que facilitou minha compreenso, porque Michel Melamed, no palco,  um epiltico verbal, emenda uma frase na outra enquanto
leva choques que parecem amenos, mas no devem ser, assim como a vida parece amena, mas que nada.
Regurgitofagia  o nome da pea (que esteve duas vezes em cartaz em Porto Alegre, primeiro durante o Em Cena e no ltimo final de semana no Theatro So Pedro - se
houver uma terceira, no perca) e do livro. Este, alis, me lembrou um pouco os primeiros livros do Luciano Alabarse, justamente o diretor do Em Cena. Pra quem no
sabe, Luciano, no incio dos anos 80, lanou por uma tal Editora Proletra (ainda existe?) Sem essa, Aranha, Aquele um e Pobres moos
- um mix de idias, poemas, letras de msica, declaraes de amor e de dio, uma esquizofrenia pensante e atraente para os que, como eu, estavam tentando entender
alguma coisa deste mundo catico, e que segue catico, vide Michel Melamed, ano 2005.
Deglutimos coisas demais, nos enfiam goela abaixo toda sorte de informaes e aberraes - chega, impossvel assimilar tanta coisa, tanta porcaria, tantos estmulos
velozes que nos impedem a reflexo.  o que resume, com um humor sarcstico, Regurgitofagia. E eu digo amm, porque acredito mesmo que estamos pirando, todos.
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E para enfrentar a pirao, s mesmo respondendo com mais loucura.
Melamed trata de assuntos serssimos com o mesmo deboche dos debochados que tentam nos doutrinar, e com uma linguagem rpida como rpida  a vida.  tudo um susto.
Voc no anda assustado? Salve voc. A maioria das pessoas que eu conheo anda com os cabelos em p, como se o choque fosse dirio e ininterrupto. E .
Teatro no serve pra nada, pensam alguns, e literatura  elitismo, pensam outros, e na verdade no pensam, porque  no teatro e na literatura que encontramos a transgresso 
possvel e a provocao necessria. O mundo no anda fcil nem digervel.  homem-bomba explodindo em festas de casamento,  corrupo pra tudo que  lado,  muito 
desamor travestido de prazer,  uma urgncia de ser feliz que impede a construo da felicidade mesma, que  mais vagarosa. Para onde esto indo todos nesta correria? 
No sou a nica que ainda vive, em certos aspectos, na era da pedra lascada, mas corro igual, porque se parar, me atropelam.
Regurgitar: vomitar. Fagia: comer. Ento regurgitofagia  simplesmente expelir o intil e voltar a se alimentar do que precisamos. E do que precisamos? Anote a, 
 pouca coisa: silncio, arte e amor. bom dia a todos.
16 de novembro de 2005
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A TRISTEZA PERMITIDA
Se eu disser pra voc que hoje acordei triste, que foi difcil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo l fora e o cu convidava para a farra de
viver, mesmo sabendo que havia muitas providncias a tomar, acordei triste e tive preguia de cumprir os rituais que normalmente fao sem nem prestar ateno no
que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pr computador, sair para compras e reunies - se eu disser que foi assim, o que voc me diz? Se eu lhe
disser que hoje no foi um dia como os outros, que no encontrei energia nem para sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que no tive 
vontade de nada, voc vai reagir como?
Voc vai dizer "te anima" e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razo da 
minha tristeza), vai dizer para eu colocar uma roupa leve, ouvir uma msica revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.
Voc vai fazer isso porque gosta de mim, mas tambm porque  mais um que no tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ningum. Tristeza  considerada 
uma anomalia do humor, uma doena contagiosa, que  melhor eliminar desde o primeiro sintoma. No sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar  toa? Gravssimo, 
telefone j para o seu psiquiatra.
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A verdade  que eu no acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, est tudo normal. Mas quando fico triste, tambm est tudo normal. Porque ficar 
triste  comum,  um sentimento to legtimo quanto a alegria,  um registro da nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silncio e a solido. 
Estar triste no  estar deprimido.
Depresso  coisa muito mais sria, contnua e complexa. Estar triste  estar atento a si prprio,  estar desapontado com algum, com vrios ou consigo mesmo, 
 estar um pouco cansado de certas repeties,  descobrir-se frgil num dia qualquer, sem uma razo aparente - as razes tm essa mania de serem discretas.
"Eu no sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de vero/ e no importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago de razo/ eu ando to down..." Lembra 
da msica? Cazuza ainda dizia, l no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois , pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forar um sorriso, melhor dizer que est 
tudo bem, melhor desamarrar a cara. "No quero te ver triste assim", sussurrava Roberto Carlos em meio a outra msica. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam 
de fato. Os esforos no so para compreend-la, e sim para disfar-la, sufoc-la, ela que, humilde, s quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar o 
seu espao nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem est calado demais. Claro que  melhor ser alegre que ser triste 
(agora  Vinicius), mas melhor mesmo  ningum privar voc de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes,  a gente mesmo que no se permite estar alguns degraus 
abaixo da euforia.
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Tem dias que no estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem por isso devemos buscar plulas mgicas para camuflar nossa introspeco, nem aceitar convites para
festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude  armazenamento de fora e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta,
anunciando o fim de mais uma dor - at que venha a prxima, normais
que somos.
20 de novembro de 2005
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THE GUITAR MAN

Eu fui criada ouvindo Beatles, Janis Joplin, Rita Lee, Lou Reed e Tina Turner, era minha trilha sonora da infncia, o que no impediu que uma aguazinha com acar
entrasse no meu repertrio. Aos onze anos de idade, minha msica preferida era "The Guitar Man", de um grupo chamado Bread, que no chegou a entrar para a histria,
a no ser pra minha.
Era uma balada bonita, que falava de um msico que estava sempre na estrada mexendo com as emoes daqueles com quem cruzava. " Who draws the crowd andplays s 
loud, baby, ifs theguitar man..." e foi o que bastou para esse personagem virar meu prncipe encantado, muito mais do que aqueles loiros em cavalos brancos que entravam 
mudos e saam calados dos contos de fada, sempre com ar de sonsos.
Adoro bossa nova, sou louca por jazz, este ano curti com alegria Norah Jones, Jorge Drexler, John Pizzarelli, Madeleine Peyroux, mas nada se compara ao poder eletrizante 
de um guitarrista clssico, e estou falando logicamente da lenda que acabou de se apresentar no Brasil, Buddy Guy, que no tem nada de cool, e sim de incendirio. 
Nessas horas minha sofisticao vai pr ralo e eu quero mais ... ... sei l, devo ter sido uma stripper em outra encarnao.
Assisti ao espetculo do rei do blues em Porto Alegre, onde ele transformou o teatro num estdio de futebol. Foi eletrizante, celebrou-se o lado mais quente da vida. 
Os integrantes da banda lidavam com os instrumentos como se eles fossem extenso do prprio corpo, e Buddy, do alto dos seus
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69 anos, mostrou que idade  um conceito muito relativo e que tem muito garoto de vinte que precisa de umas liezinhas sobre o que  vigor.
A maioria dos gneros musicais provocam arrepios na alma e no corao, so absorvidos pelos ouvidos e se instalam dentro da gente de forma tranqila e apaziguadora. 
O blues e o rock, primos-irmos, no se assentam assim to facilmente dentro de ns. Eles so assimilados atravs da pele tambm, nos reviram, impulsionam, provocam 
reaes fsicas mais nervosas, despertam em ns o tarado, o revolucionrio, o selvagem, o herege. J ia esquecendo: a stripper.
Guitarra, bateria, piano, sax, gog e veneno, tudo misturado, cativam pelo que tm de vibrante e sexy. J virou clich dizer que o rock  mais atitude do que msica, 
e se formos ampliar isso para a vida fora do palco, podemos dizer que Elis Regina, por exemplo, foi uma grande roqueira, assim como o jornalista Paulo Francis, que 
tambm tinha uma postura muito rock'n'roll, mesmo considerando rock msica de jeca e sendo o rei dos eruditos.
O show de Buddy Guy foi, antes de tudo, um workshop: ele saiu do palco vrias vezes, circulou por todos os ambientes, misturou-se  platia, desarrumou-a, seduziu-a, 
quebrou o protocolo, divertiu e divertiu-se sem parar um nico segundo de tocar - e ainda se deu ao luxo de homenagear John Lee Hooker, Jimi Hendrix e Eric Clapton, 
sem deixar de ser ele mesmo, dono e senhor do seu blues. Por que tudo isso faz bem? Porque o cotidiano anda muito monocrdico, as notcias andam muito repetitivas 
e a natureza pulsante da gente, pouco provocada. bom lembrar que podemos ser viscerais sem nos rendermos  vulgaridade, ser lascivos atravs do blues e suas guitarras, 
e ficarmos excitados sem perder a classe.
4 de dezembro de 2005
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VAI, VAI, VAI... VIVER

H inmeras razes para se assistir ao documentrio sobre Vinicius de Moraes: para recordar suas msicas, seus poemas, suas histrias e, principalmente, lembrar
de uma poca menos tensa, em que ainda havia espao para a ingenuidade, a ternura e a poesia. Entre os vrios depoimentos do filme, h um de Chico Buarque dizendo
que no imagina como Vinicius se viraria hoje, nesta sociedade marcada pela ostentao e arrogncia. E ns?, pergunto eu. Ns que nos emocionamos com o documentrio
justamente por nos identificarmos com aquela alma leve, com a valorizao das alegrias e tristezas cotidianas, como conseguimos sobreviver neste mundo estpido,
neste ninho de cobras, nesta violncia invasiva? Assistir ao documentrio  uma maneira de a gente localizar a si mesmo, trazer  tona nossa verso menos cnica, 
mais pura, e resgatar as coisas que prezamos de verdade, que so diferentes das coisas que a tev nos empurra aos berros: compre! pague! queira! tenha!
Vinicius fazia outro tipo de propaganda. Se era para persuadir, que fosse em voz baixa e por uma causa nobre. Num dos melhores momentos do documentrio, ele e Baden 
Powell cantam entre amigos, numa rodinha de violo: "Vai, vai, vai... amar/vai, vai, vai... chorar/vai, vai, vai... sofrer". E o "Canto de Ossanha" lembrando que 
a gente perde muito tempo se anunciando, dizendo que faz e acontece, quando na verdade tudo o que precisamos, ora,  viver.
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Pois . Mas, detalhe: no vive quem se economiza, quem quer felicidade parcelada em 24 vezes sem juros. Alis, ser feliz nem est em pauta. O que est em pauta  
a busca, a caa incessante ao que nos  essencial: ter paixes e ter amigos. O grande patrimnio de qualquer ser humano, quer ele perceba isso ou no.
Pra acumular esses bens, Vinicius seguia um ritual: zerava-se. Comeava e terminava um casamento. Comeava e terminava outro. Comeava e terminava uma vida em Paris, 
uma temporada em Salvador. Renovava seus votos a cada dia. Se j no se sentia inteiro num amor ou num projeto, simples: ponto final. Tudo isso, diga-se, a um custo 
emocional altssimo. O simples nunca foi fcil, muito menos para quem possui um corao no lugar onde tantos possuem uma pedra de gelo. As pedras de gelo de Vinicius 
estavam onde tinham que estar, no seu cachorro engarrafado, e s. O resto era tudo quente.
Entre sobreviver e viver h um precipcio, e poucos encaram o salto. Encerro esta crnica com dois versos que no so de Vinicius, e sim de uma grande poeta chamada 
Vera Americano, que em seu novo livro, Arremesso livre (editora Relume Dumar), reverencia a mudana. No te acorrentes/ ao que no vai voltar, diz ela, provocando 
ao mesmo tempo nosso desejo e nosso medo. Medo que costuma nos paralisar diante da deciso crucial: Viver/ o u deixar para mais tarde.
O poeta espalmaria sua mo direita nas nossas costas (a outra estaria segurando o copo) e diria: vai.
11 de dezembro de 2005

QUEBRA DE PROTOCOLO
Poucas semanas atrs escrevi uma crnica em que enaltecia o show de Buddy Guy e a beleza de ver algum celebrar o lado mais quente da vida, aquele que no  rgido,
preso a frmulas. Pegando carona na performance irreverente do msico, que circulou por todo o Teatro do Sesi fazendo misrias com sua guitarra, falei sobre o quanto
 estimulante improvisar, mudar de planos e fazer umas loucuras inofensivas - no s no palco, mas tambm fora dele.
 de novo o palco que me inspira a voltar ao assunto. Tudo comeou em junho passado, quando comprei um CD no escuro, sem conhecer uma nica msica. Era uma coletnea
de hits que tocava na Colette, badalada loja de design parisiense. Nesse disco descobri Frontin, de um tal Jamie Cullum, que eu no tinha idia de quem fosse. Logo
depois, ganhei de presente o DVD de um show em que grandes nomes prestavam um tributo a Ray Charles, e l estava o tal do Cullum de novo, fazendo bonito ao lado
de Stevie Wonder, B.B.King e Norah Jones. Um nanico de vinte
e poucos anos.
No ltimo ms, vi o nome de Cullum numa revista, depois num breve comentrio na internet, e resolvi que era hora de sermos formalmente apresentados. Comprei de uma 
s vez os seus dois CDs, Twentysomething e Catching Tales. Excelentes, ambos. Resolvi ento selar nossa unio e comprei
o DVD gravado ao vivo no Blenheim Palace, na Inglaterra. Fiquei com os quatro pneus arriados. Gamei.
Para os antenados, no estou contando nenhuma novidade. O cara  considerado a sensao do jazz desde
2003, quando estourou em Londres. Talvez devesse continuar conhecido apenas entre poucos, pra manter a aura de novidade, mas algo me diz que sua fama vai, em poucos 
dias, se espalhar pelo Brasil feito plvora, o menino j participou at da trilha sonora do filme Bridget Jones, e a cantora Maria Rita rasgou elogios pra ele na 
entrevista que deu domingo passado pra Gabi. Agora j era. Que se popularize entre ns Jamie Cullum.
Por que mesmo falei em quebra de protocolo? Porque esse msico com visual de surfista corrompe totalmente a austeridade do piano que toca. Ele no tem respeito 
nenhum pelo instrumento: batuca nele com fora, canta em p em cima dele. Nelson Freire teria uma sncope se visse. Tudo com uma energia contagiante, um entusiasmo 
raro, e se tudo isso parece recurso para disfarar a falta de talento, a  que est, talento  o que no falta ao garoto, ao contrrio, sobra. Faz toda essa baguna 
porque  insano mesmo. Aquela insanidade que d gosto de ver, aquela loucura inofensiva de que falvamos antes: fugir da mesmice em nome da alegria de viver.
Ando me repetindo? No sou eu, tch.  o mundo.
18 de dezembro de 2005
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O ESPRITO DA COISA

Voc sempre pega o esprito da coisa? Geralmente o esprito da coisa  algo que fica subentendido, s as almas atentas conseguem capt-lo. A verdade  que, em um
mundo cada vez mais pragmtico,  difcil pegar o esprito da coisa, seja que coisa for essa.
O que dizer ento do esprito do Natal? Antes ele entrava no ar assim que dezembro iniciava. O esprito desse ms, para quem foi criana em outros tempos, era de 
pura magia. O Natal, que demorava tanto para chegar, estava batendo  porta. "Quantos dias faltam, me?" "Agora falta pouco, querida." "Quanto?" "Uns vinte dias." 
"Tudo isso!!!"
Mas a gente sabia que era pouco se comparado  longa espera de um ano inteiro. Em maio, junho, julho, o Natal ainda estava a perder de vista. O Natal era o arremate 
do calendrio, era a compensao por tanto estudo e provas na escola, era o prmio por termos nos comportado bem, era a hora de colocar uma roupa bonita e ter algum 
desejo atendido, era hora de comer umas delcias diferentes, de rezar, de acreditar em todos os sonhos. O cu ficava mais azul, as estrelas davam cria e nunca, nunca 
chovia em dezembro. Ento finalmente chegava o dia 24. A empregada era liberada logo depois do almoo, o pai voltava mais cedo pra casa e nenhum moleque reclamava 
de ir pr chuveiro, at gostava. J de banho tomado, era hora de esper-lo. Ele. O verdadeiro deus de toda criana, Papai Noel.
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Hoje mal entra dezembro - e com ele, trovoadas - e os shoppings lotam, o trnsito entope, os filhos pedem coisas carssimas e ganham antes mesmo da noite feliz. 
Comprar, comprar, comprar. Voc, meio sem grana, faz o que pode. Os outros, meio sem nada, voc faz que no v. Mas eles esto entre ns: crianas pedindo um lpis 
de presente, pedindo colcho de presente, sonhando com o primeiro iogurte de suas vidas. E a gente voando de um lado para o outro, sem tempo pra eles.
Isso tudo foi at ontem, quando dezembro acabou. Ao menos este dezembro insensato, ansioso, consumista, ateu, que dura 24 dias febris, em que todos correm, todos 
esto atrasados, todos tm compromissos inadiveis. Uma amiga me escreveu no auge do stress: "Pensar que o prximo ser s daqui a um ano  a melhor parte da histria".
Antes de comear a contagem regressiva para o prximo, temos hoje. Temos este hiato, o dia 25. Um feriado, um domingo, uma trgua. As lojas esto todas, todinhas 
fechadas. Sobrou alguma coisa da ceia para beliscar na geladeira. Voc vai sentir sede de suco natural, de gua gelada. Vai colocar msica pra tocar, vai vestir 
uma camiseta limpa. Voc no tem nada pra fazer, nenhum motivo pra tirar o carro da garagem, nenhuma razo para procurar vaga para estacionar. Hoje voc vai andar 
a p, no mximo de bicicleta. Vai falar mais pausadamente. No vai ligar a tev, prometa. Nem sei por que abriu o jornal. Hoje  dia de caminhar devagar, de chinelo 
ou ps descalos. Dia de olhar bem fundo nos olhos do porteiro que est trabalhando, do motorista de nibus que est trabalhando, e desejar a eles um feliz Natal 
pra valer. com sentimento. Um sentimento que no seja medo nem angstia.
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Paz.
 hoje o dia que nos restou pra isso. Um dia para sairmos de casa apenas para ir at algum que nada possui e ofertar um pedao de bolo, uma barra de chocolate, 
um travesseiro, um sabonete, uma bola, qualquer coisa que signifique uma verdadeira extravagncia diante de tanta misria. Terminou a histeria coletiva, terminou 
a festa, terminou a semana.  hoje, antes que tudo reinicie, que voc poder encontrar o verdadeiro esprito da coisa. No deixe que ele escape.
 25 de dezembro de 2005
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A MOA DO CARRO AZUL
Era a semana que antecedia o Natal. Os carros entupiam as ruas, todos querendo aproveitar um sinal verde, uma vaga para estacionar, chegar mais cedo ao shopping.
Eu era apenas mais uma no trnsito, quase sem olhar para os lados, concentrada em alguma tarefa inadivel. Mas de repente o que era movimento e pressa  minha volta 
parou.
Estava fazendo o retorno numa grande avenida quando passou por mim um carro azul com uma moa na direo. O vidro dela estava aberto e ela no parecia ter nada 
a esconder: chorava. No um choro -toa. Ela chorava por uma dor aguda, uma dor de respeito, era um transbordamento. Passou reto por mim e eu conclu meu retorno, 
e quis o destino que a prxima sinaleira fechasse e alinhasse nossos dois carros, eu ao volante do meu, atnita, ela ao volante do dela, desmoronando.
Eu deveria ter ficado na minha, mas era quase Natal, e quase todos esto to ss, quase ningum se importa com os outros, e antes que trocasse o sinal, abri a janela 
do meu co-piloto - sem nenhum co-piloto - e perguntei: "Voc precisa de ajuda?".
Ela estava com a cabea apoiada no encosto do banco, olhando em frente pr nada, chorando ainda. Ento virou a cabea lentamente para mim - pensei que iria dizer 
para eu me preocupar com a minha vida - e disse serenamente: "J vai passar". E quase sorriu.
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Eu respondi "fica bem", fechei o vidro e avancei meu carro um pouquinho pra frente, para desalinhar com o dela e deix-la livre dos meus olhos e da minha ateno.
Passei o resto do trajeto tentando adivinhar se ela havia rompido uma relao de amor, se havia perdido um filho recentemente, se havia recebido o diagnstico de 
uma doena grave, se havia discutido com o marido, se estava com saudades de algum, se estava ouvindo uma msica que a fazia lembrar de uma poca terrvel - ou 
sensacional. O que a fazia chorar quase ao meio-dia, numa avenida to movimentada, sem nem mesmo colocar uns culos escuros ou fechar o vidro? Que desespero era 
aquele sem pudor e por isso mesmo to intenso?
Garota, desculpe invadir com minha voz a sua tristeza. Era quase Natal e eu no agentei ver voc naquele quase deserto, num universo  parte, incompatvel com 
a quase euforia com que recebemos as viradas, as mudanas, a esperana de olhos mais secos. Faz uma semana, lembra? E agora falta quase nada pra gente abraar a 
iluso de que tudo vai ser novo. Que seja mesmo, especialmente pra voc. Feliz 2006.
28 de dezembro de 2005
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A MULHER INVISVEL

Eu estava na sala de embarque esperando a chamada do vo. Havia gente demais e poucas cadeiras disponveis, tive sorte de conseguir uma. Enquanto lia uma revista,
reparei de soslaio um senhor se aproximando com duas bagagens de mo. Era um homem grande. Extra large. Veio se aproximando e ao mesmo tempo virando o corpo de 
costas. Que estranho... Ento ele parou bem onde eu estava. Continuava de costas. Repare no perigo iminente da situao. No houve muito tempo para agir. Antes que 
eu pudesse raciocinar, o corpo dele comeou a se flexionar em minha direo, e eu tive que aceitar humildemente: ele iria sentar em cima de mim. Uma cena de desenho 
animado: eu me encolhendo na cadeira enquanto aquelas ndegas gigantescas estavam prestes a me espremer. com a nica mo livre que me restava - a outra segurava 
a revista - espalmei seu bundo e disse com um fiapo de voz: senhor, senhor, tem gente.
Ele virou a cabea e: oh, me desculpe, senhorita (foi perdoado na mesma hora por causa do "senhorita") e foi acomodar-se uns trs assentos adiante, que para alegria 
geral, estava vazio. Escapei por um triz de virar mingau em pleno Galeo.
Voc pode no acreditar, mas isso aconteceu de verdade, tenho vrias testemunhas. Alis, que gente educada: ningum riu. Diante da discrio de todos, tranquei o 
riso tambm, o que me requereu certo esforo, pois a vontade que eu tinha era de, s gargalhadas, bater na coxa da mulher ao lado e dizer: j viu isso, criatura?
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Rindo apenas por dentro, festejei ser uma pessoa com a auto-estima em dia, pois outra, com menos apego por si mesma, ficaria arrasada ao descobrir-se invisvel. 
Porque foi como me senti: invisvel. O sonho de muita gente. E o terror de tantos outros.
J me senti invisvel em algumas ocasies ao longo da vida. Voltando no tempo, me pego invisvel em festas, invisvel  mesa do jantar, invisvel na sala de aula. 
Uma sensao incmoda de estar ali, mas ningum levar em conta sua presena. Voc fala, ningum escuta.  vista, mas no percebida. E ao ir embora, ningum d por 
sua falta. com voc, nunca?
Em outros momentos da vida, eu daria tudo para estar invisvel, mas no tive a sorte. Como da vez em que engasguei com risco de morte no incio de um jantar com 
Silvia Pfeifer, a quem mal conhecia. Inesquecvel: eu j meio azul e aquela mulher linda de trs metros de altura correndo atrs de mim pelo restaurante lotado, 
batendo com fora nas minhas costas. E nas vezes - inmeras - em que no lembrei o nome de conhecidos na hora de autografar um livro. Essa  clssica.
Desaparecer em momentos estratgicos deve ser bom. Creio que descobri como se faz. Naquele dia, no aeroporto, eu devia estar to entretida com meus pensamentos 
que acionei algum mecanismo que me invisibilizou. S pode ter sido isso. O senhor grando no parecia ter problemas oftalmolgicos ou neurolgicos. Devia, ele tambm, 
estar com a cabea longe, desaparecido pra si mesmo, e resolveu sentar em qualquer lugar. No meu colo, o que o impedia?
Moral da histria: preste ateno. Mesmo onde voc enxerga um vazio, pode ter gente dentro.
8 de janeiro de 2006
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QUANDO O CORPO FALA

Nunca tinha escutado o nome de Louise L. Hay, que, pelo que eu soube,  uma psicloga americana com vrios livros publicados e traduzidos para diversos idiomas,
inclusive para o portugus. Me parece que  de auto-ajuda, a julgar pelos ttulos: Como curar sua vida e outros do gnero. Como se existisse frmula mgica para
alguma coisa. Se esses manuais funcionassem, seramos todos belos, ricos, bem-casados, desenvoltos, empreendedores, bambambs em tudo. Mas um dos temas que ela trata 
 bastante interessante e j inspirou vrios bate-papos entre amigos. Ela diz que todas as doenas que temos so criadas por ns. P, Louise. Como assim, "criadas"? 
Fosse simples desse jeito, bastaria a fora da mente para evitar que o vrus da gripe infectasse o ser humano.
Porm, se no levarmos tudo o que ela diz ao p da letra, se abstrairmos certos exageros, vamos chegar a um senso comum: ns realmente facilitamos certas invases 
ao nosso corpo.  o que se chama somatizar, ou seja,  quando uma dor psquica pode se manifestar fisicamente. Muitas vezes acontece, sim.
"Todas as doenas tm origem num estado de noperdo", diz a psicloga. "Sempre que estamos doentes, necessitamos descobrir a quem precisamos perdoar." Mais uma 
vez, o exagero, j que "sempre"  um amontoado de tempo que no sustenta nenhuma teoria. Mas ela insiste: "Pesar, tristeza, raiva e vingana so sentimentos que 
vieram
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de um espao onde no houve perdo. Perdoar dissolve o ressentimento."
Pois , o perdo. Outro dia estava lendo um verso de uma poeta que j citei em outra oportunidade, a Vera Americano, em que ela diz: "Perdo/ duro rito/ da remoo 
do estorvo".  difcil perdoar, mas que faz bem  sade, no tenho a menor dvida. Quanto mais leve a alma, mais forte o organismo. Por que no tentar?
Louise L. Hay acredita tanto, mas tanto nisso, que chegou a fazer uma lista de doenas e suas provveis causas. Exemplo: apendicite vem do medo. Asma, de choro contido. 
Cncer, de mgoas mantidas por muito tempo. Derrame, da rejeio  vida. Dor de cabea vem da autocrtica. Gastrite, de incertezas profundas. Hemorridas vem do 
medo de prazos determinados e raiva do passado. A insnia vem da culpa. Os ndulos, do ego ferido. Sinusite  irritao com pessoa prxima.
Eu sei e os leitores tambm sabem que no  bem assim, que isso  uma generalizao e que h vrios outros fatores em jogo, mas no custa prestarmos ateno na interferncia 
que nossos sentimentos tm sobre nosso corpo, assim poderemos ajudar no tratamento sendo menos tensos e angustiados.
Para quem  100% ctico, tudo isso  balela. J fui desse modo. Tempos atrs, no daria a mnima para as afirmaes de Louise L. Hay. Hoje me considero 70% ctica 
e ainda pretendo reduzir este ndice, pois reconheo que os meus parcos 30% de crena no que no  cientificamente provado  que me salvam de uma lcera.
22 de janeiro de 2006
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OS BASTIDORES DA CRNICA
Uma sociedade plural  muito melhor do que uma sociedade em que todos pensam igual. Sem divergncias, nada evolui
- nem o pensamento, nem o pas.
Quem escreve em jornal sente na pele essa dinmica de opinies conflitantes. So tantos os leitores, das mais diversas origens e crenas, que fica absolutamente 
impossvel almejar uma unanimidade, s em santa ingenuidade. Voc fala em sexo e desejo, o outro salta condenando o hedonismo. Voc clama por mais charme na vida, 
o outro salta condenando o elitismo. Quem tem razo? Cada um tem a sua, e que se atreva algum a dizer quem est certo ou errado. H tantas verdades quanto seres 
humanos na terra.
O Brasil, em especial,  dos pases menos coesos. Deste tamanho e com esta desigualdade social que tanto nos choca,  como se obrigasse vrios planetas a conviverem 
no mesmo territrio. E obriga. E rimo: no sei como no sai mais briga.
Uns elogiam Dois filhos de Francisco, outros apontam a rendio do cinema nacional, que no arrisca nada fora do padro global. Uns elogiam os shows internacionais, 
outros questionam: por que no se d mais espao pr regional? Voc fala de amor eterno,  piegas. Voc fala em seduo e liberdade,  a filha preferida do demnio.
Alguns voc comove, outros revolve o estmago. Se cita um caso que aconteceu com voc,  porque est focada
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no prprio umbigo. Se cita um caso que aconteceu com algum, no tem originalidade suficiente. Se inventa um caso que no aconteceu mas poderia, est fazendo fico 
onde no devia.
Falou em Nova York,  metida. Falou em Ibiraquera, metida made in Brasil. Colocou palavras em ingls no texto? Nenhum problema, pensam uns; paredn, pedem outros, 
que palavra em espanhol pode.
Falou bem do PT? Rendida, vendida, mal-intencionada. Falou mal do PT? Rendida, vendida, mal-intencionada. No falou de poltica? Alienada.
Usa uma palavra antiga, entrega a idade. Usa uma palavra nova, est inventando moda. Que palavra est em voga?
Voga?????
O mesmo texto tudo provoca: uns te amam, outros te toleram e alguns no perdem a chance de te esculachar. Como te lem os que te odeiam.
Voc toca profundamente o corao de uma senhora e com o mesmo texto enoja um estudante. Uma professora te agradece a contribuio em sala de aula, outra probe 
que os alunos te convoquem. Voc defende as minorias e alguns vibram com a referncia, outros tm certeza que  deboche. E nem ouse citar Deus em suas crnicas, 
apenas em suas preces.
 uma aventura a cada linha, uma salada mista a cada ponto de vista. Franco-atiradores a servio da reflexo, todos ns, os da e os de c, sabemos um pouco de tudo 
e muito do nada, e salve o bom humor diante desta anarquia, j que de algum jeito h que se ganhar a vida.
 25 de janeiro de 2006
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O CARTO

Eu tinha dezessete anos e era louca por um cara com quem trocava olhares, no mais que isso. Ele era o legtimo "muita areia pr meu caminho" e jamais acreditei
que pudesse vir a se interessar por mim, o que me deixava ainda mais apaixonada, claro. Mulher adora um amor impossvel.
Ento chegou o dia do meu aniversrio. No final da manh eu estava em casa, contando os minutos para uma festa que daria  noite, quando a empregada apareceu com 
um carto nas mos, dizendo que o zelador o tinha encontrado embaixo da porta do prdio. Abri e fiquei azul, verde, laranja: era dele! Corri para o telefone e liguei 
para a minha melhor amiga. "Que trote bobo, voc quase me mata de susto, pensa que no sei que foi voc que escreveu o carto?" Ela jurou por todos os santos que 
no. Liguei para outra amiga. "A letra  igual a sua, eu sei que foi voc!" No tinha sido. Liguei para outra: "Voc acha que eu
vou acreditar que um cara lindo 
que nunca me disse bom dia veio at aqui largar um carto amoroso desses?" Ela me recomendou terapia. bom, diante de tantas negativas, s me restou pensar: "Outra
hora eu descubro quem  que est tirando uma comigo".
E esqueci o assunto.
Semanas depois estava caminhando na rua quando encontrei o dito cujo. Ele resmungou um oi, eu devolvi outro oi, e ento ele perguntou se eu havia recebido o carto 
de aniversrio. Minha presso caiu, minhas pernas fraquejaram,
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eu s pensava: mas que idiota eu fui! O que iria responder? "Recebi, mas jamais passaria pela minha cabea que um homem espetacular como voc, que pode ter a mulher 
que escolher, fosse entrar numa papelaria, comprar um carto, escrever um texto caprichado, depois descobrir meu endereo e ento pegar o carro, ir at a minha rua, 
colocar o envelope embaixo da porta feito um ladro, e a voltar para casa e aguardar meu telefonema. Olhe bem pra mim, eu no mereo tanto empenho."
Respondi: "Que carto?"
Ele soltou um "deixa pra l" e foi embora se sentindo o mais esnobado dos homens. E assim terminou uma linda histria de amor que nunca comeou. Anos depois nos 
encontramos casualmente e tivemos um rapidssimo affair, mais a j no ramos os mesmos, no havia clima, ficamos juntos apenas para ver como teria sido se. Vimos.
E no escutamos sinos, no fomos flechados pelo Cupido. Cada um voltou para a sua vida e nunca mais tivemos notcia um do outro.
Contei essa histria para um amigo outro dia e ele comentou que conhecia outras mulheres assim. Epa, assim como? Ora, assim medrosa, desconfiada, temendo pagar micos
diante da vulnerabilidade que toda paixo provoca. Ele estava certo. Era assim mesmo que eu me sentia aos dezessete anos: medrosa e incapaz de levar um grande amor 
adiante. Quando recebi o tal carto, deveria ter ligado imediatamente para o meu prncipe encantado para agradecer e convid-lo para a festa.
E se ele tivesse dito: "Que carto?"
Eu responderia: "Deixa pra l, mas venha  festa assim mesmo". E ento eu assumiria as conseqncias, no importa quais fossem. O nomezinho disso: vida.  sempre 
uma incgnita, portanto no vale a pena tentar fugir das decepes ou
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dos xtases, eles nos assaltaro onde estivermos. Se voc for uma garota boba como eu fui, acorde. Ningum  muita areia pra ningum. Pessoas aparentemente especiais 
se apaixonam por outras aparentemente banais e isso no  um trote, no  uma pegadinha, no  nada alm do que : um inesperado presente da vida, que todos ns 
merecemos.
5 de fevereiro de 2006
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PARA QUE LADO CAI A BOLINHA

O filme comea com a cmera parada no centro de uma quadra de tnis, bem na altura da rede. Vemos ento uma bolinha cruzar a tela em cmera lenta. Depois ela cruza
de volta, e cruza de novo, mostrando que o jogo est em andamento. De repente, a bolinha bate na rede e levanta no ar. A imagem congela. O locutor diz que tudo na 
vida  uma questo de sorte. Voc pode ganhar ou perder. Depende do lado que vai cair a bolinha.
 o incio de Match Point, o mais recente filme de Woody Allen, que concorre hoje  noite ao Oscar de roteiro original.  uma verso mais sofisticada, mais sensual 
e mais trgica de um outro filme do cineasta, na minha opinio um de seus melhores: Crimes e pecados, de 1989. Em ambos, a eterna disputa entre a estabilidade e 
a aventura, entre render-se  moral ou desafi-la, o certo e o errado flertando um com o outro e gerando culpa. Onde, afinal, est a felicidade?
Certa vez li (no lembro a fonte) que felicidade  a combinao de sorte com escolhas bem feitas. De todas as definies, essa  a que chegou mais perto do que 
acredito. D o devido crdito s circunstncias e tambm aos nossos movimentos. Cinqenta por cento para cada. Um negcio limpo.
Em Crimes e pecados, Woody Allen inclinava-se para o pragmatismo. Dizia textualmente: somos a soma das nossas decises. Tudo envolve o nosso lado racional, at mesmo 
as escolhas afetivas. Casamentos acontecem por vrios motivos,
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entre eles por serem um timo arranjo social - e nem por isso desonesto. E at mesmo a paixo pode ser intencional. No filme, um certo filsofo diz que nos apaixonamos 
para corrigir o nosso passado.  uma idia que pode no passar pela nossa cabea quando vemos algum e o corao dispara, mas, secretamente, a inteno j existe: 
voc est em busca de uma nova chance de acertar, de se reafirmar. Seu corao apenas d o alerta quando voc encontra a pessoa com quem colocar o plano em prtica.
Em Match Point, Woody Allen passa a defender o outro lado da rede: a sorte como o definidor do rumo da nossa vida. O acaso como nosso aliado. Se a felicidade depende 
de nossas escolhas,  da sorte a ltima palavra. Voc pode escolher livremente virar  direita, e no  esquerda, mas  a sorte que determinar quem vai cruzar com 
voc pela calada, se um assaltante ou o Chico Buarque.  a bolinha caindo para um lado, ou para o outro.
Tanto em Crimes e pecados como nesse excelente e impecvel Match Point, fica claro o que todos deveramos aceitar: nosso controle  parcial. H quem diga at que 
no temos controle de nada. No existe satisfao garantida e tampouco frustrao garantida, estamos sempre na mira do imprevisvel. Treinamos, jogamos bem, jogamos 
mal, escolhemos bons parceiros, torcemos para que no chova, seguimos as regras, s vezes no, brilhamos, decepcionamos, mas ser sempre da sorte o ponto final.
5 de maro de 2006
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BELSSIMAS
J li muitos comentrios positivos a respeito de Belssima. O que ainda no li foi comentrios sobre a abertura da novela. Ou talvez tenha me escapado.
O tema da abertura: a beleza feminina. A msica: Voc  linda, de Caetano Veloso. Tinha tudo pra ser um festival de bom gosto, no entanto, h controvrsias. Se 
no h, olha eu aqui inaugurando uma.
A modelo que aparece de mai, sabe-se, tem um rosto perfeito: pena que pouco aparea. Em evidncia, apenas aquele amontoado de ossos. Coxas quase da mesma espessura
dos tornozelos e braos que mais parecem gravetos. Entre a pele e as costelas, onde foi parar o recheio?
Pode ter sido apenas um problema de iluminao ou de recorte, mas o resultado que nos  mostrado h meses, todas as noites,  o raquitismo como sinnimo de perfeio 
esttica.
Hoje  o Dia Internacional da Mulher, que na prtica no ajuda a mudar muita coisa, mas ao menos serve para reflexes, debates e crnicas temticas. O que valeria 
a pena discutir hoje? Proponho um assunto sem relevncia poltica, mas igualmente importante: o recheio. Tudo o que temos retirado de ns, tudo o que tem sido lipoaspirado 
de nossas vidas.
J fomos mais silenciosas. Mas, ao ganhar o direito  voz, nos tornamos mulheres aflitas, que no se permitem um momento de quietude. Falamos, falamos, falamos
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compulsivamente, como se fosse contra-indicado guardar-se um pouco, como se o silncio pudesse nos inchar.
J sofremos com mais pudor. Hoje nossas deprs so extravasadas, distribudas, ofertadas, viram capa de revista, como se a dor fosse uma inimiga a ser despejada,
como se o sofrimento fosse algo venenoso e necessitasse de expulso, como se no valesse a pena alimentar-se dele e atravs dele
crescer.
J fomos mes mais atentas, que geravam por mais tempo, por bem mais do que nove meses. Levvamos os filhos dentro de nossas vidas por longos anos. Hoje temos mais 
pressa em entreg-los para o mundo, a responsabilidade pesa, e como peso  tudo o que no queremos, acabamos por nos aliviar dos compromissos severos de toda educao.
J fomos mais romnticas. Hoje o sexo  mais importante, queima calorias, melhora a pele e no duvido que um corao vazio tambm ajude na hora de subir na balana.
Por um lado, conquistamos tanto, e, por outro, estamos nos esvaziando, querendo tudo rpido demais e abrindo mo de aproveitar o que a vida tem de melhor: o sabor, 
o gosto. Calma, meninas. Amor no engorda. Discrio no engorda. Reflexo no engorda. No  preciso se agitar tanto, correr tanto, falar tanto, brigar tanto, nada 
disso  exerccio aerbico,  apenas tenso. Nesse ritmo, perderemos a beleza da feminilidade e acabaremos secas no s por fora, mas por dentro tambm.
8 de maro de 2006
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A SEPARAO COMO UM ATO DE AMOR

 sabida a dor que advm de qualquer separao, ainda
mais da separao de duas pessoas que se amaram muito e que acreditaram um dia na eternidade desse sentimento. A dor-de-cotovelo corri milhares de coraes de segunda
a domingo - principalmente aos domingos, quando quase nada nos distrai de ns mesmos -, e a maioria das lgrimas que escorrem  de saudade e de vontade de rebobinar 
os dias, viver de novo as alegrias perdidas.
Acostumada com essa viso dramtica da ruptura, foi com surpresa e encantamento que li uma descrio de separao que veio ao encontro do que penso sobre o assunto, 
e que  uma avaliao mais confortante, ao menos para aqueles que no se contentam em reprisar comportamentos-padro. Est no livro Nas tuas mos, da portuguesa
Ins Pedrosa.
"Provavelmente s se separam os que levam a infeco do outro at os limites da autenticidade, os que tm coragem de se olhar nos olhos e descobrir que o amor de
ontem merece mais do que o conforto dos hbitos e o conformismo da complementaridade."
Ela continua:
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"A separao pode ser o ato de absoluta e radical unio, a ligao para a eternidade de dois seres que um dia se amaram demasiado para poderem amar-se de outra maneira, 
pequena e mansa, quase vegetal."
Calou fundo em mim essa declarao, porque sempre considerei que a separao de duas pessoas precisa acontecer antes do esfacelamento do amor, antes de iniciarem 
as brigas, antes da falta de respeito assumir o comando.  to difcil a deciso de se separar que vamos protelando, protelando, e nessa passagem de tempo se perdem 
as recordaes mais belas e intensas. A mgoa vai ganhando espao, uma mgoa que nem  pelo outro, mas por si mesmo, a mgoa de reconhecer-se covarde. E ento as 
discusses se intensificam e quando a separao vem, no h mais onde se segurar, o casal no tem mais vontade de se ver, de conversar, querem distncia absoluta, 
e a configura-se o desastre: a sensao de que nada valeu. Esquece-se do que houve de bom entre os dois.
Se o que foi bom ainda est fresquinho na memria afetiva,  mais fcil transformar o casamento numa outra relao de amor, numa relao de afastamento parcial, 
no total. Se o casal percebe que est caminhando para o fim, mas ainda no chegou ao momento crtico - o de tornarem-se insuportavelmente amargos -, talvez seja 
uma boa alternativa terminar antes de um confronto agressivo. Ganha-se tempo para reestruturar a vida e ainda preserva-se a amizade e o carinho daquele que foi to 
importante. Foi, no. Ainda .
"S ns dois sabemos que no se trata de sucesso ou fracasso. S ns dois sabemos que o que se sente no
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se trata -eem nome desse intratvel que um dia nos fez estremecer que agora nos separamos. Para l da dilacerao dos dias, dos livros, discos e filmes que nos 
coloriram a vida, encontramo-nos agora juntos na violncia do sofrimento, na ausncia um do outro como j no nos lembrvamos de ter estado em presena.
 uma forma 
de amor invivel, que, por isso mesmo, no tem fim."
 um livro lindo que fala sobre o amor eterno em suas mais variadas formas. Um alento para aqueles - poucos - que respeitam muito mais os sentimentos do que as convenes.
12 de maro de 2006
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AINDA SOBRE SEPARAO
A crnica do domingo passado, A separao como um ato de amor, resultou em inmeros depoimentos de leitores. Muitas pessoas me escreveram dizendo que adorariam ter 
se separado de uma maneira cordial, no violenta, mas que infelizmente no havia sido assim com eles. Outros disseram que conseguiram chegar a um consenso e manter 
a amizade e o afeto, tal qual foi descrito no texto. Outros ainda disseram que vivem casados e felizes h quarenta anos e esperam jamais precisar passar por um divrcio. 
O que importa  que em todos os e-mails encontrei doura e boa vontade para viver relaes mais civilizadas, que possibilitem uma ruptura menos traumtica, no caso 
de um dia ela ser necessria.
Estava tudo assim cor-de-rosa quando entrou o e-mail de uma mulher de uns trinta anos dizendo que separao amigvel  conversa pra boi dormir. Ex-marido e ex-mulher 
 sempre uma pedra no sapato. Que o mximo que podemos fazer  toler-los em situaes em que no haja outra sada. Era um e-mail furioso e, por isso mesmo, engraado, 
o que me fez lembrar imediatamente de um livro que acaba de ser lanado e que, em vez da viso potica e afetiva do Nas tuas mos, de Ins Pedrosa, que me serviu 
de gancho para a primeira crnica, traz uma viso mais cida do assunto. cida, hilria e tambm muito verdadeira, porque no existe uma verdade nica sobre o tema. 
O ttulo: O diabo que te carregue!, da tima Stella Florence.
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Stella no esconde de ningum que noventa por cento do que relata no livro aconteceu com ela. Ento misture um depoimento biogrfico com pitadas de um humor selvagem 
e um texto super bem escrito e eis uma obra que ser excelente companhia para quem estiver passando pelo desgaste de uma separao, ou j passou, ou desconfia de
que vai passar. Riso e reflexo: tem dobradinha melhor para quando se est arrancando os cabelos
e vivenciando um apocalipse now?
Em O diabo que te carregue!, o casal no acaba junto, bvio. Mas apesar de todos os destemperos, mgoas, acessos de fria, solido, discusses sobre grana, sobre
filhos, raivas contidas e raivas extrapoladas, nota-se que o ex de Stella sobreviveu muito bem ao cataclismo, tanto que  ele quem escreve o prefcio.  ou no 
um mundo civilizado?
S no  mais civilizado porque a maioria das pessoas ainda se rende muito facilmente ao script que nos entregam no bero, sem bolar outras formas de ser feliz - 
e at outras formas de ser infeliz. Se todo mundo diz que separao , obrigatoriamente, um colapso de conseqncias trgicas, l vamos ns nos comportar como se 
estivssemos vivendo as tais conseqncias trgicas, quando talvez estejamos apenas temendo a liberdade  qual nos desacostumamos, mais nada.
Claro que toda separao  um angu, mas h maneiras e maneiras de se lidar com ela. Uns aceitam a tristeza como algo inevitvel, temporrio e enriquecedor, outros 
transformam sua dor em catarse coletiva onde o humor e a inteligncia vencem no final. Qual desses roteiros  mais realista? Eu diria que tudo  real, transitrio 
e reversvel. Assim como um casamento pode no dar certo, uma separao tambm pode no dar certo. No  uma idia alentadora? Gente, nossa separao no deu certo! 
Volta tudo como era antes.
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Melhor do que se preocupar com um happy endou com um unhappy end  desejar que tudo tenha uma continuidade, estejamos ss ou acompanhados. O livro da Stella  
mais ou menos isto: uma caminhada cheia de contratempos at descobrir com alvio, l no fim, que no h fim, a vida segue.
19 de maro de 2006
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UMA VIDA INTERESSANTE

E, se eu lhe disser que estou com medo de ser feliz pra
sempre?" pergunta ao seu analista a personagem Mercedes, da pea Div, que estria hoje em Porto Alegre.
 uma pergunta que vem ao encontro do que se debateu dias atrs num programa de tev. O psicanalista Contardo Calligaris comentou que ser feliz no  to importante,
que mais vale uma vida interessante. Como algumas pessoas demonstraram certo desconforto com essa citao, acho que vale um mergulhinho no assunto.
"Ser feliz", no contexto em que foi exposto, significa o cumprimento das metas tradicionais: ter um bom emprego, ganhar algum dinheiro, ser casado e ter filhos. 
Isso traz felicidade? Claro que traz. Saber que "chegamos l" sempre  uma fonte de tranqilidade e segurana. Conseguimos nos enquadrar, como era o esperado. A 
vida tal qual manda o figurino. Um delicioso feijo-com-arroz.
E o que se faz com nossas outras ambies?
No por acaso a biografia de Danuza Leo estourou. Ali estava a histria de uma mulher que no correu atrs de uma vida feliz, mas de uma vida intensa, com todos 
os preos a pagar por ela. A maioria das pessoas l esse tipo de relato como se fosse fico. Era uma vez uma mulher charmosa que foi modelo internacional, casou 
com jornalistas respeitados, era amiga de intelectuais, vivia na noite carioca e, por tudo isso, deu a sorte de viver uma vida interessante. Deu sorte?
Alguma, mas nada teria acontecido se ela no tivesse tido peito. E ela sempre teve. Ao menos, metaforicamente.
Pessoas com vidas interessantes no tm fricote. Elas trocam de cidade. Investem em projetos sem garantia. Interessam-se por gente que  o oposto delas. Pedem demisso 
sem ter outro emprego em vista. Aceitam um convite para fazer o que nunca fizeram. Esto dispostas a mudar de cor preferida, de prato predileto. Comeam do zero 
inmeras vezes. No se assustam com a passagem do tempo. Sobem no palco, tosam o cabelo, fazem loucuras por amor, compram passagens s de ida.
Para os rotuladores de planto, um bando de inconseqentes. Ou artistas, o que d no mesmo.
Ter uma vida interessante no  prerrogativa de uma classe.  acessvel a mdicos, donas de casa, operadores de telemarketing, professoras, fiscais da Receita, ascensoristas. 
Gente que assimilou bem as regras do jogo (trabalhar, casar, ter filhos, morrer e ir pr cu), mas que, a exemplo de Groucho Marx, desconfia dos clubes que lhe aceitam 
como scia. Qual  a relevncia do que nos  perguntado numa ficha de inscrio, num cadastro para avaliar quem somos? Nome, endereo, estado civil, RG, CPF. Aprovado. 
Bem-vindo ao mundo feliz.
Uma vida interessante  menos burocrtica, mas exige muito mais.
22 de maro de 2006
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ELES S PENSAM NISSO

Quarta-feira passada, estria da pea Div. Termina o espetculo, os homens saem apressados e se amontoam uns sobre os outros num cantinho do Theatro So Pedro,
como se ali estivesse acontecendo uma exposio clandestina com fotos de mulheres nuas. Mas no h mulher nua nenhuma. Ali h uma televiso,  frente da qual eles 
se acotovelam para ver os momentos finais do jogo Inter versus Pumas.
Dia seguintej a dana de Deborah Colker encanta a platia do Sesi. Assim que os bailarinos encerram a apresentao, as luzes se acendem e os homens arrancam seus 
celulares dos bolsos com a ansiedade de quem precisa saber se o filho j chegou da misso no Haiti ou se a irm sobreviveu  cirurgia no crebro. Logo descobrem 
o que querem descobrir. E comea o troca-troca de informaes entre seres que nunca se viram, mas que agem como se fizessem parte de uma confraria: "Um a zero!", 
"Vo prs pnaltis", "Vai
dar, sei no. Eles ainda nem chegaram ao estacionamento e j no tem a mnima lembrana do que assistiram no palco momentos atrs. O Grmio perdeu.
Srio, acho comovente essa devoo.
No  que homens gostem de futebol,  muito mais do que gostar. Eles ampliam seu universo atravs desse esporte. Tudo o que se diz, preconceituosamente, que um homem
no , ele , desde que esteja num estdio ou em frente  tev.
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Ele se emociona, chora, festeja, pula, abraa, faz festa, se desespera. D um salto mortal sem nunca antes ter dado uma cambalhota. Extravasa-se. Solta no berro
todas as injustias acumuladas na semana e fica com o semblante abobalhado diante de um drible, como se estivesse assistindo ao vivo o jogo de pernas da Juliana
Paes. Ele  tudo, menos um insensvel.
Outra coisa: dizer que homens no tm boa memria para datas e acontecimentos importantes s pode ser implicncia. Pergunte a qualquer um h quanto tempo no acontece
um Grenal, em que dia comea a Copa, qual a escalao do time que ganhou a medalha de prata nas Olimpadas de
2004, e ele acertar as duas primeiras perguntas e engasgar na terceira, quando ento se dar conta da pegadinha: a seleo masculina no se classificou para disputar
os jogos de Atenas. No trucide o coitado.
A meu ver, todos os gols do Fantstico so iguais entre si e iguais aos que foram mostrados em 1979, 1985, 1994, mas quem sou eu? Apenas uma mulher. No entanto,
no  por ser mulher que vou fazer coro com aquelas que vivem reclamando de seus maridos e namorados por causa da segunda paixo deles. Segunda paixo, sim. A primeira
 a mulherada. Visualize a cena: vrios homens dentro de um teatro enquanto seu time est l fora jogando. Se existe prova de amor maior, no conheo.
29 de maro de 2006
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FALAR

J fui de esconder o que sentia, e sofri com isso. Hoje no escondo nada do que sinto e penso, e s vezes tambm sofro com isso, mas ao menos no compactuo mais
com um tipo de silncio nocivo: o silncio que tortura o outro, que confunde, o silncio a fim de manter o poder num relacionamento.
Assisti ao filme Mentiras sinceras com uma pontinha de decepo - os comentrios haviam sido timos, porm a conteno inglesa do filme me irritou um pouco. Nos
momentos finais, no entanto, uma cena aparentemente simples redimiu minha frustrao. Embaixo de um guarda-chuva, numa noite fria e molhada, um homem diz para uma
mulher o que ela sempre precisou ouvir. E eu pensei: como  fcil libertar algum de seus fantasmas e, libertando-o, abrir uma possibilidade de t-lo de volta, mais
inteiro.
Falar o que se sente  considerado uma fraqueza. Ao sermos absolutamente sinceros, a vulnerabilidade se instala. Perde-se o mistrio que nos veste to bem, ficamos
nus. E no  esse tipo de nudez que nos atrai.
Se a verdade pode parecer perturbadora para quem fala,  extremamente libertadora para quem ouve.  como se uma mo gigantesca varresse num segundo todas as nossas
dvidas. Finalmente, se sabe.
Mas sabe-se o qu? O que todos ns, no fundo, queremos saber: se somos amados.
To banal, no?
E no entanto essa banalidade  fomentadora das maiores carncias, de traumas que nos aleijam, nos paralisam e nos afastam das pessoas que nos so mais caras. Por
que a dificuldade de dizer para algum o quanto ela  - ou foi
- importante? Dizer no como recurso de seduo, mas como um ato de generosidade, dizer sem esperar nada em troca. Dizer, simplesmente.
A maioria das relaes - entre amantes, entre pais e filhos, e mesmo entre amigos - se ampara em mentiras parciais e verdades pela metade. Pode-se passar anos ao
lado de algum falando coisas inteligentes, citando poemas, esbanjando presena de esprito, sem ter a delicadeza de fazer a aguardada declarao que daria ao outro
uma certeza e, com a certeza, a liberdade. Parece que s conseguimos manter as pessoas ao nosso lado se elas no souberem tudo. Ou, ao menos, se no souberem o
essencial. E assim, atravs da manipulao, a relao passa a ficar doentia, inquieta, frgil. Em vez de uma vida a dois, passa-se a ter uma sobrevida a dois.
Deixar o outro inseguro  uma maneira de prend-lo a ns - e este "a ns" inspira um providencial duplo sentido. Mesmo que ele tente se libertar, estar amarrado
aos pontos de interrogao que colecionou. Somos sdicos e avaros ao economizar nossos "eu te perdo", "eu te compreendo", "eu te aceito como s" e o nosso mais
profundo "eu te amo" - no o "eu te amo" dito s pressas no final de uma ligao telefnica, por fora do hbito, e sim o "eu te amo" que significa: "Seja feliz
da maneira que voc escolher, meu sentimento permanecer o mesmo".
Libertar uma pessoa pode levar menos de um minuto. Oprimi-la  trabalho para uma vida. Mais que as mentiras, o silncio  que  a verdadeira arma letal das relaes
humanas.
2 de abril de 2006
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UM LUGAR PARA CHORAR
A dor vinha represada a dias, a mulher desejava apenas que no vazasse em hora imprpria, mas que controle poderia ter? Estava dirigindo rumo ao supermercado,
quando uma msica escapou do rdio para devor-la inteira, e ento, s dez e vinte de uma manh de sexta-feira, numa rua bastante movimentada, ela comeou a chorar.
Buscou os culos na bolsa, mas no desligou o rdio, pois j no havia remdio, agora que desaguava. Os pensamentos aproveitaram a correnteza e invadiram o crebro,
cristalinos. Todas as verdades emergiram juntas: j que no havia mais como parar o sofrimento, ao menos seria prudente estacionar o carro. Procurou uma rua calma,
encostou no meio-fio, mas havia pessoas na calada. Arrancou. Em outra rua, estacionou diante de um prdio, mas logo viu o porteiro levantando do banquinho e se 
aproximando, quem  essa estranha a esta hora? Foi embora.
Deslizou por avenidas que exigiam mais velocidade, mas no conseguia ultrapassar os quarenta quilmetros por hora, impossvel ir rpido para lugar nenhum. Ela passeava 
lentamente pela tristeza que finalmente tinha vindo ao seu encontro, sem escolher o momento.
Perto do supermercado, quando j parecia que estava comeando a se controlar, uma nova imploso jogou mais e mais lgrimas pra fora, precisava parar. Foi para os 
arredores de um colgio, mas ali no era seguro, havia muitos conhecidos.
Tentou uma pequena e abandonada alameda residencial, mas viu olhos espiando por trs das cortinas. Foi um pouco mais adiante, parou de novo em frente a um terreno 
baldio, e a foi o medo que no permitiu que ficasse, era s o que faltava ser vtima de alguma outra violncia, j lhe bastava o assalto dessa emoo que no cessava.
O ray-ban apoiado no nariz vermelho tentava esconder a pele mida. Que ningum alinhe o carro ao lado do meu neste sinal fechado, ela pensava enquanto pensava tambm 
em como estava vivendo a vida errada, a vida de outra pessoa que no era ela. Por onde comear a procurar aquela outra que havia sido um dia? No se dava conta de 
que era exatamente o que acontecia, o tumultuado encontro dela com ela mesma a lhe atropelar por dentro.
Diminuiu o ritmo perto de uma igreja, mas havia uma parada de nibus, impossvel deter-se ali. Encostou diante de outro prdio, mas j havia morado naquela rua. 
Na frente do parque, no. Algum viria cumprimentar, sempre h algum que lembra de voc de algum lugar.
No conseguindo estacionar o carro, foi obrigada a estancar o choro. Limpou o rosto com um leno de papel que encontrou no porta-luvas, olhou pelo retrovisor para 
ver se a aparncia denunciava sua situao, e resolveu que dava para enfrentar a vida, bastava no tirar o ray-ban da cara.
Chegando ao supermercado, pegou um carrinho de compras e consultou a lista que a empregada lhe dera. Farinha. Carne de segunda. Azeite. Papel higinico. Cebola. 
A mulher que ela no era assumira de novo o comando.
23 de abril de 2006
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O CAF DO PRXIMO
Foi em Praga, na Repblica Tcheca, que surgiu o hbito do "caf pendente". Tudo comeou com o personagem de um livro. Ele entra num bar, toma um caf e, quando 
vem a conta, ele paga dois, explicando pra garonete: "Pago o meu e deixo um pendente". Inaugurou-se assim o costume de se deixar pago dois, para o caso de surgir 
algum sem trocado para um cafezinho. A Livraria Argumento, do Rio, que tem em suas dependncias o charmoso Caf Severino, adotou esse esquema, rebatizando-o de 
"caf do prximo". Colocou um quadro-negro na entrada e ali vai anotando todos os cafs pendentes do dia, aqueles que j foram pagos. s vezes tem dois, s vezes 
trs, s vezes nenhum. Quem chega sem grana e v ali no quadro que h um caf pendente, pode pedi-lo sem constrangimento. Quando voltar outro dia, com dinheiro, 
poder, se quiser, pagar dois e retribuir a gentileza para o prximo desprevenido. E assim mantm-se a corrente, e ningum fica sem caf.
Num pas como o nosso, com tanta gente passando dificuldades e com governantes to desinteressados no bemestar social, essa histria me pareceu quase uma parbola. 
Num cantinho do Rio de Janeiro, uns pagam os cafs dos outros, colocando em prtica o tal "fazer o bem sem olhar a quem". Claro que  apenas um charme que a livraria 
oferece, sem pretenso de mudar o mundo, mas eu fico pensando que esse tipo de mentalidade poderia ser mais propagado entre
ns. Imagine se a moda pega em aougues, mercados, cinemas. Voc compra seis salsiches e paga sete, deixando um pendente. Voc faz as compras no mercado e deixa 
dois quilos de arroz pendentes. Vai ao cinema e, em vez de comprar uma entrada, compra duas. Em todos os estabelecimentos comerciais do pas, haveria um quadro-negro 
avisando as pendncias destinadas ao prximo. No soluciona nada, mas  simptico.
T bom, eu sei, posso at ver a confuso. Uns no iriam topar deixar pago nem um copo d'gua para estes "vagabundos que no trabalham". Alguns comerciantes rejeitariam 
a proposta sob o argumento de que "meu estabelecimento vai ficar cheio de mendigos". Realmente, talvez no seja uma boa idia para ganhar as ruas, ao menos no num 
pas onde a carncia  tanta, a falta de segurana  tanta, a desordem  tanta e a malandragem, nem se fala. Melhor deixar o "caf do prximo" como um charme a mais 
dentro de uma livraria carioca. Mas de uma coisa no tenho dvida: esse exemplo pequenssimo de boa vontade ter que um dia ser ampliado por todos ns. Vai ter uma 
hora em que a gente vai ter que parar de blablabl e fazer alguma coisa de fato. Ou a gente estende a mo pr tal do prximo, ou o prximo vai continuar exigindo 
o dele com uma faca apontada pra nossa garganta. Esperar alguma atitude vinda de Braslia? Aqueles no so os prximos, aqueles so os cada vez mais distantes. 
Deles no esperemos nada. Ou a sociedade se mexe e estabelece novas formas de convvio social, com idias simples, mas operacionais, ou o caf do prximo vai nos 
custar cada vez mais caro.
25 de abril de 2006
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TERAPIA DO AMOR

O filme Terapia do amor conta a histria de uma mulher de 37 anos que se envolve com um garoto de 23, e a coisa funciona s maravilhas,  claro, porque um homem
e uma mulher a fim um do outro  sempre uma combinao explosiva, no importa a idade. Mas como em todo conto de fadas que se preze, h a bruxa, no caso a me do
guri, que no gosta nadinha da idia, mesmo sendo uma psicanalista de cabea feita - alis, psicanalista da prpria nora, descobre ela tarde demais. Desse "tringulo" 
surgem as tiradas engraadas (Meryl Streep dando show, como sempre) e tambm a partezinha do filme que faz pensar.
Pensei. Mas no na questo da diferena de idade, to comum nas relaes atuais. Se antes era natural homens mais velhos se relacionarem com ninfetas, agora as 
mulheres mais maduras (no existe mulher velha antes dos cem) se relacionam com caras mais jovens e est tudo certo, at porque eles tambm tiram proveito. A troco 
de que gastar energia com uma garotinha cheia de inseguranas? Mais vale uma quarentona que perdeu a chatice natural de toda mulher e se tornou serena, independente, 
autoconfiante e bem-humorada. So mais relaxadas, garantem o prprio sustento e no perdem tempo fazendo drama -toa. Qual
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o homem que no vai querer uma mulher assim? Se voc acha que este pargrafo foi uma defesa em causa prpria e a de todo o mulherio que no tem mais vinte anos, 
acertou, parabns, pegue seu brinde na sada.
Sem brincadeira: o mais interessante do filme, a meu ver, foi mostrar que  difcil viver um relacionamento sabendo que ele vai terminar ali adiante, mas que, mesmo 
assim, vale a pena, nunca ser um tempo perdido. Fomos todos criados para o "pra sempre", como se o objetivo de todos os casais ainda fosse o de constituir famlia. 
Quando , convm pensar a longo prazo. S que hoje muitas pessoas se relacionam sem nenhum outro objetivo que no seja o de estar feliz naquele exato momento, mesmo 
sabendo que as diferenas de religio, idade, condio social ou ideologia podero encurtar a histria (podero, no quer dizer que iro). H cada vez menos iludidos. 
Poucos so aqueles que atravessam uma vida tendo um nico amor, ento, vale o que est sendo vivido, o momento presente. "Dar certo" no est mais relacionado ao 
ponto de chegada, mas ao durante.
A personagem de Meryl Streep, depois de ter todos os chiliques normais de uma me que acha que o filhote est perdendo em vez de estar ganhando com a experincia, 
organiza melhor seus pensamentos e diz, ao final do filme, uma coisa que pode parecer fria para ouvidos mais sensveis, mas  um convite a cair na real: "Podemos 
amar, aprender muito com esse amor e partir pra outra". O compromisso com a eternidade  opcional e ningum merece ser chamado de frvolo por no fazer planos 
de aposentar-se juntos.
J escrevi sobre isso em outras ocasies e sempre acham que estou descrevendo o apocalipse. Ao contrrio, triste 
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passar a vida falando mal do casamento - estando casado
- e colecionando casos extraconjugais e mentiras dolorosas. Melhor legitimar os amores mais leves, menos fbicos, comprometidos com os sentimentos e no com as 
convenes. Esses sero os melhores amores, que podero, quem sabe, at durar para sempre, o que ser uma agradvel surpresa, jamais uma condenao.

7 de maio de 2006

OS HONESTOS
Eles no so muitos, mas nada impede que apaream na sua vida de repente e coloquem tudo a perder. Eu sei que voc se protege, que seus advogados esto bem instrudos,
que o pessoal do Recursos Humanos sente o cheiro dessa gente de longe, mas descuidos acontecem, e a qualquer hora do dia ou da noite voc pode ter a infelicidade 
de topar com um deles na sua empresa com crach e tudo, infiltrado dentro desse imprio que voc construiu com tanto esforo e dedicao, e ser o seu fim. Ele 
vai jogar seu nome na lama. Ele, o honesto.
O honesto no d pinta de que  honesto, parece um sujeito comum, que voc at apresentaria para sua filha. Voc jura que ele ganha seu sustento como todo mundo, 
fazendo uma maracutaiazinha aqui, uma sonegaozinha ali, tudo nos conformes. Mas no, ele no  como todo mundo. Ele teve uma infncia diferente. Teve pais que 
lhe deram valores e princpios.  um produto do seu meio, no tem culpa. De certa forma, a sociedade  responsvel por ele. Ele  um excludo que s quer encontrar 
uma forma de sobrevivncia, de ser algum na vida. Escolheu este, o caminho da honestidade.
Veja o que aconteceu nos Estados Unidos recentemente. Um funcionrio de uma empresa de TV a cabo se recusou a mentir para os clientes. A companhia sempre treinou 
seus tcnicos para ligarem o equipamento de TV  linha telefnica dos assinantes com o objetivo de lucrar
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mais. Um troo corriqueiro. Os tcnicos diziam que era um procedimento de praxe, que se o equipamento no fosse ligado  linha ele no funcionaria direito - uma 
mentirinha inocente -, ento os clientes topavam e a empresa forrava o bolso de dinheiro com o pagamento das taxas de conexo. Estava tudo correndo bem, at que 
surgiu esse funcionrio que resolveu avisar os clientes de que no era preciso fazer a conexo. Pronto. Por causa de uma nica clula ruim, a empresa perdeu milhes, 
sem falar na desmoralizao pblica. O sujeito foi demitido, claro.
Assim como ele, h outros honestos atrapalhando o desenvolvimento da sociedade. So aqueles que se negam a receber uma propinazinha para agilizar uma negociao, 
que denunciam pequenas armaes, que no superfaturam notas, que insistem em dizer sempre a verdade e que do o pssimo exemplo de devolver o que no  deles, menosprezando 
a prpria sorte.
So mdicos que no prescrevem remdios -toa, mesmo que o paciente ache que est doente (se ele acha, o que custa incentiv-lo a consumir uns comprimidinhos e alavancar 
a indstria farmacutica?). So comerciantes que no vendem produtos com o prazo de validade vencido, servidores que no vendem carteiras de habilitao para quem 
no fez teste de direo, donos de bar que no vendem bebida alcolica para menores, todos puxando o freio de mo da nossa economia. Sem falar nos que jamais desviam 
dinheiro
- e assim no distribuem renda.
No d pra acobertar essa gente. Quando se desmascara um, tem mesmo que colocar na primeira pgina do jornal. \ 10 de maio de 2006
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A MELHOR ME DO MUNDO
Voc . Sua vizinha tambm. A Mait. A Malu. A Cludia. Eu, naturalmente. Somos as melhores mes do mundo. Alis, essa  a nica categoria em que no h segundo
lugar, todas as mes so campes, somos bilhes de "as melhores" espalhadas pelo planeta. Ao menos, as melhores para nossos filhos, que nunca tiveram outra.
No  uma sorte ser considerada a melhor, mesmo se atrapalhando tanto? Me erra, crianas. E improvisa. Me no vem com manual de instrues: reage apenas aos mandamentos 
do corao, o que tem um inestimvel valor, mas no substitui um bom planejamento estratgico. E planejamento  tudo o que uma me no consegue seguir, por mais 
que livros, revistas e psiclogos tentem nos orientar.
Um dia um exame confirma que voc est grvida e a felicidade  imensa e o pnico tambm. Uau,
vou ser responsvel pela criao de um ser humano! (Papai tambm vai, 
mas em agosto a gente fala dele.) A partir da, nunca mais a vida como era antes. Nunca mais a liberdade de sair pelo mundo sem dar explicaes a ningum. Nunca
mais pensar em si mesma em primeiro lugar. S depois que eles fizerem dezoito anos, e isso demora. E s vezes nem adianta.
O primeiro passo  se acostumar a ser uma pessoa que j no pode se guiar apenas pelos prprios desejos. Voc
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continuar sendo uma mulher ativa, autntica, batalhadora, independente, estupenda, mas cem por cento livre, esquea. De maridos voc escapa, dos prprios pais 
voc escapa, mas da responsabilidade de ser me, jamais. E nem voc quer. Ou ser que gostaria?
De vez em quando, sim, gostaramos de no ter esse compromisso com vidas alheias, de no precisar monitorar
os passos dos filhotes, de no ter que se preocupar com a violncia que eles tero que enfrentar, de no sofrer pelas dores-de-cotovelo deles, de no temer por
suas fragilidades, de no ficar acordadas enquanto eles no chegam e de no perder a pacincia quando eles fazem tudo ao contrrio do que sonhamos.
Gostaramos que eles no falassem mal de ns nos consultrios dos psiquiatras, que eles no nos culpassem por suas inseguranas, que no fssemos a razo de seus
traumas, que esquecessem os momentos em que fomos severas demais e que nos perdoassem nas vezes em que fomos severas de menos. H sempre um "demais" e um "de menos" 
nos perseguindo. Poucas vezes acertamos na intensidade dos nossos conselhos e crticas.
Mas  assim que somos: s vezes exageradamente enrgicas em momentos bobos, s vezes um tantinho condescendentes na hora de impor limites. A gente implica com alguns 
amigos deles e adora outros e no consegue explicar por qu, mas nossa intuio diz que estamos certas. Mas de que adianta estarmos certas se eles s se daro conta 
disso quando tiverem os prprios filhos?
Erramos em for-los a gostar de aipo, erramos em agasalh-los tanto para as excurses do colgio, erramos em deixar que passem a tarde no computador em vspera
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de prova, erramos em no confiar quando eles dizem que sabem a matria, erramos em nos escabelar porque eles esto com os olhos vermelhos (pode ser resfriado!), 
erramos quando no os olhamos nos olhos, erramos quando fazemos drama por nada, erramos um pouquinho todo dia por amor
e por cansao.
O que nos torna as melhores mes do mundo  que nossos erros sero sempre acertos, desde que estejamos por perto.
14 de maio de 2008
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O QUE MAIS VOC QUER?
tra uma festa familiar, clessas que renem tios, primos, avs e alguns agregados ocasionais que ningum conhece direito. Jogada no sof, uma garota no estava l 
muito socivel, a cara era de enterro. Quieta, olhava para a parede como se ali fosse encontrar a resposta para a pergunta que certamente martelava em sua cabea: 
o que estou fazendo aqui? De soslaio, flagrei a me dela tambm observando a cena, inconsolvel, ao mesmo tempo em que comentava com uma tia: "Olha pra essa menina. 
Sempre com essa cara. Nunca est feliz. Tem emprego, marido, filho. O que ela pode querer mais?"
Nada  to comum quanto resumirmos a vida de outra pessoa e achar que ela no pode querer mais. Fulana  linda, jovem e tem um corpao, o que mais ela quer? Sicrana 
ganha rios de dinheiro,  valorizada no trabalho e vive viajando, o que  que lhe falta?
Imaginei a garota acusando o golpe e confessando: sim, quero mais. Quero no ter nenhuma condescendncia com o tdio, no ser forada a aceit-lo na minha rotina 
como um inquilino inevitvel. A cada manh, exijo ao menos a expectativa de uma surpresa, quer ela acontea ou no. Expectativa, por si s, j  um entusiasmo.
Quero que o fato de ter uma vida prtica e sensata no me roube o direito ao desatino. Que eu nunca aceite a idia de que a maturidade exige um certo conformismo. 
Que eu no tenha medo nem vergonha de ainda desejar.
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Quero uma primeira vez outra vez. Um primeiro beijo em algum que ainda no conheo, uma primeira caminhada por uma nova cidade, uma primeira estria em algo que 
nunca fiz, quero seguir desfazendo as virgindades que ainda carrego, quero ter sensaes inditas at o fim dos meus dias.
Quero ventilao, no morrer um pouquinho a cada dia sufocada em obrigaes e em exigncias de ser a melhor me do mundo, a melhor esposa do mundo, a melhor qualquer 
coisa. Gostaria de me reconciliar com meus defeitos e fraquezas, arejar minha biografia, deixar que vazem algumas idias minhas que no so muito abenoveis.
Queria no me sentir to responsvel sobre o que acontece ao meu redor. Compreender e aceitar que no tenho controle nenhum sobre as emoes dos outros, sobre suas 
escolhas, sobre as coisas que do errado e tambm sobre as que do certo. Me permitir ser um pouco insignificante.
E, na minha insignificncia, poder acordar um dia mais tarde sem dar explicao, conversar com estranhos, me divertir fazendo coisas que nunca imaginei, deixar 
de ser to misteriosa pra mim mesma, me conectar com as minhas outras possibilidades de existir. O que eu quero mais? Me escutar e obedecer ao meu lado mais transgressor, 
menos comportadinho, menos refm de reunies familiares, marido, filhos, bolos de aniversrio e despertadores na segunda-feira de manh. E tambm quero mais tempo 
livre. E mais abraos.
Pois , ningum est satisfeito. Ainda bem.
28 de maio de 2006
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LAOS

Se o filme  daqueles que as pessoas acampam na frente do cinema um dia antes da estria, de cara j risco da minha lista. No
vou. Mas se  daqueles que as salas ficam vazias, s uns abnegados enfrentam, t pra mim. Se voc fizer parte desse seletssimo grupo "do contra", ento reserve 
um tempo para assistir Estrela solitria,
que no  nem nunca ser um blockbuster (oramento de mirrados onze milhes de dlares) mas compensa o preo do ingresso.
Mais uma vez Wim Wenders nos coloca na estrada com personagens outsiders em busca de alguma coisa que est faltando. No caso de Estrela solitria, o que falta ,
adivinhe, sentido pra vida. A histria: depois de muito sexo, drogas e fama, um ator agora decadente abandona um set de filmagens para buscar sabe-se l o que no
meio da aridez norte-americana. Encontra a me, primeiro, que no via h trinta anos. Depois encontra um ex-amor e um filho que no sabia que existia. Encontra-se
a si mesmo? Tenta, ao menos.
O filme  um on the road de trs pra frente: em vez de ter buscado a liberdade e um futuro mais aventureiro, o personagem gostaria mesmo era de ter tido laos mais
permanentes, ter tido bem menos liberdade e mais comprometimento. C entre ns, numa poca em que ningum quer ser de ningum, um homem que quer ser de algum 
um tema revolucionrio.
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No que o filme tenha essa pretenso. O diretor Wim Wenders - aliado ao roteirista e ator Sam Shepard, sempre cool -  econmico e no pretende fazer carnaval nenhum 
das emoes. Simplesmente mostra poesia onde h poesia, e um pouco de msica boa. Em termos de fotografia, o filme  uma pintura. O homenageado  Edward Hopper, 
o artista que melhor retratou a solido e o isolamento do ser humano. No fosse por nada mais, s por certos enquadramentos valeria o filme.
Mas vale por mais. Vale pela cena em que Sam Shepard passa 24 horas sentado num sof abandonado no meio da rua, sem ter para onde ir. Vale pelo jogo de luz e sombras. 
Vale pela economia de dilogos, pela total falta de frases feitas. Vale para mostrar que personagens fictcios jamais compensaro uma boa vida real.
E vale porque durante duas horas voc est dentro de um cinema protegido dessa bandidagem que se tornou nossas vidas, em que roubo de carro  notcia, celular em 
presdio  notcia, em que s  notcia o macabro. Cinema te recupera um pouco dessa esquizofrenia.
Pode ser que voc cochile em alguns momentos, se for muito ligado em filme de ao. Mas v. Nem que seja pra resgatar o belo e descansar de tanto barulho.
28 de maio de 2006
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DIA MUNDIAL SEM TABACO

Para que serve um "Dia Mundial" de qualquer coisa? Para provocar uma reflexo, e isso no  pouco se levarmos em considerao que ningum anda muito a fim de pensar
em nada. Pois hoje  o "Dia Mundial Sem Tabaco", e  claro que vem a todo um discurso sobre os riscos causados pelo fumo. Uma cantilena necessria, ainda que as
pessoas saibam muito bem o veneno que esto tragando. Seria hoje um bom dia para romper com esse hbito?  um dia excelente, clssico. Pare, se for capaz. Mas
tem uma coisa ainda mais importante e muito mais fcil para se determinar hoje: no comear a fumar!
Os nmeros so alarmantes: cem mil jovens comeam a fumar todos os dias. Nesta quarta-feira, no mundo todo, tem cem mil garotos e garotas acendendo seu primeiro 
cigarro. Amanh sero outros cem mil. E sexta, mais cem mil. Como  que as pesquisas chegaram neste nmero eu no sei, mas a verdade  que tem gente 
bea no planeta 
e cem mil pode ser um chute bem aproximado.
A gente sabe por que um fumante tenta parar, mas o que faz um no-fumante comear? At algumas dcadas atrs, comeava-se a fumar por auto-afirmao. Todo adolescente
sonha em crescer de uma vez, parecer mais maduro do que  - e mais charmoso. O importante era ter Charm, algum lembra? E levar vantagem em tudo. E sentir um raro 
prazer. "Hollywood, o sucesso!" Por muito tempo o cigarro foi
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associado  aventura, beleza, classe, virilidade, erotismo. com espinhas na cara no se tem nada disso, mas d pra comprar uma carteira no boteco da esquina e bancar 
o tal.
Dei minha primeira tragada aos treze anos e o cigarro me enjoou tremendamente, mas no me deixei abater, eu tambm queria ter charme, ento insisti nessa insensatez 
durante algum tempo, at que comecei a dar vexames pblicos, passando mal de verdade. Descobri que era prefervel abrir mo do charme e ter minha reputao preservada. 
E o meu pulmo tambm. Foi litigioso: eu e ele nos abandonamos para nunca mais.
com o fim da propaganda e da associao do cigarro a pessoas vitoriosas, fumar perdeu status, passou a ser considerado uma fraqueza humana. Hoje os adolescentes 
se auto-afirmam de outras maneiras - atravs da roupa, do esporte, da ficao, dos blogs e, tendo a cabea fraca, atravs de pichaes, bebedeiras e rachas. Observo 
diariamente alunos em portes de escolas e ningum fuma. Quando eu estudava, bastava colocar o p pra fora do colgio e quase todos os alunos acendiam um cigarro, 
se achando muito espertos. Os espertos, hoje, esto limpos. E mais bem informados. Sabem que, quando a nicotina entra na vida de algum,  pra ficar. Desgrudar-se 
 uma dificuldade. Morre-se por ela.
O cigarro dos outros nunca me aborreceu, compreendo perfeitamente que  um amor verdadeiro e difcil de largar. Quem estiver disposto, hoje  um bom dia para tentar 
parar, mas se no conseguir, pacincia, h hbitos piores nesta vida.
Mas quem nunca fumou no escolha hoje pra comear. Nem amanh, nem depois. Comear  que  estupidez. Comear  que no se explica.
31 de maio de 2006

MOS DADAS NO CINEMA
No Dia dos Namorados os restaurantes lotam, os vinhos so solicitados e as velas em cima da mesa so acendidas, h todo um clima propcio para olhos nos olhos
e confirmaes verbais do amor. Clich pra quem v de fora. Estando dentro, aceita-se as regras do jogo,  uma das formas recorrentes de comemorao. Mas, tivesse
eu que escolher o smbolo mximo do namoro, no me restringiria aos prazeres da mesa nem mesmo aos da cama, incluindo entre os da cama colocar sobre a colcha um 
gigantesco bicho de pelcia, um dos presentes preferidos para celebrar a data. Namoro que  namoro est representado por algo muito mais simples, sutil, barato e 
ntimo: os dedos entrelaados no escuro do cinema. De mos dadas se constri uma relao.
Do que sentem falta os amantes clandestinos? Luxria eles tm de sobra. O que lhes falta  esta forma brejeira de intimidade: dar-se as mos. Na rua  arriscado, 
h olhos por todos os lados, j no cinema  possvel providenciar um encontro s escuras e ali realizar a mais trrida aproximao de corpos, um ato realmente subversivo 
para adlteros: unir as mos como dois namorados.
Se, ao contrrio, o casal tem um namoro oficializado, sem razo para segredo, ainda assim o segredo se manter entre eles pelo simples fato de que as mos dadas 
dentro do cinema no so uma representao pblica de amor, e sim um carinho privado. Ningum est testemunhando, ningum est reparando, a platia est toda de 
olho na tela,
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e o casal tambm, porm seguros um no outro atravs de um entrelaamento que,  luz do dia, seria corriqueiro, um simples hbito sem maior significncia, mas que 
num espao compartilhado com estranhos, no escuro, torna-se uma forma particular e irresistvel de cumplicidade.
Esse gesto mundano e trivial carrega um significado que muitas vezes nem mesmo um beijo - um beijo! - possui. Pergunte a uma viva do que ela mais sente falta do 
falecido, e  bem capaz de ela lembrar s das incomodaes que o infeliz causava, mas as mos agarradas dentro do cinema ho de despertar sua saudade. Pergunte a 
mesma coisa a algum que est vivendo uma dor-de-cotovelo daquelas. Mesmo sofrendo,  provvel que no se comova com a lembrana das brigas e nem dos "eu te amo", 
mas ter que assistir a uma comdia romntica de braos cruzados h de feri-la de morte. E os casados h vinte, h trinta, h cinqenta anos? Podem atualmente rugir 
um para o outro na sala de jantar, mas dentro do cinema ainda tratam-se como se tivessem se conhecido ontem e no perdem o hbito instaurado no primeiro filme de 
suas vidas. Se no o fazem mais,  porque o casamento acabou e no foram avisados. O ltimo resqucio de amor ainda se confirma com as mos dadas dentro do cinema. 
H salvao para os que as mantm unidas ao menos ali.
Amanh ser dia de restaurantes lotados. Aleluia, abriro todos nesta segunda-feira, como costumam fazer as cidades civilizadas. Muitas rolhas de vinho tinto sero 
espocadas, umas tantas outras de champanhe. Quem tem fondue no cardpio servir fondue, e mesmo as pizzas sero degustadas como um prato especial. Pudera,  mesmo 
um dia especial.
Mas ser dentro dos cinemas que a declarao mais terna e espontnea se dar.
11 de junho de 2006
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PIPOCAS

A. cidade estava em quase absoluto silncio, at parecia quatro da manh, mas era pouco mais do que quatro da tarde. Levantei do sof um instante, no final do primeiro
tempo, para ir at a janela observar os prdios, as ruas. Todos estavam dentro de suas "panelas", feito gros de pipoca que ainda no estouraram, mas faltava pouco 
para que explodissem. Foi bem nessa hora que Kak marcou o primeiro gol do Brasil. A tampa da cidade se abriu e as pipocas finalmente estouraram. O povo saltou da 
cadeira como aquele desenho animado que passa antes dos filmes, as pipoquinhas todas em polvorosa, alegres, empolgadas.  isso, pensei: somos milhes de pipocas 
em ao.
No me olhe com essa cara, juro que estou em pleno domnio das minhas faculdades mentais.  que no  fcil escrever uma coluna um dia aps a estria do Brasil 
na Copa, e ainda escrever a jato, porque o jornal tem que fechar a edio. Bem que eu queria demonstrar aqui neste espao minha perplexidade com o assassinato brutal 
das meninas gachas na Grande Florianpolis, ou falar que minha torcida pela Varig  to grande quanto a torcida pelos Ronaldos. Mas um dia aps a nossa primeira 
e suada vitria, no tenho como fugir de falar sobre algo relacionado a futebol. E j que no sou comentarista, no estou na Alemanha e me confunde at hoje com 
a lei do impedimento, pensei em apelar para uma metfora, algo assim como comparar pessoas a pipocas,
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levando em considerao que a pipoca, alimento to associado ao cinema, troca de assento durante a Copa do Mundo e se converte no melhor companheiro em frente  
tev.
Pesquisando sobre o tema, descobri que o milho que no estoura se chama piru. Sabe aquele milho que sobra na panela e se recusa a virar um floquinho branco, macio 
e alegre? Piru. E a tenho que concordar com o escritor Rubem Alves, que j escreveu sobre o assunto: tem muita gente piru neste planeta. Gente que no reage 
ao calor, que no desabrocha. Fica ali, duro, triste e intil pr resto da vida. No cumpre sua sina de revelar-se, de transformar-se em algo melhor. No vira pipoca, 
mantm-se piru. E um piru emburrado, que reclama que nada lhe acontece de bom. Pois . Perdeu a chance de entregar-se ao fogo, tentou se preservar, danou-se.
Domingo vai acontecer outra vez: todo mundo enclausurado dentro de suas panelas. Silncio, tenso. O fogo ser acendido assim que o juiz apitar o incio da partida 
contra a Austrlia. Que a seleo seja quente o bastante para nos fazer explodir. E que possa mostrar para aqueles que tm vocao para piru que o importante na 
vida  reagir s emoes, e no manter-se frio, fechado, feito um gro que no honrou o seu destino.
Eis a crnica de hoje. Aquela histria de que estou em pleno domnio das minhas faculdades mentais era brincadeira, como se v.
14 de junho de 2006
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A MORTE  UMA PIADA
Assisti a algumas imagens do velrio do Bussunda, quando os colegas do Casseta & Planeta deram seus depoimentos. Parecia que a qualquer instante iria estourar uma 
piada. Estava tudo srio demais, faltava a esculhambao, a zombaria, a desestruturao da cena. Mas nada acontecia ali de risvel, era s dor e perplexidade, que 
 mesmo o que a morte causa em todos os que ficam. A verdade  que no havia nada a acrescentar no roteiro: a morte, por si s,  uma piada pronta. Morrer  ridculo.
Voc combinou de jantar com a namorada, est em pleno tratamento dentrio, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartrio, colocar gasolina 
no carro e no meio da tarde morre. Como assim? E os e-mails que voc ainda no abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que voc prometeu dar  tardinha 
para um cliente?
No sei de onde tiraram esta idia: morrer. A troco? Voc passou mais de dez anos da sua vida dentro de um colgio estudando frmulas qumicas que no serviriam 
pra nada, mas se manteve l, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educao fsica, quase perdeu o flego, mas no desistiu. Passou madrugadas sem dormir 
para estudar pr vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dvidas quanto  profisso escolhida, mas era hora de decidir, ento 
decidiu, e mais uma vez foi em frente.
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De uma hora pra outra, tudo isso termina numa coliso na freeway, numa artria entupida, num disparo feito por um delinqente que gostou do seu tnis. Qual ?
Morrer  um chiste. Obriga voc a sair no melhor da festa sem se despedir de ningum, sem ter danado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra 
vez sua msica preferida. Voc deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha mida no varal, e penduradas tambm algumas contas. Os outros vo ser 
obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que voc deixou durante uma vida inteira. Logo voc, que sempre dizia: das minhas 
coisas cuido eu.
Que pegadinha macabra: voc sai sem tomar caf e talvez no almoce, caminha por uma rua e talvez no chegue na prxima esquina, comea a falar e talvez no conclua 
o que pretende dizer. No faz exames mdicos, fuma dois maos por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num sbado de manh. Se faz 
check-up regularmente e no possui vcios, morre do mesmo jeito. Isso  para ser levado a srio?
Tendo mais de cem anos de idade, v l, o sono eterno pode ser bem-vindo. J no h mesmo muito a fazer, o corpo no acompanha a mente, e a mente tambm j rateia, 
sem falar que h quase nada guardado nas gavetas. Ok, hora de descansar em paz. Mas antes de viver tudo, antes de viver at a rapa? No se faz.
Morrer cedo  uma transgresso, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer  um exagero. E, como se sabe, o exagero  a matria-prima das piadas. S que essa no 
tem graa nenhuma.
21 de junho de 2006
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OS RICOS POBRES
Anos atrs escrevi sobre um apresentador de televiso que ganhava um milho de reais por ms e que em entrevista vangloriava-se de nunca ter lido um livro na vida. 
Classifiquei-o imediatamente como um exemplo de pessoa pobre. Agora leio uma declarao do publicitrio Washington Olivetto em que ele fala sobre isso de forma exemplar. 
Ele diz que h no mundo os ricos-ricos (que tm dinheiro e tm cultura); os pobres-ricos (que no tm dinheiro mas so agitadores intelectuais, possuem antenas que 
captam boas e novas idias) e os ricos-pobres, que so a pior espcie: tm dinheiro mas no gastam um nico tosto da sua fortuna em livrarias, shows ou galerias 
de arte, apenas torram em futilidades e propagam a ignorncia e a grosseria.
Os ricos-ricos movimentam a economia gastando em cultura, educao e viagens, e com isso propagam o que conhecem e divulgam bons hbitos. Os pobres-ricos no tm 
saldo invejvel no banco, mas so criativos, efervescentes, abertos. A riqueza desses dois grupos est na qualidade da informao que possuem, na sua curiosidade, 
na inteligncia que cultivam e passam adiante. So esses dois grupos que fazem com que uma nao se desenvolva. Infelizmente, so os dois grupos menos representativos 
da sociedade brasileira.
O que temos aqui, em maior nmero,  um grupo que Olivetto nem mencionou, os pobres-pobres, que devido ao
baixssimo poder aquisitivo e quase inexistente acesso  cultura, infelizmente no ganham, no gastam, no aprendem e no ensinam: ficam  margem, feito zumbis. 
E temos os ricos-pobres, que tm o bolso cheio e poderiam ajudar a fazer deste pas um lugar que merea ser chamado de civilizado, mas nada disso: eles s propagam 
atraso, s propagam arrogncia, s propagam sua pobreza de esprito.
Exemplos? Vou comear por uma cena que testemunhei semana passada. Estava dirigindo quando o sinal fechou. Parei atrs de um Audi do ano. Carro. Dentro, um sujeito
de terno e gravata que, cheio de si, no teve dvida: abriu o vidro automtico, amassou uma embalagem de cigarro vazia e a jogou pela janela no meio da rua, como 
se o asfalto fosse uma lixeira pblica. O Audi  s um disfarce que ele pde comprar, no fundo  um pobreto que s tem a oferecer sua misria existencial.
Os ricos-pobres no tm verniz, no tm sensibilidade, no tm alcance para ir alm do bvio. S tm dinheiro. Os ricos-pobres pedem no restaurante o vinho mais 
caro e tratam o garom com desdm, vestem-se de Prada e sentam com as pernas abertas, viajam para Paris e no sabem quem foi Degas ou Monet, possuem tevs de plasma 
em todos os aposentos da casa e s assistem programas de auditrio, mandam o filho pra Disney e nunca foram numa reunio da escola. E, claro, dirigem um Audi e jogam 
lixo pela janela. Uma esmolinha pra eles, pelo amor de Deus.
O Brasil tem sada se deixar de ser preconceituoso com os ricos-ricos (que ganham dinheiro honestamente e sabem que ele serve no s para proporcionar conforto, 
mas tambm para promover o conhecimento) e se valorizar os pobres-ricos, que so aqueles inmeros indivduos que fazem
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malabarismo para sobreviver mas, por outro lado, so interessados em teatro, msica, cinema, literatura, moda, esportes, gastronomia, tecnologia e, principalmente, 
interessados nos outros seres humanos, fazendo da sua cidade um lugar desafiante e empolgante.  esse o luxo de que precisamos, porque luxo  ter recursos para melhorar 
o mundo que nos coube. E recurso no  s money:  atitude e informao.

25 de junho de 2006
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O QUE A DANA ENSINA

Keclamar do tdio  fcil, difcil  levantar da cadeira para fazer alguma coisa que nunca se fez. Pois dia desses aceitei um desafio: fiz uma aula de dana de salo,
roxa de vergonha por ter que enfrentar um professor, um espelho enorme, outros alunos e meu total despreparo. Mas a graa da coisa  esta: reconhecer-se virgem. 
com soberba no se aprende nada. Entrei na academia rgida feito um membro da guarda real e sa de l praticamente uma mulata globeleza.
Exageros  parte, a dana sempre me despertou fascnio, tanto que me fez assistir ao filme que est em cartaz com o Antnio Banderas, Vem danar, em que ele interpreta 
um professor de dana de salo que tenta resgatar a auto-estima de uma turma de alunos rebeldes. Qualquer semelhana com uma dzia de outros filmes do gnero, inspirados 
no clssico Ao mestre com carinho, no  coincidncia,  beber da fonte assumidamente.
Excetuando-se os vrios momentos-clich da trama, o filme tem o mrito de esclarecer qual  a funo didtica, digamos assim, da dana. Na verdade, o simples prazer 
de danar bastaria para justificar a prtica, mas vivemos num mundo onde todos se perguntam o tempo todo "para que serve?". Para que serve um beijo, para que serve 
ler, para que serve um pr-do-sol?  a sndrome da utilidade. Pois bem, danar tem, sim, uma serventia. Nos ensina a ter confiana, se  que algum ainda lembra 
o que  isso.
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Hoje ningum confia,  verbo em desuso. Voc no confia em desconhecidos e tambm em muitos dos seus conhecidos. No confia que iro lhe ajudar, no confia que 
iro chegar na hora marcada, no confia os seus segredos, no confia seu dinheiro. Dormimos com um olho fechado e o outro aberto, sempre alertas, feito escoteiros. 
O lobo pode estar a seu lado, vestindo a tal pele de cordeiro.
Ento, de repente, o que algum pede a voc? Que diga sim. Que escute atentamente a msica. Que apoie seus braos em outro corpo. Que se deixe conduzir. Que no 
tenha vergonha. Que libere seus movimentos. Que se entregue.
Qualquer um pode danar sozinho. Alis, deve. Meia hora por dia, quando ningum estiver olhando, ocupe a sala, aumente o som e esquea os vizinhos. Mas danar com 
outra pessoa, formando um par,  um ritual que exige uma espcie diferente de sintonia. Olhos nos olhos, acerto de ritmo. Hora de confiar no que o parceiro est 
propondo, confiar que ser possvel acompanh-lo, confiar que no se est sendo ridculo nem submisso, est-se apenas criando uma forma diferente e mgica de convivncia. 
Ouvi uma coisa linda ao sair do cinema: se os casais, hoje, dedicassem um tempinho para danar juntos, mesmo em casa - ou principalmente em casa -, muitas discusses 
seriam poupadas.  uma espcie de conexo silenciosa, de pacto, um outro jeito de fazer amor.
Danar  to bom que nem precisava servir pra nada. Mas serve.
2 de julho de 2006
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EMOO X ADRENALINA

Ainda no estive com o livro nas mos, mas j ouvi algo a respeito e me parece que deve ser uma leitura no s interessante como necessria. Chama-se O culto da
emoo, do filsofo francs Michel Lacroix, em que ele defende que a busca irrefrevel por emoes fortes, tendncia dos dias de hoje, , no fundo, um sintoma da
nossa insensibilidade. " de lirismo verdadeiro que precisamos, no de adrenalina", diz o autor. Ou seja, andamos muito trepidantes e frenticos, mas pouco contemplativos.
Generalizando, d pra dizer que todos ns estamos meio robotizados e s conseguimos nos emocionar se formos estimulados pela velocidade e pelo risco: s se houver 
perigo, s se for radical, s se for indito, s se causar impacto. No que isso deva ser contra-indicado. Creio que uma dose de enfrentamento com o desconhecido 
faz bem para qualquer pessoa. Testar os prprios limites pode ser no s prazeroso como educativo, desde que voc se responsabilize pelo que faz e no arraste forosamente 
aqueles que nada tm a ver com suas ambies aventureiras. V voc e que Deus lhe acompanhe.
O que no d  para se viciar em novidades e perder a capacidade de comover-se com o banal, pela simples razo que emoo nenhuma  banal se for autntica. S as 
emoes obrigatrias  que so ordinrias. Nascimentos, casamentos
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e mortes emocionam apenas os que esto realmente envolvidos, seno  teatro - aquele teatrinho bsico que se pratica em sociedade.
Lembro como se fosse ontem, mas aconteceu h exatos vinte anos. Eu estava sozinha - no havia um nico rosto conhecido a menos de um oceano de distncia - sentada 
na beira de um lago. Fiquei um tempo olhando pra gua, num recanto especialmente bonito. Foi ento que me bateu uma felicidade sem razo e sem tamanho. Deve ser 
o que chamam de plenitude. No havia acontecido nada, eu apenas havia atingido uma conexo absoluta comigo mesma. No h como contar isso sem ser piegas. Alis, 
no h como contar, ponto. No foi algo pensado, teorizado, arquitetado: foi apenas um sentimento, essa coisa to rara.
De l pra c, nem hino nacional, nem gol, nem parabns a voc me tocam de fato. Isso so alegrias encomendadas e, mesmo quando bem-vindas, ainda assim so apenas 
alegrias, que  diferente de comoo. O que me cala profundamente  perceber uma verdade que escapou dos lbios de algum, um gesto que era pra ser invisvel mas 
eu vi, um olhar que disse tudo, uma demonstrao sincera de amizade, um cenrio esplendoroso, um silncio que se basta. E tambm sensaes ntimas e indivisveis: 
voc conquistou, voc conseguiu, voc superou. Quem, alm de voc, vai alcanar a dimenso das suas pequenas vitrias particulares?
Eu disse pequenas? Me corrijo. Contemplar um lago, rever um amigo, rezar para seu prprio deus, ver um filho crescer, perdoar, gostar de si mesmo: tudo isso  gigantesco 
pra quem ainda sabe sentir.

 9 de julho de 2006
CASA DE V

Eu fao todo o possvel para respeitar a opinio e o gosto alheios. Ainda no cheguei  tolerncia total, mas tenho feito progressos. Hoje consigo aceitar tranqilamente
que algum considere gua tnica uma delcia ou que seja f da banda Calypso. Cada um na sua. Mas preciso evoluir mais, muito mais, porque ainda fico perturbada
quando algum diz que foi passar a lua-de-mel na Disney. Tudo bem,  uma escolha, um direito, o que tenho a ver com isso? Ainda assim, no consigo evitar o espanto.
Dois adultos apaixonados em lua-de-mel na Disney. Jantando com o Mickey!
Isso no significa que eu seja desprovida de esprito ldico e de apreo  fantasia. Certa vez ouvi a Luana Piovani, num programa de tev, dizer que a casa dos avs
dela foi sua Disney. Bingo. A casa da minha av tambm foi, Luana. Tinha uma espcie de morro nos fundos da casa, todo gramado, que dava para um outro nvel do quintal. 
Bem no centro desse morro (deve ser um morrinho, mas a memria de uma criana no respeita propores exatas) havia uma pequena escada de pedras, porm a gente subia 
sempre pela grama, claro. ramos treze primos fazendo trekking naquele latifndio.
L em cima havia a churrasqueira e algumas rvores, mas o mais tentador era um quartinho misterioso, um depsito meio sem funo, nosso QG infantil, que s vezes
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servia de casa de bonecas, em outras, de redao de jornal
- eu tinha o topete de escrever as aventuras da famlia. Se os fundos da casa eram mgicos, a casa propriamente dita era nossa Neverland. Tinha lareira, tinha adega, 
tinha sto. Era como estar dentro de um cenrio de filme, e havia tambm a Lcia, uma empregada alem que parecia uma agente da Gestapo, nunca vi loira to sria 
e retesada, mas preparava um cachorro-quente que jamais os Estados Unidos viram igual. Srio: a casa da av da gente desbanca qualquer Epcot Center.
Hoje essas casas antigas esto sendo derrubadas para dar lugar a prdios imensos, mas mesmo dentro de um apartamento  possvel existir uma "casa de v", porque 
casa  s uma maneira de chamar, o que vale  o esprito do lugar, e havendo uma av que entenda seu papel de proprietria no de um imvel, mas de um segredo, estar 
garantida a magia. Casa de v  onde a lasanha e o pastelo ganham um sabor diferente, onde os ponteiros do relgio correm mais lentos, onde os rudos so mais audveis, 
onde o teto parece mais alto, onde a luz entra mais discreta entre as persianas, onde os armrios escondem roupas antigas e fundos falsos, e s isso  falso, tudo 
mais  verdadeiro. Casa de v  onde os brinquedos no surgem prontos, so inventados na hora.  onde a gente encontra os restos da infncia dos nossos pais. E fotos 
de bisavs, de tios... epa, este sujeito aqui, quem ? Acalme-se,  o namorado novo da sua av, voc achou que ela ficaria viva para sempre? Ela  sua av, no 
um matusalm.
Se as avs no so mais as mesmas de antigamente, em suas casas ainda sobrevive um encanto que no muda. Sero sempre lugares secretos onde encontraremos um
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instrumento sem uso, alguns recortes de jornal, anis coloridos, um bicho meio pulguento, uma mquina de escrever ou de costura, algo que seja estranho aos olhos 
de uma criana - e espao, muito espao para uma imaginao que no  estimulada nem na Disney nem na rotina maluca de hoje, s mesmo l dentro, no endereo do nosso 
afeto mais profundo, onde tudo  permitido.
16 de julho de 2006
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TARDE DEMAIS, NASCEMOS

Devoro tudo o que o americano Philip Roth escreve, e no foi diferente com seu mais recente lanamento, O animal agonizante-, que  o relato de um professor de
62 anos que se apaixona por uma aluna de 24. Estimulado por essa paixo, o personagem reflete sobre a tragdia de envelhecer e as obsesses sexuais de todos ns.
E sobre como  intil tentar mudar a natureza humana. Em dado momento, ele comenta: " a velha histria americana: salvar os jovens do sexo. S que  sempre tarde 
demais. Tarde demais, porque eles j nasceram."
Sublinho uma, sublinho duas vezes, quase perfuro a pgina com a caneta, porque  isso a:  sempre tarde demais para nos salvar, j estamos aqui, a vida est em 
curso, j nos apegamos aos nossos privadssimos traumas, medos, fantasias, estamos irremediavelmente condenados a ser quem somos. Podemos, claro, amadurecer, ficar 
mais leves, lidar com nossas fraquezas com mais bom humor, mas suprimi-las para sempre? Sem chance. No mximo, trocamos alguns problemas por outros.
Quando a questo  sexo, ento, salvar-nos do qu? S mesmo nos impedindo de nascer para evitar que tenhamos contato com o que h de mais fabuloso e enigmtico 
em ns: nosso desejo. Uma vez nascidos, tarde demais. Estamos em pleno poder dos nossos cinco sentidos, impossvel evitar que nossos olhos vejam outros corpos, nossos 
narizes sintam
outros cheiros, nossas mos toquem em outras pessoas, e que sintamos o gosto delas, e ouamos o que elas tm a nos dizer. Tudo isso provoca um curto-circuito. At 
pode-se exercer a abstinncia como escolha, mas nunca atravs de uma imposio externa, de uma pregao moralista. Tentar nos manter afastados do sexo? S se a inteno 
for a de nos transformar em pervertidos.
Tarde demais, nascemos.
E uma vez nascidos, viramos homens e mulheres que tentam extrair alegrias de onde s brota dificuldade, que participam deste carnaval de sensaes fartamente oferecidas 
dia aps dia: paixes e melancolias ao nosso dispor, bastando estarmos predispostos  vida. Uma vez nascidos, temos uma cara, um corpo e a nossa alma, principalmente 
a alma, nosso DNA espiritual, avesso a manipulaes de qualquer espcie. Tentem, mas vai ser difcil nos transformar em pedra, parede, concreto.
Podem fazer nossa cabea, mudar nossas idias, nos arregimentar para o seu partido. Influenciar, podem. Somos maleveis. Mas arrancar de ns a humanidade, proibir 
que tenhamos sono, fome e sede, declarar-nos incapacitados para o amor, exigir que nunca mais sonhemos, que no cultivemos nosso lado mais secreto e selvagem, impossvel, 
s se no existssemos.
Tarde demais, nascemos.
23 de julho de 2006
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O CARA DO OUTRO LADO DA RUA

Ele sabia onde ela morava, a via freqentemente saindo com o carro pela garagem, j havia at decorado a placa da atriz. O que ele no sabia  que ela, da janela
do seu apartamento, reparava nele todo dia tambm, quando ele chegava no escritrio em frente. Um moreno alto, no muito diferente de qualquer outro moreno alto.
Ele acompanhava a novela das oito que ela fazia, gostava do jeito que ela atuava, havia uma certa dignidade na escolha dos papis, e imaginava que ela tinha diversos
namorados. Ela, por sua vez, nada sabia dele, a no ser que era um homem como outro qualquer.
Um dia se cruzaram, ela saindo do prdio, ele chegando ao escritrio, e por razo nenhuma se cumprimentaram. Duas vogais: oi.
Passaram semanas e um dia se abanaram, de longe. E longe permaneceram por outros tantos meses. A atriz famosa do prdio em frente. O cara do escritrio do outro 
lado da rua. Era isso que eram um para o outro.
No se sabe quem tomou a iniciativa, se foi ela que sorriu de um jeito mais insinuante ou se ele que acordou de manh com o mpeto de sair da rotina, apenas se 
sabe que um dia pararam na calada para ir alm das duas vogais, e ele teve a audcia de convid-la para um caf, e ela teve o desplante de aceitar.
Durante o caf, ele soube que ela havia se separado recentemente, e ela soube que ele estava tentando arranjar coragem
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para encerrar uma relao desgastada. Ela tomou uma gua mineral sem gs, ele, dois expressos, e ficaram de se falar.
No dia seguinte ele telefonou e comentou que ela havia dado a ele a coragem que faltava. O recado foi entendido, e ela aceitou prontamente um convite para jantar, 
e desde ento no pararam mais de se tocar e de se conhecer. Ela contou, entre lenis, que trabalhar na tev  uma profisso como as outras, que o estrelato  uma 
percepo do pblico e que no fundo ela era uma mulher quase banal. Ele contou, durante uma viagem que fizeram juntos, da relao que tinha com os avs, da importncia 
deles na sua infncia e em como seu passado de garoto do interior havia definido seu carter. Ela contou, enquanto cozinhavam um macarro, que havia sido uma menina 
bem gordinha e que implicavam muito com ela na escola. Ele contou, enquanto procurava uma msica no rdio, que havia morado em Lisboa e que seu sonho era ser pai. 
Ela contou, enquanto penteava o cabelo dele, que s vezes chorava mais de felicidade do que de tristeza e que ainda no sabia o que dar a ele de aniversrio. Ele 
contou, num dia em que assistiam a um filme no DVD, que ela ia rir mas era verdade: quando garoto, ele chegou a pensar em ser padre. Ela contou, enquanto retocava 
o esmalte, que j havia se atrevido a escrever poemas, mas eram horrveis. Ele pediu para ler. Um dia ela mostrou. Eram horrveis mesmo. Ele mostrou os versos dele. 
No  que o safado escrevia bem?
No chegaram a viver juntos como vivem todos os casais, mas tambm nunca mais ficaram separados por uma janela, por uma rua, por um silncio interrogativo, por uma 
possibilidade remota. Havia acontecido. Ela para ele, nunca mais uma celebridade. Ele para ela, nunca mais um homem comum.
6 de agosto de 2006
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EU, VOC E TODOS NS

J aconteceu de cinco ou seis leitores reclamarem dos filmes que comento aqui, principalmente quando so filmes mais alternativos, menos comerciais. "Puxa, mas o
que voc viu naquela chatice?" Hoje vou falar sobre um deles; ento, se voc no gosta de nada meio fora do padro, nem perca seu tempo. Me refiro a Eu, voc e todos
ns, filme de estria da artista multimdia Miranda July, que tem seus trabalhos expostos no MoMA e no Museu Guggenheim, em Nova York. Agora ela se aventurou no
cinema e, a meu ver, no se deu mal. Fez um filme delicado sobre um tema que sempre cai como um chumbo: a solido.
O filme mostra fragmentos da vida de algumas pessoas aparentemente com nada em comum: uma videomaker (a prpria Miranda July), um vendedor de sapatos recm separado,
um senhor que se apaixona pela primeira vez aos 70 anos, duas adolescentes planejando sua primeira experincia sexual, um menino de seis anos que entra na internet
e se envolve numa correspondncia picante com uma mulher, uma menininha com um hbito fora de moda - coleciona peas para seu enxoval.
Em comum, apenas a errncia. Ir em frente, ir em busca, ir atrs, ir para onde? Somos obrigados a estar em movimento, mas ningum nos aponta um caminho seguro.
Eu, voc e todos ns estamos  procura de algo que ainda no experimentamos, algo que a gente supe que exista e que nos far mais felizes ou menos infelizes. Eu,
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voc e todos ns tentamos salvar nossas vidas diariamente, e qual a melhor maneira para isso? Trabalhar e amar, creio eu, mas no  fcil. Os que no conseguem se
realizar atravs do trabalho e do amor, tentam se salvar das maneiras mais estapafrdias, alguns at colocando-se em risco, numa atitude to contraditria que chega
a comover: autoflagelo, exposio barata, superao de limites, enfim, os meios que estiverem  disposio para que sejam notados.
Eu, voc e todos ns somos crianas das mais diversas
idades.
Pedimos pelo amor de Deus que o telefone toque e que a partir desse toque um novo captulo comece a ser escrito na nossa histria. Fingimos que somos seres altamente
erotizados e, na hora H, amarelamos. Depositamos todas as nossas fichas amorosas em pessoas que no conhecemos seno virtualmente. Disfaramos nosso abandono com
frases ousadas e sem verdade alguma. O que a gente gostaria de dizer, mesmo, : me d sua mo.
Eu, voc e todos ns queremos intimidade, mas evitamos contatos muito ntimos. No queremos nos machucar, mas usamos sapatos que nos machucam. A gente quer e no
quer, o tempo todo. Ser que durante uma caminhada de uma esquina a outra, em um nico quarteiro,  possvel acontecer uma paixo, uma descoberta? Quantos metros
precisamos percorrer, quantos dias devemos esperar, em que momento da nossa vida ir se realizar o nosso maior sonho e, uma vez realizado, teremos sensibilidade
para identific-lo? O nosso desejo mais secreto quase sempre  secreto at para ns mesmos.
Somos uma imensa turma, somos uma enorme populao, somos uma gigantesca famlia de solitrios, eu, voc, todos ns.
20 de agosto de 2006
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DANDO A IMPRESSO

Um homem de 29 anos que viajava de avio com a me para a Turquia foi questionado pelos seguranas sobre um objeto suspeito que levava na bagagem. Envergonhado
de dizer na frente da me que se tratava de um aparelho que aumentava o pnis, o engraadinho respondeu jocosamente:
-  uma bomba.
Vai ser espirituoso assim bem longe do meu porto. S um mentecapto pronuncia a palavra bomba dentro de um aeroporto, mesmo que esteja apenas comentando que levou
bomba no vestibular ou que a festa bombou ontem  noite. Bomba  palavra proibida. J fez muitas decolagens serem abortadas, muitos vos serem desviados e muitos
piadistas serem indiciados, como aconteceu com o esperto que viajava com a me. Ele pode pegar trs anos de priso se condenado.
A despeito da patetice do rapaz, uma coisa est clara: a parania chegou a um extremo que beira o ridculo. Recentemente um avio que estava indo para a ndia teve
que retornar ao aeroporto de Amsterdam porque doze passageiros demonstraram comportamento "preocupante": eles soltaram o cinto de segurana antes do aviso luminoso
ser apagado. Muito preocupante. E sacaram seus celulares das bolsas, dando a impresso de que estavam tentando repass-los para outros passageiros. "Dar a impresso",
hoje,  mais do que motivo para interromper uma viagem.
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Um vo entre dois estados americanos tambm teve sua rota desviada porque uma comissria considerou estranho o cheiro da gua que estava dentro de uma garrafa. Dava
a impresso de que no era gua. Ao aterrissarem, surpresa:
era gua.
Um homem barbudo d a impresso de ser um terrorista rabe, um jovem plido d a impresso de estar com medo, um gago d a impresso de estar nervoso, uma pessoa
muito agasalhada d a impresso de estar escondendo alguma coisa embaixo do casaco, algum que olha muito pr relgio d a impresso de que est controlando um detonador,
algum comendo vorazmente d a impresso de estar fazendo sua ltima refeio, uma mulher que no fala com ningum d a impresso de no querer se denunciar. E
algum que mente, s de brincadeira, que est levando uma bomba na bagagem d a impresso de que no leu jornal nos ltimos cinco anos e pode muito bem ser louco
o suficiente para estar falando a verdade.
Estamos todos paranicos. Isso sim  preocupante.
3 de setembro de 2006
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O CONTRRIO DA MORTE

Acabei de ler Milagre nos Andes, o relato impressionante de Nando Parrado, um dos sobreviventes daquele clebre acidente areo que aconteceu trinta anos atrs e
que deixou vrios jovens uruguaios perdidos no meio da cordilheira, sem comida, sem comunicao, sob temperaturas glidas e tendo que se alimentar da carne dos colegas
mortos. Agora um deles conta em detalhes como foram aqueles 72 dias de luta pela vida, num livro que se l fcil como se fosse uma reportagem e que faz a gente se
perguntar: do que, afinal, tanto reclamamos, se temos gua, po, cobertor e afeto?
Afeto, na verdade,  uma palavra soft, amor  mais contundente. Nando Parrado se props a mostrar que, se a morte tem um oponente, no  a vida,  o amor.  a nica
coisa que pode fazer alguma diferena diante da magnitude da morte, da onipresena da morte, da longevidade da morte: sim, porque a morte, a partir do momento que
ocorre, passa a ter um perodo de durao infinito, e antes de virmos ao mundo ela tambm j existia nessa mesma infinitude de trs pra frente. Onde estvamos antes
de nascer? De certa forma, mortos tambm. Nossa vida  apenas uma pequena brecha de tempo entre duas ausncias acachapantes. E para justificar esse breve intervalo
de vida e enfrentar a soberania da morte, s mesmo amando.
Tem se falado pouco de amor, virou uma coisa meio piegas, antiga. Hoje cultua-se muito mais a paixo e demais sentimentos vulcnicos, aqueles que fazem barulho,
que inspiram loucuras, que causam polmicas, que atormentam,
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que dilaceram, que fazem as pessoas se sentirem, ora, vivas. O filsofo romeno Cioran disse que  melhor viver em frenesi do que na neutralidade, e tem razo, vigor
 algo de que no podemos abrir mo.
A questo  que nada  mais vigoroso que o amor, esse sentimento que erroneamente relacionamos com comodidade e mornido, tudo porque associamos amor ao casamento:
esse sim pode vir a se tornar algo acomodado e morno. O amor pega essa carona injustamente.
Amor no  apenas o que aproxima um homem e uma mulher (ou dois homens ou duas mulheres). Amor envolve pais e filhos, envolve amigos, envolve uma predisposio emocional
para o trabalho, para o esporte, para a gastronomia, para a arte, para a religio, para a natureza, para o autoconhecimento. Amor  um estado de esprito que nos
move constantemente,  uma energia que no se esgota,  a nica coisa que faz a gente levantar de manh todos os dias sem entregar-se para o automatismo,  o que
d algum sentido para este hiato entre duas mortes. Isto no  vulcnico? . Parece sermo de padre, parece texto de romancezinho barato, parece muito piegas, sim,
mas e da? Nando Parrado s conseguiu sair do meio da neve e do nada porque pensava dia e noite na dor que seu pai estaria sentindo. Outros sobreviventes s conseguiram
suportar o frio, a fome e o desespero porque tinham quem esperasse por eles do outro lado da cordilheira. Tiveram sorte, coragem e inteligncia para transpor os
obstculos, e venceram, mas o prprio Nando admite: no houvesse um sentimento, pouco adiantaria.
Ns, com nossos obstculos infinitamente mais transponveis do que a cordilheira, deveramos experimentar mais deste viagra motivacional chamado amor. E azar se
parecermos cafonas.
3 de setembro de 2006
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DELICADEZA

J se falou muito do espetculo de Pina Bausch apresentado semana passada em Porto Alegre, mas ainda que eu chova no molhado,
vou escrever sobre o assunto tambm
e tentar traduzir o que se viu, porque o Teatro do Sesi, ainda que imenso, no comporta todos os que gostariam e precisariam estar l para testemunhar algo que tem
estado to afastado do nosso cotidiano: a suavidade e o esprito ldico, prprio da infncia.
A coregrafa Pina Bausch j havia revelado em uma entrevista: ''Quando you assistir a uma pea, quero sentir algo. No quero s estar l, ver o que vai ou no acontecer.
Quero ver e sentir." Inspirada nessa sua necessidade como espectadora, Pina cria espetculos em que no importa "o que se quer dizer" e sim o quanto se pode provocar
riso, espanto, angstia, fascnio, alegria. A platia jamais fica indiferente. Entender? No h nada para entender. No  uma obra feita de pontos de interrogao,
e sim de pontos de exclamao. E, v l, algumas reticncias...
Desta vez ela trouxe para o Brasil uma coreografia baseada no mundo infantil. De repente, o palco, praticamente despido de cenrio, vira um grande playground, onde
os danarinos pulam corda, sentam em bales, imitam pssaros, cospem gua uns nos outros, brigam, vivem suas fantasias e no temem ser julgados. Criancices. Fragmentos
de uma
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poca da vida em que a opinio dos outros no nos interessava em nada, em que tudo era permitido, tudo tinha graa, tudo era novo.
No precisaramos perder nada disso com a passagem do tempo, mas perdemos. Ficamos blindados. Tudo o que no for "adulto" passa  categoria do ridculo. E um belo
dia nos damos conta de que no possumos mais a leveza necessria para apreciar o que  simplesmente belo, simplesmente inusitado, simplesmente espontneo, simplesmente
sem sentido. O "simplesmente" deixa de ser algo aceitvel.  preciso vir uma teoria junto, uma bula, uma explicao.
Aplausos, ento, para a coordenao do Em Cena, que trouxe at ns um pouco dessa experincia teatral do sentimento pelo sentimento, atravs de uma dana muito profissional,
mas tambm propositadamente amadora em seus objetivos - se  que se pode chamar de amador almejar apenas o encantamento - e que veio acompanhada de uma trilha sonora
impactante, de um figurino elegantssimo e de uma modernidade espantosa. A modernidade que h no que para alguns parece to antigo: o simplesmente sentir.
6 de setembro de 2006
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HOJE E DEPOIS DE HOJE

No que dia de eleio no seja importante, mas vamos lembrar que, seja quem for que v tomar decises polticas daqui por diante, voc continuar sendo dono
e senhor da sua vida ntima,  de voc prprio que depende o futuro: das coisas que voc elegeu sozinho.
Nenhum candidato impedir voc de ler o que quiser e de dormir na hora que bem entender. Da sua liberdade, cuida voc. Ento, cuide mesmo.
Amanh os jornais estamparo os nomes dos vitoriosos, e os articulistas iro especular sobre formao de ministrios e sobre as medidas que viro, e voc estar
satisfeito por ter votado no homem certo ou insatisfeito por terem eleito aquele que voc no queria, e as coisas vo mudar, mesmo,  muito pouco. As escolhas decisivas
da sua vida seguiro sendo suas, apenas.
Ento deixe a vida continuar acontecendo no territrio que voc domina, v fazer sua caminhada como faz todos os dias, que isso nunca ser impedido por decreto,
e aproveite que est apaixonado para se declarar to insistentemente que chegue ao ponto de duvidar que possa amar tanto, e se no estiver amando, trate de se abrir
com urgncia para esse sentimento que, entra governo e sai governo, no muda e no perde a importncia.
A vida segue acontecendo nos detalhes, nos desvios, nas surpresas, nas alteraes de rota que no so determinadas
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pelas urnas, mas por um olhar que voc ainda no havia percebido, por uma palavra que voc no esperava escutar e por fim escutou.
Poderamos estar aqui conversando - eu daqui, voc da - sobre a calamidade social que o pas no consegue conter, sobre como est difcil ter esperana, e quantas
decepes j engolimos, mas hoje no, justamente hoje que seria o dia, vamos evitar esta discusso aborrecida e pegar um atalho, outro caminho, lembrar de quanta
coisa j escolhemos e que deu certo, em quanta gente depositamos nossa confiana e que no nos faltou, em como j sofremos por pouca coisa e por muita coisa, e por
todas elas nos tornamos mais fortes e preparados, ento que venha o que vier, nada h de nos pegar desprevenidos, poltica nunca  mesmo algo muito original: mesmo
sem bola de cristal podemos visualizar no horizonte o que ir repetir-se.
No entanto, o dia de amanh poder ser absolutamente inusual, e a poltica no ter nada a ver com isso. Prepare-se para fazer alguma escolha: entrar ou no num
negcio, gastar ou no um dinheiro, aceitar ou no um convite, sorrir ou no para algum. Sabe-se l o que esta deciso to trivial poder fazer pela sua vida que
o prximo governo no poder.
Voc j passou por tantas eleies pessoais: escolheu sua profisso, a cor do seu cabelo, o nome que seus filhos tm, o time para o qual torce, a roupa que est
usando bem agora. Quem  que est no comando? Ora. Faa o que bem quiser deste seu dia e dos dias que viro. Votar  obrigatrio, mas viver  muito mais.
1 de outubro de 2006, eleio presidencial
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PARAR DE PENSAR

Voc encontra uma lmpada mgica no meio do deserto, d uma esfregadinha e de dentro sai um gnio meio afetado, que concede a voc a realizao de um desejo. Humm...
Voc pediria um segundinho pra pensar? Eu no pensaria um segundo. Alis, o meu desejo seria justamente este: por bem mais que um segundo, digamos por dois dias,
gostaria de parar de pensar. Parar totalmente de pensar. U, Saramago escreveu sobre um lugar em que as pessoas paravam de morrer. Salve a fico, a casa de todos
os delrios. Que tal, temporariamente, parar de pensar?
Eu acordaria e no pensaria em nada. Sendo assim, voltaria a dormir, sem mais despertar todo dia s seis da manh, como sempre fao, pensando em mil tranqueiras
e coisas a providenciar. Mas parar de pensar no impede a fome, ento uma hora eu teria que levantar da cama e ir pra mesa - quem decidiu o cardpio? Aleluia, eu
 que no fui. No penso mais nessas coisas.
Abro o jornal, leio todas as matrias e no me ocorre nenhum pensamento tipo: " pr bolso destes malandros que vai meu imposto", "No acredito que fizeram isso
com uma criana" ou "Caramba, como fui perder este show?". Eu no penso, portanto, no sofro.
Passo por um espelho e no dou a mnima para o que vejo. Espinhas, olheiras, cabelo fora de moda, danem-se.
Moda, falei em moda? Era s o que me faltava ocupar meu crebro com essas trivialidades.
Tudo vazio l dentro, um descampado, um silncio,
o paraso.
Voc no pensa mais em como aumentar sua renda mensal, em como fazer seus filhos comerem melhor, em como arranjar tempo para deixar o carro na reviso, em como encontrar
um lugar barato para passar as frias, em como ajudar seus pais a atravessarem a velhice, em como no ser indelicada ao recusar um convite, em como ter coragem para
chutar o balde, em como responder um e-mail irritante, em como esconder dos outros suas dores, em como arranjar tempo para ir ao mdico, em como voc tem medo de
que as coisas nunca mudem e, se mudarem, em como enfrentar. Voc no precisa pensar em mais nada, voc pediu ao gnio e ele, camarada, atendeu. Aproveite, so apenas
dois dias.
No precisa ter opinio sobre o Lula, sobre o Alckmin, sobre a segurana do espao areo, sobre a reviravolta do clima no planeta, sobre o ltimo disco do Caetano,
sobre o vdeo da Cicarelli, sobre os resultados do Brasileiro. Voc est de frias de voc. No tem nem motivo para chorar. Seu amor se foi? Tudo bem. Voc no
pensa em rejeio, no pensa que ele tem outra, no pensa que vai surtar. Jogue fora os antidepressivos, no precisa nem mesmo passar creme anti-rugas. Por dois
dias, seu humor est neutro e suas rugas se foram. Esse seu olhar sereno, essa sua fala pausada... Nossa, sabia que voc ficou at mais sexy?
Tudo isso  uma viagem sem sentido. Concordo. Mas vai dizer que, s vezes, acionar o pause no crebro no lhe passa pela cabea?
11 de outubro de 2006
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VOLTANDO A PENSAR

No ltimo domingo publiquei no caderno Do ZH uma crnica fantasiosa em que eu imaginava como seria bom parar de pensar por uns dias, para dar um descanso pr
crebro. Os leitores aprovaram a idia, mas os dias passaram e  hora de voltar a pensar. Proponho dois assuntos para dar uma acordada nos nossos neurnios. Primeiro:
soube que dois desempregados arrancaram, anteontem, dezenove placas de sinalizao da RS 331, que liga Viadutos a Gaurama, no norte do Estado. O objetivo? "S para
ver o que acontece", responderam eles. you dizer a eles o que acontece, dando o exemplo de um fato ocorrido na Flrida em 1997. Dois adolescentes e uma garota no
tinham nada para fazer e resolveram arrancar algumas placas de PARE dos cruzamentos. No dia seguinte, trs jovens transitavam por uma dessas avenidas desfalcadas
de sinalizao e, sem saber que estavam cruzando uma preferencial, bateram num caminho. Morreram.  isso que acontece. E aconteceu mais: os que arrancaram as placas
foram condenados, cada um, a quinze anos de priso, e o juiz ainda disse que eles deveriam agradecer, porque assassinos no costumam pegar menos de trinta anos.
A verdade  que somos, todos, homicidas em potencial. No  preciso sair pra rua com uma arma na mo para colocar a vida dos outros em risco. Pequenas sandices
como danificar placas de trnsito ou fazer rachas em vias pblicas tambm podem provocar tragdias.
Segundo assunto: o adesivo que mostra uma mo sem o dedo mnimo com a frase Mais 4 no! Fora Lula, aludindo  deficincia do presidente, que teve um dedo decepado
na poca em que trabalhava como metalrgico. A polmica surgiu porque algumas pessoas consideraram o adesivo preconceituoso e ilcito. Olha, ilcito me parece que
no , mas que  de um tremendo mau gosto nem se discute. Todos tm o direito de externar sua opinio, de fazer propaganda de seu partido ou contra o partido oponente,
mas usar uma deficincia que nada tem a ver com o carter ou o currculo do candidato  preconceito, sim. O fato de o Lula no ter um dos dedos da mo  absolutamente
irrelevante para o destino do pas. Usar isso como uma "sacada" de marketing  fazer piada tosca e grosseira, e creio que j basta de deselegncias nesta vida. Depois
reclamamos quando crianas discriminam na escola os colegas negros, gordos, mancos, gagos, sem dedo, sem brao, sem perna. Esto seguindo exemplos, apenas isso.
Parar de pensar  um convite  meditao, no  estupidez.
18 de outubro de 2006

QUALQUER UM

A reclamao  antiga, mas continua vigente: mulheres se queixam de que no h homem "no mercado". Acabo de receber um e-mail de uma delas, contando que faz parte
de um grupo de mulheres na faixa dos 35 anos que so independentes, moram sozinhas, trabalham, falam idiomas, so vaidosas, tm cultura, fazem ginstica e, mesmo
com tantos atributos, seguem solteiras e temem no haver tempo para formar a prpria famlia. No finalzinho da mensagem, descubro uma pista para a soluo do problema:
"Apesar de o relgio biolgico estar nos pressionando, no queremos procriar com qualquer um. Queremos um cara bacana para ir ao cinema, almoar no domingo, viajar
nos finais de semana."
Claro. Quem no quer?
No h problema nenhum em ser exigente, em querer uma pessoa que seja especial. O que me deixa intrigada  que h mais probabilidade de voc encontrar "qualquer
um" do que um deus grego com um crach escrito "Prncipe Encantado". Ento me pergunto: as mulheres estaro dando chance para que este "qualquer um" demonstre que
est longe de ser um qualquer?
Sou capaz de apostar que a maioria das mulheres, no primeiro papo, j elimina o candidato, e quase sempre por razes frvolas. Ou porque o sapato dele  medonho,
ou porque ele no sabe quem  Roman Polanski, ou porque ele gosta de pizza de estrogonofe com banana, ou porque ele
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s gosta de comdia, ou porque ele mistura steinheger com cerveja, ou porque o carro dele  um carro do ano. Do ano
de 1991.
Imagina se voc, proveniente de uma famlia estruturada, criada dentro de padres de bom gosto, com qualidades encantadoras, vai se envolver com esse... com
esse... com esse sei-l-quem.
Pois o "sei-l-quem" pode ser, sim, aquele cara bacana que levar voc para almoar no domingo, mas voc tem que dar uma mozinha, minha linda. Recolha seus prejulgamentos,
d umas frias para seus preconceitos, deixe seu orgulho de lado e saia com ele trs, quatro vezes, at ter certeza absoluta de que o sapato medonho vem acompanhado
de um carter medonho, de um mau humor medonho, de uma burrice medonha. Porque se o problema for s o sapato e a pizza de estrogonofe, isso d-se um jeito depois,
ele no h de ser to inflexvel.
Alis, e voc? Garanto que tambm no sai pela rua com uma camiseta anunciando "Mulher Maravilha". Ele tambm vai ter que descobrir o que h por trs da sua ficha
estupenda, e v que ele implique com as trs dezenas de comprimidos que voc ingere por dia, com sua recusa em molhar o cabelo no mar, com sua fixao por telefone
ou com os seus sutis do ano. Do ano de 1991 tambm.
Essa coisa chamada "histria de amor" requer um certo tempo para ser construda, e as que do certo so aquelas vividas com pacincia, com o esprito aberto, e
geralmente com qualquer um que consiga romper nossas defesas e nos fazer feliz.
22 de outubro de 2006
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TRAVESSURAS

O novo livro de Mario Vargas Llosa  uma histria de amor que dura uma vida inteira. Tudo comea no vero de 1950, no Peru, quando Ricardo, um rapazote de quinze
anos que sonhava em morar em Paris, conhece Lily, uma adolescente com uma personalidade mais do que marcante. Ele se apaixona feito um bezerro, como ele mesmo define.
O livro conta a trajetria desse amor ora feliz e quase sempre infeliz. Lily some do Peru sem deixar rastros, Ricardo vai morar em Paris e s a reencontra anos depois.
Ela some de novo e, passado um tempo, ele a reencontra em Londres. Ela desaparece outra vez e ele mais tarde a descobre em Tquio, onde ela apronta todas e evapora,
claro. E ainda mais uma vez se cruzam em Madri, ambos j cinqentes. Lily, essa mulher misteriosa que vai trocando de nome e de marido a cada apario,  uma peste.
Tem uma ndole suspeita, hbitos condenveis e  fria como uma manh de inverno em So Jos dos Ausentes. Nem muito bonita . Faz de Ricardo gato e sapato. Ele resiste?
Nem tenta, pois sabe que no h como. O amor verdadeiro tem destas coisas: no se explica, no se controla, no se racionaliza, simplesmente toma conta.  uma droga,
um vcio, uma viagem entre o cu e o inferno, ida e volta, sem parar.
Vargas Llosa escreveu um livro encantador sob vrios aspectos, no s pela original seqncia de encontros e desencontros desse casal instvel, mas tambm por retratar
perodos significativos das principais cidades do mundo. E por escrever com mo de pluma, tratando com leveza a angstia humana e com isso dando ao livro um torn
novo, sem o dramalho que costuma caracterizar as histrias de amor no resolvidas.
Outra coisa que me chamou a ateno foi o ttulo, Travessuras da menina m. "Menina m"  como Ricardo chamava carinhosamente a jararaca, mas o uso do termo "travessuras"
 curioso. A mulher que ele ama no  travessa, caramba:  uma bisca. Mentirosa, falsa, sem escrpulos - e fascinante, bvio. Ricardo sabe que ela est a mil lguas
da decncia, mas seu amor impede que a julgue com a severidade dos adultos. Prefere resumir as sacanagens da amada como pequenas travessuras infantis. S assim
poder perdo-la a cada reencontro.
Travessuras. Quantas mulheres consideram assim as artimanhas dos maridos, quantos pais encaram como travessuras as mentiras e os furtos dos filhos, quantos de ns
evitam o confronto com a verdade e, em vez de dar o nome certo s coisas, chamam erros graves de "travessuras" para poder perdoar? Alis, diante do resultado das
ltimas eleies, ficou confirmado que o eleitorado brasileiro considerou como apenas uma travessura o que andou acontecendo nos bastidores do governo. Enxergar
a verdade, quando se est apaixonado, nunca foi bom negcio, quem no sabe? Pois parece que anda servindo para a poltica tambm. Num caso ou no outro, s resta
seguir em frente e torcer para que nossa condescendncia seja recompensada.
29 de outubro de 2006
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TESTES

Um dia  desses resolvi fazer um teste proposto por um site da internet. O nome do teste era tentador: "O que Freud diria de voc". Uau. Eu me interesso em saber 
at
o que o vendedor de picol pensa sobre mim, imagina Freud. Respondi corretamente a todas as perguntas e o resultado foi o seguinte: "Os acontecimentos da sua infncia
a marcaram at os doze anos, depois disso voc buscou conhecimento intelectual para seu amadurecimento". Perfeito! Foi exatamente o que aconteceu comigo. Fiquei
radiante: eu havia realizado uma consulta paranormal com o pai da psicanlise, e ele acertou na mosca.
S que eu estava com tempo sobrando, e curiosidade  algo que no me falta, ento resolvi voltar ao teste e responder tudo diferente do que havia respondido antes.
Marquei umas alternativas esdrxulas, que nada tinham a ver com minha personalidade. E fui conferir o resultado, que dizia o seguinte: "Os acontecimentos da sua
infncia a marcaram at os 12 anos, depois disso voc buscou conhecimento intelectual para seu amadurecimento".
Muito engraado.
De que adianta tanto "amadurecimento intelectual" se a gente se deixa empolgar por testezinhos muquiranas da internet? Desliguei o computador me sentindo a otria
do sculo e fui fazer qualquer outra coisa para esquecer o pequeno incidente. Mas no esqueci. E, juntando um neurnio
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com o outro, me veio a luz.  isso! No importa como vivi meus primeiros anos, quais foram as minhas reaes diante do sucesso e do fracasso, quanto de carinho
recebi ou no recebi de meus pais, se era popular ou se s colecionei frustraes na escola. A verdade estava gritando na minha frente: os acontecimentos da infncia
marcam A TODOS at os doze anos de idade (ou treze, ou quatorze) e depois disso TODOS buscam conhecimento intelectual para amadurecer.
Ou seja, o teste estava corretssimo. As respostas podiam variar de pessoa para pessoa que pouco importava. A vida no  original, ela  repetitiva, e at Sartre,
que no era psicanalista, matou a charada quando disse "no importa o que fizeram com voc, importa  o que voc fez do que fizeram com voc'. Em outras palavras:
depois dos doze, chega de se lamentar. V buscar conhecimento para estruturar sua felicidade.
Ou os caras que bolaram o teste so mesmo um bando de gozadores ou so gnios. Tendo mais de doze anos de idade, escolha voc o resultado que mais lhe convm.
8 de novembro de 2006
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NENHUMA MULHER  FANTASMA
Almodvar est de novo em cartaz nos cinemas, portanto, hora de sair de casa: Volver  obrigatrio.
A cena de abertura nos prepara para o que vir pela frente. Num cemitrio, vrias mulheres limpam e cuidam dos tmulos de seus maridos: todas sobreviveram a eles.
E da por diante  s o que vemos no filme: mulheres. Os poucos homens que aparecem no podem nem ao menos ser chamados de coadjuvantes, so meros figurantes, quase
mortos-vivos: se h algum fantasma nesse filme, no se deixe enganar pelas resenhas, ele  masculino. Mulher  sempre real, comoventemente real.
J me perguntaram uma centena de vezes quais as diferenas entre homens e mulheres, as diferenas entre a literatura feita por ns e a feita por eles, a velha ladainha:
diferena, diferena. Nunca dei corda para essa questo, prefiro exaltar nossas afinidades. No me interessa incrementar essa guerrinha antiga, que faz parecer que
as conquistas femininas so resultado de uma revanche. Sem essa, no contem comigo para ser mais uma a colocar cada sexo num canto oposto do ringue.
Pois bem. Mesmo no sendo afeita a imunizar toda mulher s pelo fato de ser mulher, e tampouco afeita a propagar a pretensa superioridade masculina - est todo mundo
no mesmo barco,  no que acredito -, este filme de Almodvar conseguiu mexer com minhas convices, j
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que ele parece conhecer mais sobre ns do que ns mesmas. Ok, uma mulher  apenas uma mulher, mas uma me  um vulco, um furaco, uma enchente, uma tempestade,
um terremoto. Uma me  invencvel. No h perda que ela no transforme em fora. No h passado que ela no emoldure e coloque na parede. No h medo que a mantenha
quieta por muito tempo.
Volver  mais um tributo que Almodvar presta a este gnero humano que veio equipado com cromossomos XX, a mulher que no  hbrida, mas  plural; no  bem certa,
mas  ntegra, e que ele homenageia de uma forma peculiar: colocando-a em situaes-limite. Nesse filme, mais uma vez, o tema abuso sexual volta  tona. E ento
ele nos vinga, coloca-se a nosso servio, nos empresta uma fora de estivador para enterrar nossos algozes. Ele  o juiz invisvel dessa luta em que a mulher sai
sempre um pouco machucada, mas invariavelmente vitoriosa.
Almodvar est do nosso lado, e a gente acaba acreditando mesmo que h dois lados. Filmando com delicadeza e explorando bem a solidariedade e o afeto das latinas,
ele nos faz voltar - ateno, volver -  nossa natureza de leoa e  nossa corajosa humildade, aquela que nos faz perdoar e pedir perdo para desobstruir nossos caminhos.
Mulheres vo em frente e voltam, mulheres prosseguem e retornam, dois passos pra frente e um passo pra trs, cautela e coragem. As virtudes e pecados sempre dentro
da bolsa, inseparveis, nada se perde. Eis a viso pessoal, passional e parcial desse diretor puro-sangue, que  exagerada, mas instigante: os homens passam, mas
as mulheres no morrem.
19 de novembro de 2006
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ESPRITO ABERTO

Sabemos da quantidade de pessoas que passam necessidades reais, que esto desempregadas, que no tm como alimentar os filhos, que tm uma doena sria, enfim, ningum
ignora as mazelas do mundo. No entanto, muitas dessas pessoas que habitam as estatsticas no fazem parte do nosso crculo ntimo. Na maioria das vezes, nossos amigos
e familiares esto bem, trabalham, possuem uma vida afetiva. Ok, eles tm l seus problemas, mas no so exatamente o retrato da desgraa. Ainda assim, me espanta
que muitos deles, mesmo sem motivo para cortar os pulsos, vivam como se fossem uns infelizes, lidando com o dia-a-dia de uma forma pesada, obstruindo o prprio
caminho em vez de viver com mais leveza. So o que eu chamo de pessoas com o esprito fechado.
Eu respeito quem traz uma grande dor e no sai espalhando sorrisos -toa, mas me enervo com quem fecha a cara por simples falta de humor. Palavrinha mgica, esta:
humor. No me refiro a quem faz piadinhas a todo instante, e sim a quem possui inteligncia suficiente para saber que  preciso relevar as incomodaes, curtir as
diferenas e ser generoso com o que acontece  nossa volta. Humor significa ter um esprito aberto.
Esta  a resposta para quem pergunta qual  a "frmula da felicidade" - algum ainda pergunta isso? Eu responderia: ter o esprito aberto, s. O resto vem. Amigos,
amores, oportunidades, at sade: a fartura disso tudo depende muito da sua postura de vida. No  evidente?
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Eu j fui um caramujo ambulante, daquelas criaturinhas desconfiadas, que torcia o nariz para tudo o que no fosse xerox do meu pensamento. Desprezava os diferentes
de mim e com isso, claro, custava para encontrar meu lugar no mundo. Era praticamente um autoboicote. Me trancava no quarto e achava que ningum me compreendia.
Ora, nem podiam mesmo. Alis, nem queriam.
Um dia - e ainda bem que esse dia chegou cedo, no final da adolescncia - eu pensei: calma a, quem vai me salvar? Jesus? John Lennon? Percebi que o mundo era maior
do que o meu quarto e que eu tinha apenas duas escolhas: absorv-lo ou brigar contra ele. Contrariando minha natureza rebelde, optei por absorv-lo. Abracei tudo
o que me foi oferecido, deixei de me considerar importante, comecei a achar graa da vida e, com a passagem dos anos, s melhorei, no parei mais de me desobstruir,
de lipoaspirar mgoas e ranzinzices
- a no ser que desejasse posar de poeta maldita, o que no era o caso. Me salvei eu mesma e fui tratar de aproveitar cada minuto, que  o que venho fazendo at
hoje.
Quando algum me diz "como voc tem sorte", penso que tenho mesmo. Mas no a sorte de receber tudo cado no colo, e sim a sorte de ter percebido a tempo que nosso
maior inimigo  a falta de humor. Sem humor, brota preconceito para tudo que  lado. A gente comea a ter mania de perseguio, qualquer coisa parece difcil e uma
discussozinha -toa vira um dramalho. Prefiro escalar uma montanha a viver dessa forma cansativa.
Esprito aberto. Caso voc no tenha recebido gratuitamente na sua herana gentica, d pra desenvolver por si prprio.
7 de janeiro de 2007
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100 COISAS

 febre. Livros listando as cem coisas que voc deve fazer antes de morrer, os cem lugares que voc deve conhecer antes de morrer, os cem pratos que voc deve provar
antes de morrer. Primeiramente, me espanta o fato de todos terem certeza absoluta de que voc vai morrer. Eu prefiro encarar a morte como uma hiptese. Mas, no caso
de acontecer, serei obrigada mesmo a cumprir todas estas metas antes? No d pra fechar por cinqenta em vez de cem?
Outro dia estava assistindo a um DVD promocional do Discovery Channel que tambm mostra, com imagens e depoimentos, as cem coisas que a gente precisa porque precisa
fazer antes de morrer. Me deu uma angstia, pois das cem, eu fiz apenas onze at agora. Falta muito ainda. Falta dirigir uma Ferrari, fazer um safri, freqentar
uma praia de nudismo, comer algo extico (um baiacu venenoso, por exemplo), visitar um vulco ativo, correr uma maratona, perder uma fortuna nos cassinos de
Las Vegas, fotografar a aurora boreal no Alasca, assistir a um desfile do Armani em Milo, atravessar a Rota 66 numa Harley Davidson, nadar com golfinhos, andar 
de
camelo, escalar uma montanha e outras coisas que eu estou contando os minutos para fazer, s no sei se vai dar tempo.
Se dependesse apenas da minha vontade, eu j teria um plano de ao esquematizado, mas quem fica com as
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crianas? Conseguirei cinco frias por ano? E quem patrocina essa brincadeira?
Hoje  dia de mais um sorteio da Mega-Sena. O prmio est acumulado em cinqenta milhes de reais. A maioria das pessoas, quando perguntadas sobre o que fariam com
a bolada, responde: pagar as dvidas, comprar um apartamento, um carro, uma casa na serra, outra na praia, garantir a segurana dos filhos e guardar o resto para
a velhice.
Normal. So desejos universais. Mas fica aqui o convite para sonhar com mais criatividade. Arranje uma dessas listas de cem coisas para fazer antes de morrer e
divirta-se com as opes. D para fazer quase tudo com muito dinheiro, e algo me diz que hoje  seu dia de sorte. Embolse a grana, doe uma parte para quem necessita
e depois v assistir  final de Wimbledon, surfar na Indonsia, ver Barishnikov danar, a Julianne Moore atuar na Broadway, alugue um balo e sobrevoe um deserto,
visite uma aldeia indgena, passe o aniversrio ao lado de um amigo que mora longe. No pense tanto em comprar, mas em viver.
Eu, que no apostei na Mega-Sena, por enquanto sigo com minha lista de cem coisas a evitar antes de morrer.  divertido tambm, e bem mais fcil de realizar, nem
precisa de dinheiro.
10 de janeiro de 2007
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ELA

Se voc no tem problemas com a sua, levante as mos para o cu e pare agora mesmo de reclamar da vida. O que so algumas dvidas para pagar, um celular sempre
sem bateria, um final de semana chuvoso? Chatices, mas d-se um jeito. Nela no. Nela no d-se um jeito. Para elimin-la, prometemos cortar bebidas alcolicas,
prometemos fazer mil abdominais por dia, mas ela no acusa o golpe, segue com sua salincia irritante. A gente caminha, corre, sobe escada, desce escada, vibra
quando nosso intestino est bem regulado, cumprindo suas funes  perfeio, mas ela no se faz de rogada, mantm-se firme onde est. "Mantm-se firme"  fora
de expresso. Ela  tudo, menos firme. Voc sabe de quem estou falando.
Ela  uma praga masculina e feminina. Os homens tambm sofrem, mas aprendem a conviver com ela: entregam os pontos e vo em frente, encarando a situao como uma
contingncia do destino. As mulheres, no. Mulheres so guerreiras, lutam com todas as armas que tm. Algumas ficam sem respirar para encolh-la, chegam a ficar
azuis. Outras vo para a mesa de cirurgia e ordenam que o mdico sugue a desgraada com umbigo e tudo. Mas passa-se um tempo e ela volta, a desaforada sempre volta.
Quem no tem a sua? Eu conto quem: umas poucas sortudas com menos de quinze anos. Umas poucas malucas que acordam, almoam e jantam na academia. Algumas
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mais malucas ainda que no almoam nem jantam. As que nasceram com crdito pr-aprovado com Deus. E aquelas que nunca engravidaram, lgico.
As que ignoram totalmente sobre o que estou falando so poucas, no lotariam uma sala de cinema. J as que sabem muito bem quem  a protagonista desta crnica (pois
alojam a infeliz no prprio corpo) povoam o resto da cidade, esto por toda parte. Batas disfaram, vestidinhos disfaram, biqunis colocam tudo a perder.
Nem todas a possuem enorme. Cruzes, no. s vezes  apenas uma protuberncia, uma coisinha de nada, na horizontal nem se repara. Alis, mulheres acordam mais bem-humoradas
do que os homens porque de manh cedo somos todas magras. Todas tbuas. Todas retas. Passam-se as primeiras horas, no entanto, e a lei da gravidade surge para dar
bom dia. L se vai nosso humor.
Falam muito de celulite. Falam de seios, de traseiros, de rugas, de ps grandes, de falta de cintura, de caspa, de tornozelos grossos, de orelhas de abano, de narizes
desproporcionais, de ombros cados, de muita coisa cada. Temos uma possibilidade infinita de defeitos. Mas ela  que nos tira do prumo. Ela  que compromete nossa
silhueta. Ela  que arrasa com a nossa elegncia. Ela. Nem ouso pronunciar seu nome. Voc sabe bem quem. Se no sabe, sorte sua:  porque no tem.
21 de janeiro de 2007
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PEQUENAS CRIANAS

O problema de sair de frias  que podemos retornar com um assunto j comentado por outros colunistas, mas you correr o risco e dizer, eu tambm, que achei uma
pena que o filme Pecados ntimos tenha merecido um ttulo to nada a ver. O filme no faz pr-julgamentos, e a palavra pecado j caducou.  muito provincianismo
atrair bilheteria com ttulos apelativos. Melhor seria dar um voto de confiana ao pblico, que  capaz de compreender ttulos mais sutis, como o original Little
Children. "Criancinhas" resume com perfeio o que vemos na tela.
Um homem e uma mulher se conhecem num parquinho, onde levam os respectivos filhos para brincar. Cada um est acomodado num casamento protocolar, sem alegria, sem
teso. Papo vai, papo vem, o romance entre eles comea. Alm desse affair, o filme mostra tambm uma relao entre me e filho - sendo que o filho  um pedfilo
recm sado da priso e que apavora o bairro onde vive - e o desalento de um falso moralista que tem acessos de carncia dignos de um garotinho de cinco anos.
S que os personagens do filme no tm cinco anos. So adultos precisando lidar com seus medos e desejos, adultos cedendo a pequenas e grandes tentaes, adultos
fazendo escolhas sem garantia de nada.
Mais: adultos que olham por baixo da mesa para ver se o marido est acariciando as pernas da convidada do
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jantar. Adultos que sonham em fazer manobras radicais no skate. Adultos que tramam uma fuga romntica e deixam bilhetinhos de despedida. Adultos que acham muito
natural ser monitorados pela sogra. Adultos que choram sentados no meio-fio da calada porque se sentem trados pelo melhor amigo. Adultos?
Sim, adultos. Pelo menos  esse o termo usado para identificar aqueles que trabalham, que dirigem, que votam, que so responsveis pelos seus atos e que, aparentemente,
tm a cabea no lugar.
O filme me despertou uma certa compaixo. Por mais que eu aplauda o que convencionamos chamar de "maturidade", no fundo acredito que somos, todos ns, crianas que
cresceram mais em estatura do que emocionalmente, crianas que foram empurradas para o meio do palco e que precisam ter suas falas na ponta da lngua, conforme foram
ensaiadas desde a primeira infncia. Somos homens e mulheres na segunda, terceira, quarta, quinta infncia, nos apegando aos nossos parcos conhecimentos e s nossas
inteis experincias para tentar no errar demais. Somos crianas que choram escondidas no banheiro, que tomam atitudes insensatas, que dizem o que no deveriam
ter dito e que, nos momentos de desespero, gostariam de chamar um "adulto" para resolver a encrenca em nosso lugar. Mas que adulto? Deus? Ele tem mais do que se
ocupar. Resta-nos chorar no meio-fio da calada mesmo, caso no fosse um vexame.
Os maduros tm certezas. Os maduros no vacilam. Os maduros so pragmticos. Os maduros ganham dinheiro. Os maduros assumem seus atos. Os maduros sabem o que dizer
e como se comportar. Os maduros s fraquejam
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diante da orfandade - perder pai e me  perturbador em qualquer fase da vida -, mas logo reassumem o controle e seguem em frente. No se espera outra coisa deles.
Se tentarem fugir de suas responsabilidades, sero considerados pessoas instveis e infantis. E quem tolera ser considerado infantil a esta altura?
Ento a gente presta ateno em volta, imita nossos pais e amigos, se apega*a um roteiro conhecido, faz um certo teatro, tudo para que no percebam que, em silncio
e na solido, somos apenas crianas grandes.
4 de maro e 2007
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PRISIONEIROS DO AMOR LIVRE

Gosto de ler biografias, ter acesso aos bastidores da vida de algum que admiro, contada de forma literria, sem o veneno da fofoca:  a investigao longa e precisa
sobre um ser humano que, a despeito das virtudes que o tornaram uma celebridade, tambm possui fraquezas e s vezes escorrega como todos ns. A ltima que li foi
a do casal Sartre e Simone de Beauvoir. Em Tte--Tte (mais de 450 pginas, editora Objetiva), ficamos sabendo dos pormenores de como se conheceram e como administraram
as diversas outras relaes amorosas que tiveram at o cerrar das cortinas.
Sempre fui uma entusiasta da produo intelectual dos dois, mas admito que, anos atrs, ao ler as 304 cartas que Simone de Beauvoir escreveu para seu amante americano
(Cartas a Nelson Algren, editora Nova Fronteira), fiquei desconcertada com a chatice da autora. Que mulherzinha maante. Em estado de paixo, ela me pareceu sufocante,
manipuladora e por vezes at indelicada. S quando se desapaixonava  que voltava a ser a feminista brilhante que tanta contribuio deu ao mundo.
Agora, lendo Tte--Tte, tive uma sensao parecida. Foi com o entusiasmo de sempre que mergulhei no pano de fundo do livro: as discusses em salas de aula da
Sorbonne, as idias que nasceram nos cafs de Saint-Germain e principalmente a fascinante teoria defendida por Sartre a respeito
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da liberdade: para ele, cada ser humano deveria assumir
100% as rdeas da sua vida. Tudo  fruto da nossa escolha, at mesmo quem iremos amar e que tipo de qualidades e defeitos iremos desenvolver em ns. Em sua opinio,
no existe isso que chamamos de "a ordem natural das coisas", e por isso ser livre parece to assustador. Sartre optou por no fugir da sua liberdade como muitas
pessoas fazem, no admitiu ser regido por cdigos preestabelecidos e construiu uma vida  sua maneira.
Teoricamente, acho instigante e excitante. Na prtica, porm,  preciso ter cuidado para que isso no vire uma neura. Sartre, conforme a leitura de Tte--Tte avanava,
me pareceu um prisioneiro da sua prpria ideologia, relacionando-se "livremente" mais para comprovar sua tese do que por afetos reais. Por outro lado, Simone me
pareceu uma mulher mais sinceramente envolvida com suas paixes, mas era outra prisioneira destas experincias libertadoras: arranjava mulheres para Sartre e depois
caa de cama de tanto cime e desconcerto. So mentes cintilantes, escritores fundamentais para entender nosso sculo, mas quanto ao amor livre, no me pareceram
to livres assim. Sua profunda dedicao ao movimento existencialista, aos estudos e s pesquisas lhes deram a projeo merecida, mas lhes roubaram a chance de desenvolver
uma vida amorosa mais espontnea. Mais hippie, se me permitem uma comparao incomum.
No final das contas, fiquei com a impresso de que liberdade  um conceito relativo: quem escolhe ser "mulher de um homem s" no  menos livre do que a mulher
que intenciona ter o mximo de relaes possvel. Todas as teorias so claustrofbicas, pois a tendncia  sermos engolidos por elas e nos vermos obrigados a seguir
um rumo que talvez no
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seja condizente com nossa verdadeira inclinao emocional. Seguir nosso desejo  o que nos toma livres, e o desejo  varivel, mutante, inclassificvel - no pode
ser considerado moderno ou antigo,  o que .
E mesmo que consigamos obedecer apenas aos nossos instintos mais naturais, com toda a liberdade que isso implica, ainda assim pagaremos um tributo ao sofrimento,
simplesmente porque viver, seja da maneira que for, nunca  fcil.
'1 de abril de 2007
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DO TEMPO DA VERGONHA

A. gente costuma dar referncias do "nosso tempo", como se o nosso tempo no fosse hoje. Sou do tempo do tnis Conga, da Famlia D-R-Mi, da Farrah Fawcett, do
Minuano Limo, e essa listagem alonga a estrada atrs de ns, faz parecer que a gente  de outro sculo. E somos.
Eu sou do tempo de tanta coisa, inclusive do tempo em que as pessoas sentiam vergonha. Voc j deve ter reparado que vergonha caiu em desuso, a nova gerao no
deve nem saber do que se trata. Mas a tia aqui vai explicar.
Vergonha  o que voc sente quando coloca em risco sua dignidade. Por exemplo, quando pegam voc mentindo. Ou quando flagram voc fazendo uma coisa que havia jurado
no fazer. s vezes a vergonha vem de atos corriqueiros, como um tropeo no meio de uma passarela ou uma gafe cometida num jantar. Isso no tem nada de grave, porm,
se fez voc sentir vergonha, sinal de que voc planejava acertar, o que  sempre bom.
Vergonha de ser apresentada a algum? De falar em pblico? Tambm  bobagem, ningum espera de ns perfeio. Isso  apenas timidez. Ser que quem nasceu depois
dos anos 80 sabe o que  timidez? bom, timidez  um certo recato,  quando uma pessoa no faz questo nenhuma de aparecer. No ria, isso existe.
Mas voltando ao que nos trouxe aqui. Vergonha  o que voc deveria sentir quando faz algo errado.  o que deveria
sentir quando se desresponsabiliza pelo que est desmoronando  sua volta. Vergonha  quando voc se habilita para uma tarefa importante e descobre que no tem competncia
para execut-la. Vergonha  o que se sente quando interferimos na vida dos outros de forma desastrosa. Vergonha  o que deveria nos impedir de praticar hbitos aparentemente
inocentes, como chegar atrasado no teatro quando a pea j comeou, e nos impedir de coisas bastante mais srias,
como roubar.
E h a vergonha sem culpa, a vergonha pelo que representamos coletivamente. Eu, ao menos, senti muita vergonha quando uma turista estrangeira, depois de ficar dois
dias confinada num aeroporto brasileiro, sem conseguir embarcar, perguntou a um reprter o que significava o lema "ordem e progresso" na nossa bandeira.
Muitos polticos (pra citar uma classe trabalhadora aleatria) no possuem vergonha. Possuem contas no exterior, assessores de marketing, mas vergonha, nenhuma.
Posam para fotografias ao lado daqueles cuja me j xingaram e aceitam apoio de adversrios que j lhes puxaram o tapete. Quando se trata de fazer alianas, a poltica,
de um modo geral, revela-se um bordel, e perdo se estou ofendendo as profissionais do ramo.  bem verdade que restam dois ou trs que possuem a decncia de dizer:
prefiro no me eleger a jogar no lixo meus princpios. Mas para se posicionar assim,  preciso ser do tempo da bala azedinha vendida em lata, do tempo do "Boa noite,
John Boy", do tempo dos Novos Baianos, do tempo em que Pscoa significava ressurreio e do tempo em que existia vergonha, coisa que quase ningum mais sente, poucos
lembram o que  e ningum se esfora para reavivar.
8 de abril de 2007
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NUNCA JAMAIS

A gente sabe direitinho o que ainda gostaria de fazer na vida. Os sonhos so variados: uns no querem morrer antes de conhecer Paris, outros desejam um dia montar
sua prpria pousadinha, h aqueles que prometeram a si mesmos correr uma maratona at o final e os que humildemente gostariam de ter uma Louis Vuitton que no fosse
de camel.  a turma do "hei de conseguir", "you lutar para", "chegarei l".
Eu, que j fui mais longe do que esperava, tenho o costume inverso: listar as coisas que no farei nem sob decreto. Nunquinha. Meu top ten de no-desejos inclui,
entre outros, tudo o que envolve altura: saltar de pra-quedas, bungee jump, parapente. Nem amarrada, ainda que solta  que no iria mesmo. Nem sedada. Fora de cogitao.
At a, imagino que eu tenha companhia, no  um medo vergonhoso. O que me envergonhava era outra coisa que havia jurado jamais fazer em vida. Para uma gacha, um
acinte: prometi a mim mesma que ningum me veria montar num cavalo. Tudo porque aos oito anos eu subi num animal que disparou feito um mssil e por pouco no me
deu o mesmo destino do ator Christopher Reeve. Trauma insolvel. Estava decidido: cavalgada no iria entrar na minha biografia de jeito nenhum. Era no que acreditava
at sbado passado.
Tenho fotos para provar. Testemunhas. At um diploma de cavaleira ganhei. Estive em So Francisco de Paula,
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na charmosssima Pousada do Engenho (os que sonham em ter uma pousada um dia, inspirem-se nessa) e acabei sendo convencida a fazer um passeio ali perto, numa fazenda
onde um simptico casal de alemes promove cavalgadas para amadores e profissionais. Um empolgante passeio de trs horinhas.
Trs horas???
No me pergunte como, mas quando percebi, estava em cima do lombo do bicho, numa altura que para mim era semelhante a de uma montanha. you cair, Jesus Cristo. O
eqino deu um passo, e depois outro, e mais outro, e quando vi eu estava trotando lpida e faceira feito criana com brinquedo novo. To  vontade que por pouco
no empinei o bicho, como faz o Beto Carrero. Eu, que jurava que nunca, jamais, nem morta, s passando por cima do meu cadver, descobri que nasci para andar a cavalo.
Exageros  parte, uma coisa aprendi com essa brincadeira. Isso de dizer que nunca-jamais  uma negao  vida. At que eu experimente, no posso ter certeza de
nada, nem mesmo sobre esta criatura que me parece to familar, que sou eu mesma. Meu top ten de no-desejos virou top nine, e quem sabe eu consiga eliminar outros
medos com o tempo.
Mas pra-quedas, nunca, jamais, nem nessa vida, nem
na outra.
8 de abril de 2007
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OH, LORD!

Liguei o rdio do carro e santa nostalgia: estava tocando uma msica da Janis Joplin que marcou minha infncia, mesmo que naquela poca eu no entendesse quase nada
de ingls - no que entenda muito hoje. Voc deve lembrar,  um clssico, comea dizendo: "O/z, Lord, won'tyou buy me a Mercedes Benz? Myfriends ali drive Porsches,
I must make amends", que significa mais ou menos: "Oh, Senhor, no quer me comprar um Mercedes Benz? Todos os meus amigos dirigem Porsches, eu preciso compensar."
E seguia nessa irnica e provocativa prece pedindo nem paz, nem amor, e sim uma tev a cores e noitadas. Se Ele a amasse mesmo, no a deixaria na mo.
Oh, Lord, quantas pessoas, hoje, no esto por a tambm rezando por uma Louis Vuitton original de fbrica e por uma poderosa tev de plasma? Elas abrem as revistas
e esto todos to melhores de vida do que elas, como ser feliz sem igualdade de condies? D a essas pessoas o que elas pedem, Senhor,  s faz-las ganhar um sorteio,
uma rifa. Imagine a dificuldade que o Senhor teria para atend-las caso elas pedissem um mundo mais acolhedor, menos agressivo, mais sensato, o trabalho que iria
dar.
Oh, Lord, reconhea a inocncia de quem lhe pede uma casa na praia, um chalezinho na montanha, ou mesmo um belo apartamento em bairro nobre, o Senhor sabe que essas
pessoas no foram treinadas para se satisfazerem com o que
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tm, mesmo que tenham tanta coisa, como famlia, paz de esprito, um emprego decente, mas isso no conta, isso no enche barriga de ningum.
Oh, Lord, ningum anda rezando por f, pela sade do vizinho, para resistir aos apelos consumistas, nem mesmo para simplesmente dizer "Obrigada, Senhor". No se
faz mais esse tipo de concesso: afinal, obrigada por qu? Eles querem ser convidados para as festas. Eles querem melhorar. Compense-os com um relgio de grife,
uma corrente de ouro, um celular bem fininho e uma cmera digital, eles no podem comprar, mas o Senhor pode, o Senhor tem crdito em qualquer loja, o Senhor s
precisa fazer abracadabra e tudo se resolve.
Janis Joplin gravou essa msica em 1970. Nos ltimos
37 anos, o nmero de splicas estapafrdias segue aumentando e quase ningum mais lembra de agradecer o mistrio da existncia, o poder transformador dos afetos,
a liberdade de escolha, o contato com o que ainda nos resta de natureza, o encanto dos encontros, a poesia que h numa vida serena, a alma nossa de cada dia, essas
coisas que parecem to obsoletas, e pelo visto so. Oh, Lord, desa da, faa alguma coisa, que aqui embaixo trocaram o abstrato pelo concreto e no demora estaro
pedindo a parte deles em dinheiro.
15 de abril de 2007
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O VIOLINISTA NO METR

Aconteceu em janeiro. O jornal Washington Post convidou um dos maiores violinistas do mundo, Joshua Bell, para tocar numa estao de metr da capital americana a
fim de testar a reao dos transeuntes. Desafio aceito, l foi Bell, de jeans e camiseta, s 8 da manh, o horrio mais movimentado da estao, para tocar no seu
Stradivarius de 1713 (avaliado em mais de trs milhes de dlares) melodias de Bach e Schubert.
Passaram por ele 1.097 pessoas. Sete pararam alguns minutos para ouvi-lo. Vinte e sete largaram algumas moedas. E uma nica mulher o reconheceu, porque havia estado
em um de seus concertos, cujo valor mdio do ingresso  cem dlares. Todos os outros usurios do metr estavam com pressa demais para perceber que ali, a dois metros 
de distncia, tocava um instrumentista clssico respeitado internacionalmente.
No me surpreende. Vasos da dinastia Ching, de valor incalculvel, seriam considerados quinquilharias se misturados a quaisquer outros numa feira de artesanato ao 
ar livre. Uma jia do Antnio Bernardo correria o risco de ser ignorada se fosse exposta numa lojinha de bijuterias, uma gravura de Roy Lichtenstein seria considerada 
amadora se exposta numa mostra universitria de cartoons, e ningum pagaria mais de quarenta reais por uma escultura do mestre Aleijadinho que estivesse misturada 
a anjos de gesso vendidos em beira de estrada. Desinformados, raramente conseguimos destacar o raro do medocre.
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S  possvel valorizar aquilo que foi estudado e percebido em sua grandeza. Se eu no me informo sobre o valor histrico de uma moeda que circulava na poca dos 
otomanos, ela passa a ser apenas uma pequena esfera enferrujada que eu no juntaria do cho. Se eu no conheo o significado que teve uma muralha para a defesa dos 
grandes imprios, ela vira apenas um muro passvel de pichao. Se no reconheo certos traos artsticos, um vitral de Chagall passar to despercebido quanto o 
vitral de um banheiro de restaurante. Podemos viver muito bem sem cultura, mas a vida perde em encantamento.
Essa histria do violinista demonstra que no estamos preparados para a beleza pura:  preciso um mnimo de conhecimento para valoriz-la. E demonstra tambm que 
temos sido treinados para gostar do que todo mundo conhece. Se uma atriz  muito comentada, se uma pea  muito badalada, se uma msica  muito tocada no rdio, 
estabelece-se que elas so um sucesso e ningum questiona. So consumidas mais pela insistncia do que pela competncia, enquanto que competentes sem holofotes passam 
despercebidos.
Gostaria muito de ter circulado pela estao de metr em que tocava Joshua Bell. No por admir-lo: pra ser franca, nunca ouvi falar desse cara. O que eu queria
era testar minha capacidade de ficar extasiada sem estmulo prvio. Descobrir se ainda consigo destacar o raro sem que ningum o anuncie. Tenho a impresso de que
eu pararia para escut-lo, mas talvez eu esteja sendo otimista. Vai ver eu tambm passaria apressada, sem me dar conta do tamanho do meu atraso.
22 de abril de 2007
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MATO, LOGO EXISTO

No  um bom assunto para domingo, reconheo. Mas estamos sempre to ocupados nos dias da semana que no custa reservar dez minutinhos do nosso dia de folga pra
refletir um pouco sobre que espcie de adultos est sendo formada aqui e no mundo. O sul-coreano que no dia 16 de abril matou 32 pessoas dentro de uma universidade
americana  um exemplo - a esta altura, j antigo, mas serve. Era um doente, e qual a doena dele? Solido, depresso. No se pode chamar de um caso raro.
Um dia depois da tragdia, entrei numa sala de bate-papo da internet para ler os comentrios sobre esse episdio. At ento, no estava to perplexa -  um crime
recorrente nos Estados Unidos. Mas ao me deparar com a reao de alguns brasileiros da mesma faixa etria do assassino, a sim, estarreci. Nunca vi um conjunto
de idias to preconceituosas, agressivas e mal escritas. Era o festival da ignorncia. Uma amostra da misria cultural, misria intelectual e misria afetiva que
caracteriza os novos tempos. Ningum discutia com civilidade, os comentrios eram belicosos e ferozes, e quando discordavam uns dos outros a  que a baixaria rolava
solta. Pensei: eles esto protegidos pelo virtualismo, mas estivessem frente a frente e com uma arma ao alcance da mo, quem garante que no teriam seu dia de Cho
Seung-Hui?
Esses garotos e garotas possuem a rebeldia natural da idade, mas  uma rebeldia sem argumento, uma rebeldia vinda do desespero. Eles cresceram assistindo a uma quantidade
exagerada de violncia na tev e no cinema, idolatram msicos que cantam coisas como "eu escrevo minhas prprias leis com a morte", tm pouco contato com o pai
e a me, mantm amizades de faz-de-conta e so soterrados por uma avalanche de informaes que mal conseguem filtrar. Tudo isso numa sociedade cada vez mais competitiva,
em que a ordem  aparecer a qualquer custo. A felicidade h muito que deixou de se concentrar na trinca amor-sade-e-dinheiro: agora  sexo-popularidade-e-muito-muito-muito-
dinheiro. Quem tem uma vida modesta, se frustra: conclui que  uma pessoa que no existe, que no conta, que no vale. E resolve dar o seu recado na marra.
Impossvel este relato no soar dramtico, mas irreal no . A vida mudou. E temos alguma responsabilidade nisso, no somos apenas vtimas, mas cmplices. Est mais
do que na hora de ficarmos mais perto de nossos filhos. De oferecermos a eles livros e msica boa, darmos muito carinho e elogio, ficarmos de olho nos lugares onde
eles vo e com quem saem - um pouco de controle no faz mal a ningum.  recomendvel tambm no cultuar revistas que vivem de fofoca, ridicularizar a fixao pela
esttica e mostrar a eles que os super-heris de verdade costumam ser mais discretos.
Porm, discrio  uma coisa, fuga  outra.  preciso chamar essa garotada pr papo quando estiverem silenciosos demais, ajud-los a compreender essa loucura a
fora (que nem ns compreendemos direito), lev-los pra viajar quando der, coloc-los em contato com hbitos mais simples e escut-los muito, no importa sobre que
assunto.
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 guerra: a agressividade e a misria existencial que caracterizam a nossa poca precisam ser enfrentadas no s com Prozac, mas com cultura e afeto. A grande
maioria dos adolescentes que a esto no conseguir ganhar fortunas, no vai virar artista nem doutor, no vai casar com homens com barriga de tanquinho nem com
mulheres que autografam a Playboy. eles vo ter uma vida normal. E se o normal seguir no servindo pra eles,*pobres de todos ns.
29 de abril de 2007
NOTCIAS DE TUDO
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Algum de um site me ligou outro dia pra fazer uma pesquisa: perguntou se eu achava que o namoro da ris e do Diego iria durar. De quem?? So parentes meus? Pra
no ser do contra, respondi que sim, que eles vo envelhecer juntos, ai deles se no.
O Brasil tem um sem-nmero de revistas que circulam por semana. Revistas de informao, de variedades, de fofoca, de moda, de comportamento, sem contar as especializadas,
como as nuticas, gastronmicas, cientficas ou esotricas. Quantos so os programas de tev, contando os canais por assinatura? Tambm no  pouca a quantidade
de colunistas que, como eu, tentam tirar da cartola algum assunto que preste. No mundo esto acontecendo, neste instante, epidemias, tragdias, assaltos, provas
esportivas, fenmenos climticos, pr-estrias, reformas polticas, e eles no sero suficientes para manter os veculos de comunicao ocupados: sobraro pginas
para serem preenchidas. Espao  o que no falta para as notcias relevantes e tambm para as irrelevantes, e so essas que esto nos endoidecendo.
Impossvel assimilar a avalanche de informaes que recebemos todo dia. A gente no armazena nem dez por cento. O ataque  macio e constante, no tem para onde
fugir. Eu, que fao parte da artilharia, nem por isso deixo de me questionar: ser que no estamos indo alm do limite aceitvel? Informao  fundamental, mas sem
overdose.
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A impresso que tenho  que a informao que recebemos  tanta, mas tanta, que nos imobiliza. S de ler as repetitivas matrias sobre os benefcios do exerccio
fsico me d cansao,  como se eu tivesse caminhado quilmetros. Somos informados sobre todas as bandas de rock do mundo e no instante seguinte j no lembramos
quem  quem. Gastamos horas nos atualizando, ao mesmo tempo em que geramos muito pouca notcia sobre ns mesmos. O que voc tem feito?
A populao do planeta est em plena atividade, todos trabalhando, planejando, comemorando, matando, sobrevivendo, um mundo no gerndio, sem interrupes, e a gente
consumindo tudo isso, soterrados por tanta notcia, por tanto apelo, por tanta exigncia de opinar, concordar, discordar. Voc poderia estar ouvindo uma msica agora,
olhando pr cu. Voc poderia estar regando suas plantas, poderia estar observando o barulho da chuva, poderia estar preparando um ch ou lendo um belo poema em
vez desses meus lamentos. No, no me abandone, mas deixo aqui uma perguntinha: voc tem recebido notcias de si mesmo?
6 de maio de 2007
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SIMPATIA PELO DIABO

Sympathy"  uma daquelas palavras inglesas que nos traem, parece significar simpatia, mas  mais do que isso, significa compaixo, solidariedade e, em alguns casos,
condolncias. Os Rolling Stones botaram a palavra na roda quando gravaram "Sympathy for me Devil", em contraponto aos Beatles, que se julgavam mais famosos que Jesus
Cristo. Os Stones queriam justamente o contrrio: fincar p no lado oposto do cu. Eu, beatlemanaca devota, nesse aspecto rezo com a turma do Mick Jagger: tambm
acho o diabo mais quente. Assim como no h paraso que no seja um pouco montono, no h inferno que no seja um pouco excitante. Ou muito excitante. O diabo tenta,
o diabo incomoda, o diabo perturba, o diabo veste Prada. Os bonzinhos so timos, mas tm um guarda-roupa neutro demais.
Oh, santa imprudncia. O papa quase chegando aqui e eu soltando charme para Lcifer. Eu sei, eu sei, sou a primeira a praguejar contra os tempos diablicos que estamos
vivendo e agora me saio com esse endeusamento de Satans, mas hoje quero brincar, e para brincar  preciso humor, coisa que o diabo tem mais do que o seu oponente.
O demnio  criativo,  sexy,  surpreendente e pode ser um doce, quando bem tratado. Ao menos aqui em casa  assim. Quando meu namorado se atrasa, eu no o recebo
com um "Por onde andaste, Santo Deus?". Muito dramtico. Eu pergunto: "Onde  que tu tava, diabo?". No fica mais informal e carinhoso?
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Basta de provocaes, tem gente que leva isso a srio. E se  pra falar srio, vamos l: no  uma bobagem colossal tentarem trocar o nome de uma queda d'gua,
nas Cataratas do Iguau, s porque ela se chama Garganta do Diabo? H seis anos que alguns religiosos tentam rebatiz-la com o nome anterior, Salto da Unio, que
 insosso, no tem apelo turstico e nem provoca calafrios. O nome Garganta do Diabo  disparado melhor.
Surgiu por causa de uma antiga lenda indgena que contava
sobre uma cobra gigante que perseguia um casal de namorados. No sei o que isso tem a ver com queda d'gua, mas j  uma histria. Maliciosa, alis, a cara do voc-sabe-quem.
Se abolirem o nome Garganta do Diabo, daqui a pouco vo querer trocar tambm o nome da Praia do Diabo, aquela pequeninha que fica  esquerda do Arpoador, e da impactante
Caverna do Diabo, a 280 quilmetros de So Paulo. A troco de que essa perseguio? Deixem o diabo em paz.
O demo no  de todo mau. Sempre foi chegado s artes. Fazia visitas peridicas a Picasso, bebia com Bukowski e freqentava o corpo de algumas beldades como Marylin
Monroe e Brigitte Bardot, nos ureos tempos em que ter o diabo no corpo no era apenas fora de expresso. O diabo nos deu o blues, o diabo toca guitarra. Ter inspirado
James Brown, por exemplo, deveria atenuar um pouco sua culpa. Eu, admito, simpatizo muito com ele.  verdade que j me deu maus conselhos, nem todos segui. Nem
todos. Mas hoje no consegui evitar. Ele me possuiu e me assoprou: "A Garganta do Diabo, em Foz do Iguau,  um dos maiores espetculos da natureza e no vai perder
o encanto se trocar de nome, mas que vai ser uma babaquice, vai". Cartas diretamente para o prprio.
6 de maio de 2007
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AS SUPERMES E AS MES NORMAIS

Minha me me emprestou um livro meses atrs. Chama-se O que aprendi com minha me., organizado por Cristina Ramalho, que traz 52 depoimentos de personalidades
a respeito de suas gloriosas genitoras. Gloriosas mesmo. H aquelas que criaram os filhos sem ter o que dar de comer, as que criaram sem a presena do pai, as que
criaram  distncia, as que criaram filhos que no nasceram do corpo delas. Mes sortidas, de tudo que  tipo e jeito. Todas hericas, todas fascinantes, todas possuidoras
de garra e ternura, todas conhecedoras de truques infalveis para fazer seus filhos se tornarem pessoas bacanas. E eles se tornaram. Os depoimentos so de Arnaldo
Jabor, Contardo Calligaris, Maria Adelaide Amaral, Marta Ges, Soninha Francine, Supla, Cleyde Yconis e outros vitoriosos.
Ainda que no seja um livro de humor, dei algumas gargalhadas por causa dele. No durante a leitura, que  realmente tocante, h relatos que comovem. Ri muito foi
ao devolver o livro para minha me. Ela me perguntou: "E ento, o que voc achou?". Respondi: "Maravilhoso. S que estou pensando em me atirar do dcimo andar. Descobri
que sou uma droga de me." E ela: "Me espera que vou saltar junto".
J escrevi mais de uma crnica sobre minha me. Ela sabe que no tem motivos para se julgar severamente,  uma
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mulher singular, no h quem no a admire e adore, incluindo seus dois filhos: meu irmo e eu. Mas se um dia minhas filhas tiverem que escrever sobre mim, pobre
delas. No que eu seja uma me relapsa, tirana, fria e desapegada. Longe disso. S que sou uma me... oh, dor... uma me comum.
H quase dezesseis anos no ramo da maternidade, com duas experincias bem sucedidas at aqui, me pergunto: o que fiz que merecesse ficar como exemplo para a posteridade?
Ok, passei noites em claro, troquei muitas fraldas, levei e busquei do colgio umas trs mil vezes - e ainda sigo na funo. Fui a festinhas de aniversrio barulhentas,
passei fins de semana em pracinhas, ensinei a andar de bicicleta, levei em livrarias e cinemas, fiz vrios curativos, impus limites, disse no quando era preciso
e at quando no era preciso. Nada que uma me mdia tambm no faa.
O que elas aprenderam comigo? A devolver o que no  seu, a dizer a verdade, a ser gentil, a no depender demais dos outros, a aceitar que as pessoas no so todas
iguais e que isso  bom. Nem mesmo as mes so todas iguais, contrariando o famoso ditado. H as que se sacrificaram, as que abriram mo de sua felicidade em troca
da felicidade dos filhos, as que mantiveram casamentos horrorosos para no faz-los sofrer com um lar desfacelado, as que trabalharam insanamente para no faltar
nada em casa, as que sangraram por dentro e por fora para manter a famlia de p.
Eu no fiz nada disso. Por sorte, a vida no me exigiu nenhuma atitude sobre-humana. Fui e sigo sendo uma me bem normalzinha. Que acerta, que erra, que faz o melhor
que pode. Em comum com as supermes, apenas o amor, que  sempre inesgotvel. Mas medalha de honra ao mrito, no sei se mereo. No me julgo sacrificada e tampouco
sublime.
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Sou uma mulher que teve a sorte de ter a Julia e a Laura, uma mulher que se equilibra entre dvidas e certezas e que consegue tirar um saldo positivo dessa adorvel
baguna.
Ento, deixo aqui registrado para todas as mes: feliz dia. Tanto pra voc que  super quanto pra voc que no  cem por cento, mas tambm faz o melhor que pode,
j que o nosso melhor, por menor que seja, sempre  muito.
13 de maio de 2007
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A PIOR VONTADE DE VIVER

Todos so to compreensivos, aceitam to bem suas escolhas, torcem por tudo o que voc faz, no  mesmo? Desde que voc faa o que est no script. Que siga o que
foi determinado no roteiro, aquele que foi escrito sabe-se l por quem e homologado no instante mesmo em que voc nasceu. Mas e quem no quiser seguir esse script?
Em dezembro prximo, sero completados trinta anos da morte da escritora Clarice Lispector, que entendia de subverses emocionais. Fui convidada a participar de
um evento que a homenageia, em Porto Alegre, e em funo disso andei relendo algumas de suas obras e encontrei no conto Amor, do livro Laos de famlia, uma de minhas
frases prediletas. Assim ela descreve o sentimento da personagem Ana: "Seu corao enchera-se com a pior vontade de viver".
Ela  complexa, angustiante, subjetiva e intensa. Ela, a pior vontade de viver. A que no est disposta a negociar com a vontade dos outros.
No entanto, essa que foi chamada de a "pior" vontade pode ser tambm uma vontade genuna e inocente.  a vontade da criana que ainda levamos dentro, entranhada.
 o desejo de acar, de traquinagem, de fazer algo escondido, de quebrar algumas regras, de imitar os adultos. A "pior" vontade  curiosa, quer observar pelo buraco
da fechadura e depois, mais ousadamente, abrir a porta e entrar no quarto proibido. A "pior" vontade  a de no se enraizar, no assinar
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contrato de exclusividade, no firmar compromisso, no render-se s vontades fixas, apenas s vontades momentneas, porque as fixas correm o risco de deixar de serem
vontade para se transformarem em vaidade - como se sabe, h sempre aqueles que se envaidecem da prpria persistncia.
A "pior" vontade no quer ganhar medalha de honra ao mrito, no quer posar para fotografias, no quer completar bodas de ouro nem ser jubilada. A "pior" vontade
no faz a menor questo de ser percebida, ela quer ser realizada.  quando voc sabe que no deveria, mas vai. Sabe que no ser fcil, mas enfrenta. Sabe que tomaro
como agresso, mas arrisca. Aqui, cabe lembrar: apenas se sentem agredidos aqueles que te invejam.
A vontade oficial, a vontade santinha, a que no causa incmodo  a outra, a aprovada pela sociedade, a que no leva em conta o que vai no seu ntimo, e sim a opinio
pblica.  a vontade que todos ns, de certa forma, temos de mostrar para os outros que somos felizes, sem saber que para conseguir isso  preciso, antes, ter a
"pior" vontade, aquela que faz voc descobrir que ser feliz  ter conscincia do efmero,  saber-se capaz de agarrar o instante,  lidar bem com o que no  definitivo
- ou seja, tudo.
 com essa "pior" vontade de viver que voc atrai os outros, que seu magnetismo cresce, que seu rosto rejuvenesce e que voc fica mais interessante.  uma pena
que nem todos tenham a sorte de deixar vir  tona esta que Clarice Lispector chamou de a pior vontade de viver, que, secretamente,  a melhor.
27 de maio de 2007
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AS VERDADEIRAS MULHERES FELIZES

Acabo de ler um livro de Eliette Abecassis, uma francesa, que eu no conhecia. O nome da obra, no original,  Un heureux vnement, que pode ser traduzido para "Um
feliz acontecimento", mas  um ttulo irnico, pois o livro trata do fator que, segundo a autora, destri as relaes amorosas: o nascimento de um filho. Num torn
exageradamente desesperado, a personagem narra o fim do seu casamento depois que d  luz. Concordo que a chegada de uma criana muda muita coisa entre o casal,
mas a escritora carrega nas tintas e cria um quadro de terror para as mes de primeira viagem. Se o nascimento de um filho  sempre desconcertante,  preciso lembrar
que , ao mesmo tempo, uma emoo sem tamanho. De minha parte, s tenho bons momentos a recordar, nada foi dramtico. Mas mesmo que, por experincia prpria, eu
no compartilhe com a desolao da autora, ainda assim ela diz no livro uma frase muito interessante. Ao enumerar as diversas mazelas por que passam as criaturas
do sexo feminino, ela me veio com esta: "Os homens so as verdadeiras mulheres felizes".
Atente para a sutileza da frase. O que ela quis dizer? Que os homens saem pela porta de manh e vo trabalhar sem pensar se os filhos esto bem agasalhados ou se
fizeram o dever da escola. Os homens no menstruam, no tm
celulite, no passam por alteraes hormonais que detonam o humor. Os homens no se preocupam tanto com o cabelo e no morrem de culpa quando no telefonam para
suas mes. Os homens comem qualquer coisa na rua e o cardpio do jantar no  da sua conta, a no ser quando decidem cozinhar eles prprios, e isso  sempre um momento
de lazer, nunca um dever. Os homens no encasquetam tanto, so mais prticos. Eu, que estou longe de ser uma feminista e mais longe ainda de ser ranzinza, tenho
que reconhecer o brilhantismo da frase: os homens so mulheres felizes. Eles fazem tudo o que a gente gostaria de fazer: no se preocupam em demasia com nada.
Porque nosso mal  este: pensar demais. Ns, as reconhecidas como sensveis e afetivas, somos, na verdade, mquinas cerebrais. Alucinadamente cerebrais. Capazes
de surtar com qualquer coisa, desde as mnimas at as muito mnimas. Somos mulheres que nunca esto  toa na vida, vendo a banda passar, e sim atoladas em indagaes,
tentando solucionar questes intrincadas, de olho sempre na hora seguinte, no dia seguinte, planejando, estruturando, tentando se desfazer dos problemas, sempre
na ativa, sempre atentas, sempre alertas, escoteiras 24 horas.
Os homens, mesmo quando muito ocupados, so mais relax. Focam no que tm que fazer e deixam o resto pra depois, quando chegar a hora, se chegar. No tentam salvar
o mundo de uma tacada s. E a chegada de um filho, ainda que assuste a eles, como assusta a todos,  algo para se lidar com calma,  um aprendizado, uma curtio,
nada de muito catico. Eles no precisam dar de mamar de duas em duas horas, no ficam fora de forma, no enlouquecem. Isso  uma ddiva: os homens raramente enlouquecem.
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Ns, nem preciso dizer. Nascemos doidas. Por isso somos to interessantes,  verdade. Mas felicssimas, s de vez em quando, nas horas em que no nos exigimos desumanamente.
Homens, portanto, so realmente as verdadeiras mulheres felizes. Que isso sirva de homenagem aos queridos, e sirva pra rir um pouco de ns mesmas, as que se agarram
com unhas e dentes ao papel de vtimas porque ainda no aprenderam a ser desencariadas como eles.
27 de maio de 2007
BABACAS PERIGOSOS

Alpha Dog o nome do filme. Mostra a histria verdica de um garoto de quinze anos que foi seqestrado na Califrnia por uma gangue, como garantia de pagamento de
uma dvida que seu irmo traficante no honrou. Poderia ser apenas mais uma histria banal sobre a brutalidade dos dias de hoje, mas  to mais que isso que a gente
sai do cinema num desnimo paralisante.
O filme inicia com imagens de crianas em pracinhas, na beira de praia, brincando no ptio, todas esbanjando inocncia e singeleza: registro de uma infncia sem
nenhum dever alm do de se divertir. Tanto no filme como na vida real, um dia essas crianas crescem e as famlias, por preguia de educar, resolvem que a vida deve
seguir assim: sem nenhum dever alm do de se divertir. O resultado: filhos e pais sem dilogo, compartilhando baseados, bebidas e parceiros sexuais, todos muito
"amigos", sem hierarquia nem autoridade. Jovens com facilidade de acesso a todos os prazeres, legais ou ilegais, sem restries, sem vigilncia. Festas, orgias,
doses cavalares de entorpecentes. O vazio preenchendo as 24 horas do dia. O dinheiro e o poder (ilusrio) como bloqueadores da conscincia. A absoluta falta de sentido
de estar aqui ou l ou em qualquer lugar. A nica identidade possvel  formada atravs da violncia, que eles nem conseguem dimensionar e entender o que representa.
Violncia  s um esporte, uma linguagem, um programa, um meio de se auto-afirmar. Matar, trepar, roubar, depredar, d na mesma.  nada.
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De vez em quando, um ou outro membro da gangue  acometido de um ligeiro insight.  como se um grilo-falante assoprasse no seu ouvido que a coisa no  por a.
Mas como buscar um caminho diferente, quem  que se atreve a parar esse trem? Eles no sabem como. E seguem todos profundamente ss, mergulhados no absurdo de uma
vida -toa.
O seqestro, sobre o qual o filme trata,  uma piada. O garoto seqestrado idolatra os caras que o pegaram e, totalmente deslumbrado, acha que est vivendo um excitante
rito de passagem. Cativeiro, para ele,  o lar de onde veio, e algozes so o pai e a me. Capturado, prova pela primeira vez o gostinho da liberdade.
Ao contrrio do que possa sugerir esse relato soturno, achei o filme excelente. Bem dirigido, com um elenco afiado e sem resvalar para a caricatura. E  isso que
di. No  o retrato da vida em outro planeta. O planeta do filme  este mesmo, a cidade poderia ser a nossa, nada me pareceu exagerado. Temos sido vtimas no apenas
de marginais profissionais, com PhD em maldade, mas tambm de garotos mimados que aceleram seus carroes sem medir conseqncias, que tomam decises estpidas por
pura falta de orientao, que se metem em encrencas pesadas porque, se saltarem fora, temem ser considerados molides, fracos, babacas. Nem percebem que no h babaquice
maior do que fazer pose de bandido. Tem muito pirralho a cometendo asneiras, como os garotos do filme, atrados pela "esttica" das gangues: sua msica, vocabulrio,
roupas. Ningum mais quer ser da turma dos mocinhos, por qu? O pessoal do bem anda precisando urgentemente de uma boa assessoria de marketing.
 3 de junho de 2007
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MANIA DE PERSEGUIO

Tenho uma amiga que, como boa taurina,  desconfiada  bea. No importa sua inteligncia, vivncia, maturidade
- tem uma hora em que ela encasqueta que esto lhe puxando o tapete. "Vivian, isso  parania", digo a ela. "Pode at ser, mas a tem", ela me responde.
Se algum no telefonou como prometido, ela nunca cogita que foi um esquecimento.  porque, provavelmente, a pessoa est desapontada com ela, ou indignada com
ela, ou querendo evitar de lhe contar algo importante.
Se ela foi a nica a no receber o e-mail de algum da nossa turma, pronto: foi excluda. A remetente explica: "Jurava que voc estava viajando, foi s isso". Vivian
sorri e finge que perdoa, mas por dentro: "Achou que eu estava viajando, sei".
Se o porteiro esqueceu de entregar a correspondncia, se o garom trouxe o refrigerante errado, se o jornal veio sem o caderno de classificados, se a cabeleireira
passou mal no horrio em que Vivian seria atendida, ela no pensa que  perseguio: ela tem certeza.
Casualidade, fatalidade, coincidncia, nada disso faz parte do vocabulrio dela. O acaso, em sua vida, no existe. Tudo tem uma explicao, e a explicao  que
as pessoas esto aprontando com ela, ou fugindo dela, ou deixando de confiar nela, ou provocando-a. "Vivian, isso  parania", repito. Ela no me d ouvidos.
Como a gente se quer muito bem, ela sabe que estou apenas tentando ajud-la. Procuro, com minha psicologia de
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almanaque, faz-la entender que  muito desgastante viver assim na defensiva, armada contra o mundo, sempre exigindo que os outros correspondam  sua competncia
e gentileza. Porque tem isto: minha amiga  extremamente competente e gentil, e ai de quem no for, no mnimo, igual ou melhor do que ela. Como a maioria das pessoas
so normais, ou seja, so lentas, desligadas, apressadas, desatentas, Vivian se exaspera.  uma obsessiva pela perfeio.
Assim como ela, conheo outras tantas pessoas que acreditam na tese da conspirao.  como se o mundo inteiro estivesse empenhado em no deixar a vida desses taurinos
- que tambm podem ser leoninos, arianos, geminianos e demais nativos do zodaco - deslanchar. Eu arranco os cabelos quando me deparo com uma criatura assim, e
pergunto: voc acredita mesmo que esto todos ocupados em pass-la para trs, que eles tm tempo sobrando para isso? Pergunta besta a minha.
A frase que deveria ser dita soa antiptica, mas  o que nossos amigos e parentes que sofrem desse complexo precisariam ouvir: voc no  to importante. Ningum
est to preocupado assim com voc, a no ser a meia dzia que lhe ama de verdade. No h conspirao nenhuma. Se as coisas parecem dar mais errado pra voc do
que para os outros, no  porque voc atrai gente falsa ou encrenqueira. Sua desconfiana  que atrapalha o bom andamento da vida. Libere-se dessas neuras e olhe
em volta: todos tm mais o que fazer do que lhe dar ateno o tempo inteiro.
Voc teria coragem de dizer isso a uma amiga? Eu j disse, mas cheia de dedos. Vivian, por sorte,  bem-humorada e acaba rindo disso tudo. Mas no muda. Vai me matar
por estar falando dela nesta crnica, ela que no se chama Vivian coisssima nenhuma.
24 de junho de 2007
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O VALOR DE UMA HUMILHAO

Pergunte para minhas amigas do colgio: eu fui a Miss Certinha. Sempre justa, pontual, atenta para no fazer nada errado. Meus pais no tiveram muito trabalho comigo.
Alis, eu diria que nenhum. Um dia cresci e, naturalmente, cometi alguns erros contra mim mesma, mas jamais contra a sociedade. At ontem, me orgulhava de ser uma
exemplar respeitadora das leis. Mas danou-se: minha reputao foi por gua abaixo.
Existe um danado de um sinal de trnsito que sempre me tenta ao pecado. Ele diz que  proibido dobrar, mas eu olho e no vejo o risco que h em dobrar ali, e a verdade
 que me facilitaria muito o caminho para casa. Mantenho com esse sinal de trnsito uma relao provocativa: quando eu o obedeo, me sinto uma boa menina, e quando
eu o desobedeo, me sinto melhor ainda, ao estilo Mae West. No vejo muito sentido na proibio. Bastando que eu respeite a faixa de pedestre ali situada - e eu
respeito -, aquele sinal torna-se praticamente intil. Mas eu no sou engenheira de trnsito e o sinal permanece fixado naquela esquina, avisando que no se pode
fazer o que eu, quando com muita pressa, s vezes fao.
Pois satans veio ao meu encontro vestindo terno, camisa, sapato e com um filho na mo. Estava bem ali, esperando eu cometer a falta maldita para me apontar o
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caminho do inferno. E assim o fez. Me viu agindo errado e se plantou na frente do meu carro aos berros, invocando a fria de todos os diabos reunidos em confraria.
Eu ali, sozinha, flagrada em delito indefensvel, e ele esbravejando sua raiva, fazendo juntar gente e me humilhando mais e mais e mais. Pedi desculpas, mas  claro
que ele no ouviu e muito menos adiantaria. Eu havia colocado a vida de toda uma comunidade escolar em risco, foi mais ou menos o que ele alegou. Um vexame para
constar da minha biografia no autorizada. A menininha correta que eu havia sido j era, babaus, foi pr espao.
Aconteceu de verdade. E estou relatando no para acusar o pai que me humilhou no meio da rua, e sim para homenage-lo, porque ele teve razo. Foi explosivo alm
da conta, mas teve razo. Ao mesmo tempo em que eu queria sumir de vergonha, pensava: uma bronca bem dada em pblico  mais producente do que uma multa. Nunca fui
de implicar com pardais e azuizinhos, e agora muito menos: tudo o que eles fazem  registrar nossas placas na maior elegncia e discrio. J um grito bem dado
no nosso ouvido tem outro efeito. Jamais repetirei meu nico e amado ato ilcito, adeus  minha breve carreira de transgressora. Sentirei saudades.
4 de julho de 2007
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A JANELA DOS OUTROS

Gosto dos livros de fico do psiquiatra Irvin Yalom (Quando Nietzsche chorou, A cura de Schopenhauer) e por isso acabei comprando tambm seu Os desafios da terapia,
em que ele discute alguns relacionamentos-padro entre terapeuta e paciente, dando exemplos reais. Eu devo ter sido psicanalista em outra encarnao, tanto o assunto
me fascina.
Ainda no incio do livro, ele conta a histria de uma paciente que tinha um relacionamento difcil com o pai. Quase nunca conversavam, mas surgiu a oportunidade
de viajarem juntos de carro e ela imaginou que seria um bom momento para se aproximarem. Durante o trajeto, o pai, que estava na direo, comentou sobre a sujeira
e a degradao de um crrego que acompanhava a estrada. A garota olhou para o crrego a seu lado e viu guas lmpidas, um cenrio de Walt Disney. E teve a certeza
de que ela e o pai realmente no tinham a mesma viso da vida. Seguiram a viagem sem trocar mais palavra.
Muitos anos depois essa mulher fez a mesma viagem, pela mesma estrada, dessa vez com uma amiga. Estando agora ao volante, ela surpreendeu-se: do lado esquerdo,
o crrego era realmente feio e poludo, como seu pai havia descrito, ao contrrio do belo crrego que ficava do lado direito da pista. E uma tristeza profunda se
abateu sobre ela por no ter levado em considerao o comentrio de seu pai, que a essa altura j havia falecido.
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Parece uma parbola, mas acontece todo dia: a gente s tem olhos para o que mostra a nossa janela, nunca a janela do outro. O que a gente v  o que vale, no importa
que algum bem perto esteja vendo algo diferente.
A mesma estrada, para uns,  infinita, e para outros, curta. Para uns, o pedgio sai caro; para outros, no pesa no bolso. Boa parte dos brasileiros acredita que
o pas est melhorando, enquanto que a outra perdeu totalmente a esperana. Alguns celebram a tecnologia como um fator evolutivo da sociedade, outros lamentam que
as relaes humanas estejam to frias. Uns enxergam nossa cultura estagnada, outros aplaudem a crescente diversidade. Cada um gruda o nariz na sua janela, na sua
prpria paisagem.
Eu costumo dar uma espiada no ngulo de viso do vizinho. Me deixa menos enclausurada nos meus prprios pontos de vistas, mas, em contrapartida, me tira a certeza
de tudo. Dependendo de onde se esteja posicionado, a razo pode estar do nosso lado, mas a perderemos assim que trocarmos de lugar. S possuindo uma viso de 360
graus para nos declararmos sbios. E a sabedoria recomenda que falemos menos, que batamos menos o martelo e que sejamos menos enfticos, pois todos esto certos
e todos esto errados em algum aspecto da anlise.  o triunfo da dvida.
15 de julho de 2007
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SHOW FALADO

Li a respeito de um recente show do Gilberto Gil em que, depois de muito cantar, ele comeou a discorrer sobre a vida antes de encerrar a noite com o bis. Mas parece
que a platia no gostou muito. "Pra de falar e canta!" alguns gritaram l de trs. Gil se irritou, lgico. Quem atura grosseria?
Eu estranho  quando o artista no d um pio. Entra no palco, canta, canta, canta, d boa noite e vira as costas. No que seja obrigatrio falar: Chico Buarque,
por exemplo, fez um show fantstico aqui no Sesi e s o que se ouviu dele foi um obrigado e duas ou trs frases rpidas e tmidas. Nada de um papo com o pblico.
Est no seu direito. Mas prefiro quando o artista abre a guarda e nos seduz com a lbia tambm. Em geral, so pessoas inteligentes e espirituosas, que com poucas
palavras conseguem tornar o ambiente mais aconchegante. Lembro que no ltimo show do Jorge Drexler, em Porto Alegre, ele apresentava cada nova cano fazendo observaes
deliciosas e com isso garantiu a empatia com os gachos. Kleiton e Kledir costumam desfiar um rosrio de causos e fazem a platia gargalhar. Ana Carolina, mais
engajada, costuma ler textos dos escritores que admira. Lobo, no Bourbon Country, mostrou que sua rebeldia no o impede de ser engraado. Semana passada foi a vez
de Olivia Byington, no Studio Clio, provar que tudo fica mais simptico quando h proximidade. Seu espetculo "Cada um, Cada um"  um pocket show intimista, apresentado
como se fosse na sala da
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casa dela, num espao para pouca gente. Como boa anfitri, ela recebe seus convidados com delicadeza e boas histrias. Chega at a compartilhar pequenos tesouros,
como uma letra de msica escrita a mo pelo poeta Cacaso ou um carto-postal com a assinatura de torn Jobim encontrado num mercado de pulgas, relquias pessoais
que ela permite que passem de mo em mo durante o show. Impossvel no ficar encantado ouvindo ela narrar a origem de certas parcerias, a razo da escolha de uma
determinada msica para constar do repertrio, como  conciliar filhos e arte, casamentos e turns.  quase como se fosse uma entrevista ao vivo, com o artista
ali na nossa frente se despindo e enriquecendo uma relao que geralmente  cultivada no mistrio e na distncia.
S que h uma condio para isso se dar de forma agradvel para todos: nem o artista, nem o pblico podem ser chatos. Quem est no palco tem que ter conscincia
de que o motivo principal do encontro so suas canes: o papinho  s um charme extra. No  hora de contar piada infame, fazer discursos interminveis, se estender
em assuntos desinteressantes. Quanto ao pblico, que saiba sorrir, aplaudir e usufruir. Nada de pedir "toca Raul" e coisas do gnero.
Gil talvez tenha castigado a platia com alguma ladainha esotrica, a gente sabe do que o baiano  capaz. Ainda assim, quem faz msica de qualidade geralmente tem
uma conversa de qualidade, e nada como quebrar o roteiro burocrtico de um show com algum afeto verbal.
22 de agosto de 2007
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DIVAS ABANDONADAS

Ainda no tive tempo de ler o livro, mas o assunto j entrou no meu dia-a-dia atravs de conversas e solicitaes de opinio para programas de tev.
Divas abandonadas, da jornalista Tet Ribeiro, traz o perfil de sete cones do sculo XX: Marylin Monroe, Jackie Kennedy, Maria Callas, Tina Turner, Ingrid Bergman, 
Sylvia Plath e
Princesa Diana, mulheres que, em comum, tinham projeo, charme e amores tumultuados. A pergunta que tem sido feita : por que mulheres bem sucedidas em suas atividades
pblicas costumam amargar o insucesso em suas vidas privadas?
bom, h muita coisa para se debater a respeito. Pra comear, o que  insucesso no amor? Tina Turner levava uns tabefes do seu marido e parceiro musical Ike Turner.
Marylin casou trs vezes e teve alguns amantes antes de cometer suicdio aos 36 anos. Diana casou com um prncipe que amava outra e depois se meteu com uns sujeitinhos
que vendiam para os tablides os detalhes de sua intimidade. Quem est livre de cruzar com um cafajeste e, pior, se apaixonar por ele?
Ainda assim, resisto em embarcar na histria de que mulheres poderosas possuem mais chances de serem infelizes no amor. Vai depender do quanto o amor  realmente
prioritrio em suas vidas.
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E mais: ser feliz no amor no significa, obrigatoriamente, casar, ter filhos e comemorar bodas de ouro. Talvez todas as divas do livro tenham sonhado com isso
em algum momento, mas, tivessem concretizado esse sonho, no h garantia nenhuma de que seriam mulheres mais realizadas. Todas elas tinham uma rotina dinmica, eram
cercadas de muitas pessoas e de muito estmulo social, artstico e intelectual: fugiam  regra das mulheres comuns. Um casamento convencional talvez amortecesse
sua natureza inquieta.
Quando analisamos a vida de celebridades, incorremos numa srie de especulaes e fantasias. Por um lado, acreditamos que por elas serem pessoas lindas e ricas tm
o dever de ser igualmente bem sucedidas em suas relaes amorosas, para fechar o crculo da perfeio absoluta. Elas personificam um ideal. Quando no cumprem com
a expectativa que depositamos nelas, ficamos inseguros. Se pessoas to especiais no conseguem ser amadas, o que dir ns, que temos celulite, barriga, pouca grana
e um dente torto?
E h os que, numa anlise diametralmente oposta, vibram com a instabilidade emocional dessa gente.  como se eles pagassem um preo pela fama. O sujeito tem uma
Ferrari, mas no consegue uma mulher que o adore pelo que ele , s pelo que ele tem. A mulher  a gostosa do sculo, mas no emplaca uma relao que dure mais de
seis meses. Ns, ao menos, somos felizes no amor, n bem?
No h nada de errado com a vida dos outros. Nem nada de muito certo. No h uma regra que valha para todos os artistas, ou para todos os dentistas, ou para todos
os frentistas. Marylin nunca ficou casada mais do que quatro anos, j Sophia Loren ficou cinqenta anos com o produtor Cario Ponti. Diana no se adaptou  monarquia,
j Grace
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Kelly viveu como Princesa de Mnaco por 27 anos, at falecer num acidente. Se eram felizes essas que mantiveram seus casamentos por mais tempo? V saber.
Em suma, no deve ser fcil construir uma relao perene tendo um cotidiano to frentico: o amor necessita de dedicao. Alis, no anda fcil construir uma relao
perene tendo qualquer cotidiano. A diferena entre as divas e ns  que a vida delas est na vitrine, para nosso julgamento. Nossas dores ficam entre quatro paredes.
2 de setembro de 2007
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LA GOZADERA

Eu j havia gostado muito dos pensamentos e poemas publicados no livro Da amizade, de Francisco Bosco, lanado em
2003. Pois agora, quatro anos depois, Chico lana Banalogias, um livro de ensaios que transforma o banal em filosofia da boa. Daqueles livros que nos mantm grudados
at a ltima pgina e que abandonamos sob protestos.
Chico no se contenta com o aspecto perifrico de nada e vai fundo buscar o que no se enxerga a olho nu: o maquiavelismo de algumas crticas contra Caetano Veloso,
a desimportncia das dedicatrias de livros, o reducionismo das sinopses de filmes, o que diferencia um golao de um gol bonito, a necessidade da tristeza, a insistncia
em comparar letra de msica com poesia e outros assuntos que ele aprofunda como um astuto arquelogo do cotidiano. Entre os temas, destaco o delicioso "A tica
da gafieira em 15 passos", de onde tirei o assunto para minha crnica de hoje, ou para o que resta dela. Chico Bosco fala que a exigncia de o cavalheiro conduzir
a dama, de ela ser conduzida, a obrigao de pensar na seqncia de passos e tudo mais conferem uma certa rigidez e tenso aos bailarinos iniciantes, quando na verdade
a dana de gafieira pede justamente o contrrio. " a conquista de uma liberdade - isto , a conquista do erro
- que possibilita o sorriso, a soltura, o improviso. Numa palavra, como dizem os cubanos, Ia gozadera."
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Agora me diga voc, que vive contrado por causa das presses sociais, das expectativas alheias, das idias absurdas de perfeio que foram colocadas na sua cabea,
como  que ainda no se permitiu a conquista do erro? Est a a chave para uma vida, seno mais feliz, ao menos mais divertida. Porque  do erro que surgem novas
solues. Os desacertos nos movimentam, nos humanizam, nos aproximam dos outros, enquanto que o sujeito nota 10 nem consegue olhar para o lado, no pode se desconcentrar
um minuto sob pena de ver seu mundo cair.
O mundo j caiu, baby. S nos resta danar sobre os
destroos.
A escritora e filsofa francesa Chantal Thomas certa vez disse que na sociedade moderna h muito lazer e pouco prazer. O fato de voc estar passeando, nadando ou
comendo no significa que est tendo prazer, talvez esteja apenas obedecendo as leis severas do "tempo livre". O que h de divertido em reservar uma mesa num restaurante
da moda para daqui a trs meses, em enfrentar filas interminveis para ver uma exposio de um artista que voc nem sabe quem , em comprar uma bolsa carssima que
logo ser vendida a dez reais no camel e em praticar a ginstica do momento para no ficar desatualizada? Tudo isso so solicitaes culturais, imposies de fora.
O prazer est na inveno da prpria alegria.
O pai de Chico, Joo Bosco, h muitos anos sussurrou belamente em nossos ouvidos: so dois pra l, dois pra c. Vem agora o filho e gentilmente retira a ponta do
torturante band-aid do calcanhar. Soltemos nossos passos e gozemos a vida.
9 de setembro de 2007
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EM CASO DE DESPRESSURIZAO

Eu estava dentro de um avio, prestes a decolar, e pela milionsima vez na vida escutava a orientao da comissria: "Em caso de despressurizao da cabine, mscaras
cairo automaticamente  sua frente. Coloque primeiro a sua e s ento auxilie quem estiver a seu lado." E a imagem no monitor mostrava justamente isso, uma me
colocando a mscara no filho pequeno, estando ela j com a sua.
 uma imagem um pouco aflitiva, porque a tendncia de todas as mes  primeiro salvar o filho e depois pensar em si mesma. Um instinto natural da fmea que h em
ns. Mas a orientao dentro dos avies tem lgica: como poderamos ajudar quem quer que seja estando desmaiadas, sufocadas, despressurizadas?
Isso vem ao encontro de algo que sempre defendi, por mais que parea egosmo: se quer colaborar com o mundo, comece por voc.
Tem gente  bea fazendo discurso pela ordem e reclamando em nome dos outros, mas mantm a prpria vida desarrumada. Trabalham naquilo que no gostam, no se esforam
para conservar uma relao de amor, no cuidam da prpria sade, no se interessam por cultura e informao e esto mais propensos a rosnar do que a aprender. com
a cabea assim minada, vo passar que tipo de tranqilidade adiante? Que espcie de exemplo? E vo reivindicar o qu?
Quer uma cidade mais limpa, comece pelo seu quarto, seu banheiro e seu jardim. Quer mais justia social, respeite os
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direitos da empregada que trabalha na sua casa. Um trnsito menos violento,  simples: avalie como voc mesmo dirige. E uma vida melhor para todos? P, ajudaria
bastante colocar um sorriso nesse rosto, encontrar solues viveis para seus problemas, dar uma melhorada em voc mesmo.
Parece simplrio, mas  apenas simples. No sei se esse  o tal "segredo" que andou circulando pelos cinemas e sendo publicado em livro, mas o fato  que dar um
jeito em si mesmo j  uma boa contribuio para salvar o mundo, essa misso to herica e to utpica.
Claro que no  preciso estar com a vida ganha para ser solidrio. A experincia mostra que as pessoas que mais se sensibilizam com os dilemas alheios so aquelas
que ainda tm muito a resolver na sua vida pessoal. Mas elas no praguejam, no gastam seu latim -toa: agem. A generosidade  seu oxignio.
Tudo o que nos acontece  responsabilidade nossa, tanto a parte boa como a parte ruim da nossa histria, salvo fatalidades do destino e abandonos sociais. E, mesmo
entre os menos afortunados, h os que viram o jogo, ao contrrio daqueles que apenas viram uns chatos. Portanto, fazer nossa parte  o mnimo que se espera.
Antes de falar mal da Caras, pense se voc mesmo no anda fazendo muita fofoca. Coloque sua camiseta pr-ecologia, mas antes lembre-se de no jogar lixo na rua e
de no usar o carro desnecessariamente. Reduza o desperdcio na sua casa. Uma coisa est relacionada com a outra: voc e o universo. Quer mesmo salv-lo? Analise
seu prprio comportamento. No se sinta culpado por pensar em si mesmo. Cuide do seu esprito, do seu humor. Arrume seu cotidiano. Agora, sim, estando quite consigo
mesmo, v em frente e mostre aos outros como se faz.
23 de setembro de 2007
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AMO VOC QUANDO NO  VOC

Parece aquelas notcias de jornal popular, mas merece uma pgina inteira na imprensa nobre. Escute s: um casal em crise estava, cada um, em segredo, trocando e-mails
com um pretendente virtual. Ela querendo ver o marido pelas costas e totalmente envolvida pelo cara com quem teclava todos os dias. E o marido querendo que a bruaca
evaporasse para poder curtir a gata que conheceu num chat. Voc certamente j matou a charada: cada um marcou um encontro s ganhas com seu amor clandestino e shazam:
descobriram que estavam teclando um com o outro sem saber.
Ou seja, marido e mulher no se amavam mais, porm se apaixonaram um pelo outro pela internet, usando pseudnimos. Imagine a cena: voc se arruma para um primeiro
encontro com alta carga ertica e d de cara com seu cnjuge. Eu iria rir da situao e tentaria reinvestir no casamento desgastado, dessa vez estabelecendo novos
cdigos, mas o casal em questo no teve senso de humor e pediu o divrcio, alegando que estavam sendo "trados". Moralismo nessa hora?
No  preciso teses nem seminrios: esse fato, isoladamente, consegue explicar e exemplificar o ponto frgil dos casamentos de longa durao. Todo ser humano  vaidoso
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- uns mais, outros menos -, e essa vaidade se estende ao campo da seduo. Por mais que a gente ame a pessoa com quem casamos, a passagem do tempo reduz o feedback
sexual. As transas podem at continuar prazerosas e relativamente assduas, mas j no temos certeza se seramos capazes de chamar a ateno de algum que nada soubesse
sobre ns, e essa  uma necessidade que no esmorece nunca: seguimos interessantes? Seguimos atraentes? E a pergunta mais sria entre todas: depois de tanto tempo
fundidos com um parceiro, sabemos ainda quem somos ns?
Sendo assim, ficamos suscetveis a uma paquera. Pela internet, parece seguro, sem conseqncias, mas no impede que nos apaixonemos - nem tanto pelo outro, mas principalmente
por ns mesmos. Recuperamos a adolescncia perdida: nos tornamos novamente audazes, sedutores e jovens
- paixo rejuvenesce mais que botox.  a chance para a gente se reinventar e ganhar uma sobrevida neste mausolu de sentimentos chamado "estabilidade afetiva". No,
voc no, que  de outra estirpe. Estou falando de gente comum.
Esse casal pagou um mico, mas fez um alerta  humanidade: somos capazes de nos apaixonar por quem j fomos apaixonados, desde que esta pessoa se apresente a ns
como uma novidade e nos d tambm a chance de sermos quem a gente ainda no foi. Esse marido, que em casa talvez fosse carrancudo e desleixado, revelou-se bem-humorado
e empreendedor para sua nova "namorada". A esposa, que em casa talvez bocejasse pelos cantos, mostrou-se alegre e entusiasmada para o novo "namorado". Estavam o
tempo inteiro conversando com quem conheciam h anos, mas, da forma que se apresentaram, desconheciam-se.
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J escrevi uma vez sobre este tema: a gente se apaixona para corrigir nosso passado. Agora fica claro que podemos corrigir nosso passado com os prprios protagonistas
do nosso passado, desde que eles nos enxerguem com olhos mais curiosos, com um corao mais disposto e que acenem com um novo futuro.
30 de setembro de 2007
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LCIFER E OS LCIDOS

Lcido deve ser parente de Lcifer
a faculdade de ver deve ser coisa do demnio lucidez custa os olhos da cara."
Estou embriagada pelos novos poemas de Viviane Mos. Esta  s uma palhinha de Pensamento cho, um livro essencial nesses tempos em que j sabemos que no convm
circular de Rolex por a, j sabemos que certos polticos nunca ouviram falar em honra, j sabemos que o vero vai ser sufocante e s nos resta olhar um pouco para
dentro de ns, o nico lugar onde ainda encontramos alguma novidade.
Essa viso inusitada que Viviane nos oferece sobre lucidez, por exemplo,  um convite para a reflexo. Em tempos insanos, de tanta gente maluca por vaidade, maluca
por juventude, maluca por dinheiro, maluca por poder, os lcidos destacam-se pela raridade. So aqueles que no inventam personagens de si mesmos, no se trapaceiam,
no criam fantasias, ao contrrio: se comprometem com a verdade. E se envolver assim com a transparncia dos fatos requer uma integridade diablica. Para olhar
o bicho nos olhos  preciso ser bicho tambm. Enfrentar a verdade  quase um ato de selvageria.
Mas que verdade  essa, afinal?  a que o demnio apresenta sua conta, pois o lcido tem que se confrontar
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com uma verdade desestabilizadora: a de que no existe verdade absoluta. Nossos pensamentos no estacionam, nossos desejos variam, o certo e o errado flertam um
com o outro, no h permanncia, tudo  provisrio, e buscar um porto seguro  antecipar o fim: a nica segurana est na morte, ser ela nosso nico endereo definitivo.
Durante o percurso da vida, tudo  movimento, surpresa e sorte.
O lcido faz parte do time - cada vez mais desfalcado
- dos que se desesperam como todo mundo, porm de um modo mais ntimo e refinado. O lcido organiza sua loucura, acondiciona o que est solto no ar, interliga vrias
idias independentes para que, agarradas umas nas outras, no se dispersem, estejam ao alcance da mente. Quanto mais o lcido pensa, mais percebe que lucidez plena
no existe, o que existe so suposies, algumas at coerentes, e que nos mantm no eixo. Lcido  aquele que sabe que lucidez  uma falcia, e no pira com isso.
Recebe a conta das mos do demnio, calcula os ganhos e os prejuzos, e paga. Custa sim, Viviane, os olhos da cara, esse vcio de pensar e repensar, pensar e compensar,
pensar, pensar, pensar e morrer do mesmo jeito. Por isso achei to interessante seu poema. Voc matou a charada: Lcifer  uma espcie de padroeiro dos lcidos -
e lcido  s um outro nome para louco. O louco que tem a cabea no lugar demais.
14 de outubro de 2007
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MATANDO A SAUDADE EM SONHO

A. saudade no tem nada de trivial. Interfere em nossa vida de um modo s vezes sereno, s vezes no.  um sentimento bem-vindo, pois confirma o valor de quem 
ou foi importante para ns, e  ao mesmo tempo um sentimento incmodo, porque acusa a ausncia, e os ausentes sempre nos doem.
Por sorte,  relativamente fcil exterminar a saudade de quase tudo e de quase todos, simplesmente pegando o telefone e ouvindo a voz de quem nos faz falta, ou indo
ao encontro dessa pessoa. Ou daquele lugar que ficou na memria: uma cidade, uma antiga casa. Podemos eliminar muitas saudades, enquanto outras vo surgindo. A saudade
do sabor de uma comida, de um cheiro do passado, de um abrao. H muitas saudades possveis de se conviver e possveis de matar. A nica saudade que no se mata
 a de quem morreu. Matar, morrer. Que verbos macabros para se falar de nostalgia.
J ouvi vrios relatos sobre a saudade que se sente de um pai, de um av, de um filho, de uma amiga, dos afetos que nos deixaram cedo demais - sempre  cedo para
partir, no importa a idade de quem se foi. Ficam as cenas guardadas na lembrana, mas elas se esvanecem, recordaes so sempre abstratas. De concreto, palpvel,
tem-se as fotos e as imagens de gravaes caseiras, mas de tanto v-las, j no vemos. J a sabemos de cor. No h o rosto com uma expresso nova, a surpresa de
um gesto inusitado.
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Como, ento, vencer a saudade com algo que seja mais parecido com presena?
Atravs do sonho.
Uma me que perdeu seu filho quatro anos atrs me conta que todos em casa sonham com ele, menos ela. Para sua infelicidade, ela no tem controle sobre isso, simplesmente
no recebe essa beno, e queria tanto. E eu a entendo, porque atravs do sonho a p"essoa que se foi nos faz uma visita. Pode at ser uma visita aflitiva, mas a
pessoa est de novo ali, ela est interagindo, ela est sorrindo, ou est calada, ou est danando, ou escapando de nossas mos, mas ela est acontecendo em tempo
real, que  o perodo em que estamos dormindo, e que faz parte da vida, e no da morte.
De vez em quando sonho com minha av e sempre acordo animada por ela ter encontrado esse meio de me dar um al, de me fazer record-la. Observo seu jeito, ouo
sua voz e penso: quem roteirizou esse sonho? De onde vieram suas palavras para mim? A resposta lgica: meu inconsciente falou atravs dela, s que isso tira todo
o encanto da cena. Prefiro acreditar que ela  que esteve no comando da sua apario, me dizendo o que tinha para dizer, nem que fosse uma frasezinha -toa.
Um colega de trabalho falecido h vinte anos num acidente de carro tambm j me apareceu em sonhos algumas vezes, e quando isso acontece acordo com a sensao de
que morte, mesmo,  esquecimento: enquanto eu abrir as portas do sonho para ele entrar, meu amigo seguir existindo.
Neste feriado de Finados, o que se pode desejar para os inmeros saudosos de mes, de maridos, de netos? Que os sonhos abracem a todos.
 2 de novembro de 2007
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BALANANDO ESTRUTURAS

Uma amiga minha vive dizendo que odeia amarelo, que prefere tomar cianureto a usar uma roupa amarela. Quem a conhece j a ouviu dizer isso mil vezes, inclusive seu
namorado. Pois uns dias atrs ela me contou que esse seu namorado chegou em sua casa e, mesmo os dois estando a uma semana sem se ver, brigaram nos primeiros cinco
minutos de conversa e ele foi embora. "Mas o que aconteceu?", perguntei. "Eu sei l", me respondeu ela. "Estvamos morrendo de saudades um do outro, mas comeamos
a discutir por causa de uma bobagem". Eu: "Que bobagem?". Ento ela me disse: "Voc no vai acreditar, mas ele ficou desconcertado por eu estar usando uma camiseta
amarela".
Ora, ora. Era a oportunidade para eu utilizar meus dons de psicloga de fundo de quintal. Perguntei para minha amiga: "Quer saber o que eu acho?". A irresponsvel
respondeu: "Quero". Mal sabia ela que eu recm havia assistido a uma palestra sobre as armadilhas da to prestigiada estabilidade. Arregacei as mangas e mandei ver.
Voc est namorando o cara h pouco tempo. Sabemos como funcionam esses primeiros encontros. Cada um vai fornecendo informaes para o outro: eu adoro rock, eu tenho
alergia a frutos do mar, tenho um irmo com quem no me dou bem, prefiro campo em vez de praia, no gosto de teatro, jamais you ter uma moto, no uso roupa amarela.
A gente ento vai guardando cada uma dessas frases num
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ba imaginrio, como se fosse um pequeno tesouro. So os dados secretos de um novo algum que acaba de entrar em nossa vida. Assim vamos construindo a relao com
certa intimidade e segurana, at que um belo dia nosso amor propaga as maravilhas de uma pea de teatro que acabou de assistir, ou sugere vinte dias de frias numa
praia deserta, ou usa uma roupa amarela. P, como  que d pra confiar numa criatura dessas?
Pois d. Alis,  mais confivel uma criatura dessas do que aquela que se algemou em meia dzia de "verdades" inabalveis, que no muda jamais de opinio, que registrou
em cartrio sua lista de averses. Vale para essas bobagens de roupa amarela e praia deserta, e vale tambm para coisas mais srias, como posicionamentos sobre o
amor e o trabalho. Mudanas no significam fragilidade de carter.  preciso ter uma certa flexibilidade para evoluir e se divertir com a vida. Mas ainda: essa
flexibilidade  fundamental para manter nossa integridade, por mais contraditrio que parea. Me vieram agora  mente os altos edifcios que so construdos em cidades
propensas a terremotos, que mantm em sua estrutura um componente que permite que se movam durante o abalo. Um edifcio que balana! com que propsito? Justamente
para no vir abaixo. Se ele no se flexibilizar, a estrutura pode ruir.
O fato de transgredirmos nossas prprias regras s demonstra que estamos conscientes de que a cada dia aprendemos um pouco mais, ou desaprendemos um pouco mais,
o que tambm  amadurecer. No estamos congelados em vida. Podemos mudar de idia, podemos nos reapresentar ao mundo, podemos nos olhar no espelho de manh e dizer:
bom dia, muito prazer. Ningum precisa ficar desconcertado diante de algum que se desconstri s vezes.
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Eu tambm no gosto de roupa amarela. Quem abrir meu armrio vai encontrar basicamente peas brancas, pretas, cinzas e em algumas tonalidades de verde. No entanto,
hoje de manh sa com um casaco amarelo canrio! Tenho h mais de dez anos e quase nunca usei. Pois hoje sa com ele para dar uma volta e retornei para casa sendo
a mesmssima pessoa, apenas um pouco mais alegre por ter me sentido diferente de mim mesma, o que  vital uma vez ao dia.
11 de novembro de 2007
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POVOAR A SOLIDO

A. sua  de que tamanho? Difcil encontrar algum que tenha uma solido pequena, ajustada, do tipo baby look. Geralmente a solido  larga, esgarada, como uma camiseta
que poderia vestir outros corpos alm do nosso. E costuma ser com outros corpos que se tenta combat-la, mas combat-la por qu?
Se nossa solido pudesse ser visualizada, ela seria um vasto campo abandonado, um estdio de futebol numa segunda-feira de manh. Di, mas tem poesia. Talvez seja
por a que devamos reavali-la: no reconhecimento do que h de belo na sua amplitude.
A solido no precisa ser aniquilada, ela s precisa de um sentido. Eu no saberia dizer que outra coisa mais benfica para isso do que livros. Uma biblioteca com
mil volumes  um exrcito que no combate a solido, mas a ela se alia.
A solido costuma ser tratada como algo deslocado da realidade, como um tumor que invade um rgo vital. Ah, se todos os tumores pudessem ser curados com amigos.
Uma pessoa que no fez amigos no teve pela sua vida nenhum respeito. Nossa solido  nossa casa e necessita abrir horrios de visita, hospedar, convidar para o
almoo, cozinhar com afeto, revelar-se uma solido anfitri, que gosta de ouvir as histrias das solides dos outros, j que todos possuem seus descampados.
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A solido no precisa se valer apenas do monlogo. Pode aprender a dialogar, e deve exercitar isso tambm atravs da arte. H sempre uma conversa silenciosa entre
o ator no palco e o sujeito no escuro da platia, entre o pintor em seu ateli e o visitante do museu, entre o escritor e o seu leitor desconhecido. Ah, os livros,
de novo. De todos os que preenchem nossa solido, so os livros os mais anrquicos, os mais instigantes. Leia, e seu silncio ganhar voz.
s vezes tratamos nosso isolamento com certa afetao. Acendemos um cigarro na penumbra da sala, botamos um disco dilacerante e aguardamos pelas lgrimas. J fizemos
essa cena num final de domingo - tem dia mais solitrio?  comum que a gente entre na fantasia de que nossa solido daria um filme noir, mas sem esquecer que ela
continuar conosco amanh e depois de amanh, deixando de ser charmosa e nos acompanhando at o supermercado. Suporte-a com bom humor ou com mau humor, mas no
a despreze.
Permita que sua solido seja bem aproveitada, que ela no seja intil. No a cultive como uma doena, e sim como uma circunstncia. Em vez de tentar expuls-la,
habite-a com espiritualidade, esttica, memria, inspirao, percepes. No ser menos solido, apenas uma solido mais povoada. Quem no sabe povoar sua solido,
tambm no saber ficar sozinho em meio a uma multido, escreveu Baudelaire.
Ah, os livros, outra vez.
11 de novembro de 2007
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O CAPRICHO DA SIMPLICIDADE

Eu estava numa grande loja, naquele esquema "s estou dando uma olhada", quando vi uma senhora se apossar de uma bolsa como se tivesse encontrado o Santo Graal.
Chamou a filha e mostrou: no  linda?? Agarrada  bolsa em frente ao espelho, ela virava de um lado, de outro, extasiada com a prpria imagem carregando aquela
bolsa de couro azul-turquesa com umas 357 tachas pretas. Eu j vi bolsa feia nesta vida, mas como aquela, nem nos meus pesadelos mais tiranos.
Mas a tal senhora estava apaixonada pela bolsa. Mostrava a etiqueta com o preo para a filha e dizia: "E nem  to cara!".
Nem  to cara??? A loja deveria estender um tapete vermelho e chamar banda de msica para quem levasse aquele troo por cinco reais.
E a senhora voltava ao espelho, experimentava a bolsa, levo ou no levo? Eu tive vontade de cutucar o ombro dela e dizer pelamordedeus no faa essa loucura, olhe
em volta, tem bolsa muito mais bonita, com mais classe, mais usvel, deixe essa coisa medonha pra l.
Claro que no me meti e sa da loja antes de ver a tragdia consumada.
E ento fiquei pensando nessa histria de bom gosto e mau gosto, classificao que os politicamente corretos rejeitam,
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dizendo que gosto cada um tem o seu e fim de papo. No  bem assim: a diferenciao existe. O que no impede que pessoas de bom gosto errem e pessoas de mau gosto
acertem - de vez em quando.
Cheguei em casa e fui reler um texto escrito por Celso Sagastume, em que ele defende que bom gosto se aprende. Que uma pessoa comea a gostar do que  bom quando
adquire bagagem cultural (atravs de viagens e do acesso  arte) e quando tem humildade para observar pessoas e lugares reconhecidamente sofisticados e extrair deles
a informao necessria para compor o seu prprio bom gosto.
Sofisticao, no entanto, tem variadas interpretaes. Eu no troco uma charmosa bolsa de palha por uma Louis Vuitton, e pode me chamar de maluca. Nunca duvidei
de que menos  mais, e acho que estou me saindo razoavelmente bem, com uma porcentagem aceitvel de deslizes.
bom gosto e mau gosto custam a mesma coisa, me disseram certa vez. Adotei a frase como minha, tanto concordo com ela. Alis, o mau gosto s vezes custa at mais
caro. Ningum precisa de muito dinheiro quando tem capricho e noo.
Capricho para tornar sua casa confortvel, alegre e preparada no para uma foto, mas para ter histria. Capricho para escrever um e-mail mantendo certa diagramao
e um portugus correto. Capricho ao se vestir, deixando de se monitorar por grifes e valorizando mais o estilo.
Capricho  cuidado e antenao. Flores frescas nos vasos, unhas limpas, msica em volume adequado, educao ao falar, abajures em vez de luz direta, um toque personalizado
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e uma pitada de bom humor em tudo: nas atitudes, no visual, at na baguna do escritrio, que uma baguncinha tambm tem seu charme.
Onde eu quero chegar com isso? Na bolsa azul-turquesa com 357 tachas pretas que a gente carrega desnecessariamente por falta de treinar o olho para as coisas mais
simples.
18 de novembro de 2007
PRECISAMOS FALAR SOBRE TUDO

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Li alguns livros muito bons este ano (desde os brilhantes Homem comum, de Philip Roth, e Na praia, de lan McEwan, at a estria promissora da carioca Maria Helena
Nascimento em Olhos baixos), mas o que me deixou com os quatro pneus arriados foi Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver. Um livro obrigatrio por inmeras
razes, mas you tentar salientar duas ou trs.
Pra comear, o tema  macabramente atual: a rotina de massacres em escolas (principalmente nos Estados Unidos) em que adolescentes matam colegas e professores sem
motivo aparente. Alis, nada  mais preguioso do que procurar um
motivo aparente.
Talvez a resida o melhor do livro: ele rejeita as verses oficiais, aquelas que engolimos fcil, que nos descem sem esforo. Quem narra a histria  a me do assassino,
um garoto de dezesseis anos que nasceu perverso por natureza, mas que chegou s raias da insanidade ao atirar premeditadamente em onze colegas escolhidos a dedo
para morrer. Se fosse um livro como os outros, a me faria um mea-culpa choroso, dizendo que precisou trabalhar fora e com isso a educao do filho ficou descuidada.
Ou iria falar sobre ms influncias. Ou ento defender que ele foi excludo pela sociedade por ser asitico, ou negro, ou gay ou simplesmente por ser mais um deprimido,
mas isso seria to rasteiro quanto
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sonolento. E o livro  o oposto:  uma bofetada a cada pgina. Nunca gostei de apanhar, mas esse livro me nocauteou e ainda terminei dizendo "quero mais".
O relato no  condescendente com nada nem com ningum. A me do garoto relembra passagens da sua alegre vida de recm-casada, da sua relutncia em engravidar,
do susto com o nascimento daquela criana que ela no identificava como um presente dos cus, da enorme dificuldade em contornar conflitos, da distncia que surgiu
entre ela e o pai do beb e do incmodo reconhecimento de que formar uma famlia feliz no  to simples como anunciam por a. S que a autora vai alm da desconstruo
do sublime. Ela desconstri a todos ns, fazendo vir  tona nossa incompetncia como controladores de vo de nossos filhos. Nossas orientaes so bem-intencionadas,
mas no onipotentes. Nosso amor  necessrio, mas nem sempre  bem compreendido ou bem transmitido. Nossos cuidados podem vir a ser infrutferos, nossas palavras
podem no adiantar, nossas atitudes talvez no sirvam como exemplo. Existe algo to influente quanto tudo isso: a nossa dor interna. Ela contamina, ela comunica,
ela desgraadamente tambm educa - ou deseduca.
E tem ainda esta nossa sociedade doentia, que transforma qualquer ato estapafrdio em espetculo, que no d chance aos invisveis, que derruba antigos valores ticos
e morais sem substitu-los por algo que valha a pena. Hoje a inverso  total: um pequeno gesto de bondade passa a ser assombroso, enquanto que a violncia  de
casa, cotidiana.
O livro  violento no pela transcrio de cenas sanguinrias - quase no h -, mas pela brutalidade dos pensamentos e dilogos. Bruto no sentido de honesto, de
trazer  tona uma verdade nua, selvagem, sem retoques. O livro  brutal porque implode as fachadas. Nada fica de p.
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O leitor que for igualmente honesto consigo mesmo, que tiver o mnimo de conhecimento psicolgico, que estiver disposto a enfrentar sua fragilidade da mesma maneira
que se vangloria de suas virtudes, vai acusar o golpe. bvio que no estamos criando assassinos em srie, eles ainda so casos isolados, mas fazemos parte de uma
nica sociedade que precisa, sim, falar sobre o Kevin, falar sobre o Joo, falar sobre nossos filhos e sobre ns mesmos, entendendo por "ns" aquela parte da gente
que fica entrincheirada, se recusando a fazer parte do todo. Mas que, querendo ou no, faz.
9 de dezembro de 2007
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ONDE  QUE EU IA MESMO?

Uma vez escrevi uma crnica que se chamava "Coisa com coisa". Era sobre a minha vexamosa tendncia de trocar o nome das pessoas. No apenas nomes de pessoas que
mal conheo, mas tambm nomes de parentes. Parentes prximos, como filhos. com o tempo, comecei a trocar tambm nomes de objetos, a me embaralhar com os verbos
e a perder palavras que estavam na boca da lngua. Desculpe, quis dizer na ponta da lngua. Ou seja, passei a no dizer mais coisa com coisa.
Pois tenho novidades: piorei muito.
s vezes estou no meu quarto e penso: vou na sala buscar meus culos. Quando estou no corredor, j esqueci o que ia fazer na sala. Quando chego na sala, olho em
volta e tento descobrir o que fui fazer ali. No recordo. Fico feito uma barata tonta: "O que era mesmo?" Volto pr quarto de r, pra ver se a memria  resgatada
no rewind, feito fita rebobinada, mas no adianta. Dali a dois minutos, lembro: "Ah, eu ia pegar os culos! Onde mesmo?"
Tenho comentado isto com alguns amigos, na esperana de que me olhem com piedade e me recomendem um bom mdico, mas o que mais escuto : "Comigo tem sido a mesma
coisa". Pesquisei com conhecidos dos dezenove aos noventa anos. com todos tem sido assim. Alzheimer geral. Tem alguma coisa errada, e no  s comigo.
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Li recentemente uma matria que associa a falta de memria com a falta de sono.  uma teoria. Os especialistas entrevistados para a matria recomendam que a gente
no abra mo de dormir oito horas seguidas. Dizem que isso no  balela, que ajuda mesmo o crebro a descansar e a retomar as tarefas do dia seguinte com funcionamento
pleno. Maravilha. Oito horas de sono. Me explique como.
Eu apago a luz cedo. Antes da meia-noite. s vezes s dez e meia. Tenho perdido o Saia Justa por causa disso. O Manhattan Connection. A minissrie Queridos Amigos.
Meu sono est me emburrecendo, mas, quando os olhos pesam, no h outra sada a no ser capitular. Desligo o abajur e apago junto. S que s quatro da matina minha
cabea acorda sozinha! A cabea, essa maldita. Ela ento faz um apanhado geral dos problemas a serem resolvidos no dia seguinte. Na verdade, nem problemas so, mas
durante a madrugada qualquer unha encravada vira um cncer terminal. Sabe como , a noite potencializa o drama. Ento fico eu ali fritando nos lenis, pensando,
pensando. Verbo desgraado: pensar.
Quando consigo pegar no sono de novo, o despertador faz o seu servio: me desperta. Cedssimo: hora de levar os filhos (o nome deles, mesmo?) ao colgio. H quem
tenha reunio no escritrio. Outros, massagem. Outros precisam ir para a parada de nibus. Quem consegue hoje em dia dormir oito horas de sono cravado? Os milionrios,
e nem
eles, eu acho.
Tampouco tenho sonhado. No h sono suficiente para criar uma historinha com comeo, meio e fim. Freud teria dificuldade em trabalhar hoje em dia: dorme-se pouco.
E lembra-se menos ainda. Fim de era para o descanso e a memria. Do que eu estava falando mesmo?
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A soluo  mudar a rotina. Ver menos televiso. Ter menos obrigaes. Morar em lugares mais silenciosos. Ter menos vida noturna. Menos compromissos. Menos agenda.
Menos e-mails. Menos contatos profissionais, mais amigos. Menos trabalho, mais frias. Menos filhos:  difcil decorar dois nomes. Filho nico  mais fcil. E deixar
de frescura e pendurar logo aquele troo medonho que prende as hastes dos culos ao nosso pesoo.
9 de dezembro de 2007
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GRISALHA? NO, OBRIGADA

Certa vez, por ocasio do Dia dos Pais, escrevi uma crnica chamada "A dignidade do grisalho", defendendo que os homens deveriam pensar muito antes de pintar o
cabelo, j que o grisalho lhes dava muito mais credibilidade, charme e juventude - isso mesmo, juventude. Citei Giorgio Armani como um desses garotos.
Em contraponto, disse que entendia perfeitamente que mulheres pintassem o cabelo, j que em ns o grisalho passa uma idia de relaxamento e raramente nos cai bem.
Pois descubro que um dos livros mais comentados por a tem sido Meus cabelos esto ficando brancos, mas eu me sinto cada vez mais poderosa, da americana Anne Kreamer,
que, depois de extensa pesquisa de campo, defende que as mulheres no perdem nada em manterem suas melenas ao natural.
Anne defende que ficar grisalha  um ato poltico, de afirmao. Uma outra espcie de vaidade, muito mais honesta. com suas mechas acinzentadas, as mulheres, como
os homens, tambm ganham mais credibilidade, charme e, por que no, at juventude. Todos sabem: cabelos escuros, depois de uma certa idade, endurecem o semblante
- e eu, que sou praticamente uma ndia, no quero escutar mais nada: Vou terminar de escrever esta crnica e ir pra cama chorar.
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Ou seja, aquele truque de ficar loira pra no ficar velha estaria com os dias contados. Nem loira, nem ruiva, nem castanha, nem ndia Sioux. Grisalha.  essa a
verdadeira mulher moderna, de atitude.
Conceitualmente, concordo com tudo. Menos com a generalizao. Que mulher  essa que s tem a ganhar? Qualquer uma de ns? T bom.
Recentemente estive no teatro e vi uma mulher com os cabelos curtos e grisalhos. O rosto dela era igual ao da Jacqueline Bisset nos ureos tempos. Tinha quase dois
metros de altura, era magrrima e superestilosa. Ela no precisava de cabelo nenhum, podia ter um balde em cima da cabea e continuaria um deslumbre. Mas para a
mulher comum, que no chega a medir 1 metro e 65, que no tem corpo de modelo nem um guarda-roupa estiloso e ainda por cima quer manter os cabelos compridinhos,
assumir a grisalhice  um homicdio qualificado contra si mesma.
A autora do livro condena a busca por uma aparncia mais jovem. Concordo que no devemos entrar nessa neura: cada uma de ns pode ser atraente na idade que tiver.
Mas o livro trata todas as pr-tinturas como mulheres patticas que querem ter dezoito anos para sempre. Nunca  levantada a hiptese de desejarmos apenas ter uma
relao cordial com nosso espelho, nos mirar sem ter vontade de gritar.
O assunto no  srio, mas totalmente trivial tambm no. Que mulher, em pleno gozo das suas faculdades mentais, diria que no d a mnima pr cabelo? Eu, por enquanto,
nem penso em cirurgias, botox ou preenchimentos, tenho pnico s de pensar em escarafunchar meu rosto - no que eu no precisasse -, mas me acusar de no ter atitude
porque passo um tonalizantezinho de nada j  querer humilhar. Tenho
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atitude, sim, principalmente a atitude de pegar o telefone e marcar hora no cabeleireiro. Quem fala que isso  perder tempo no sabe que bela companhia  um livro
enquanto a tintura age. Leve um bom livro pr salo e ganhe cultura enquanto "perde tempo".
Um cabelo branco, todinho branco, e bem curtinho, acho um charme total. Funciona porque branco  cor. Grisalho  o qu? Cansao.
6 de janeiro de 2008
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O DIREITO AO SUMIO

So poucos os adolescentes que no sonham, um dia, em passar uma temporada fora do pas. Nem todos realizam, obviamente - no  um sonho barato. Mas juntando umas
economias aqui, um fundo de garantia ali, se inscrevendo num programa de intercmbio ou simplesmente munindo-se de coragem e uma mochila, muitos conseguem embarcar
num avio: hora de dar um tempo, aprender outro idioma, meter a cara l fora.
Eu tive essa oportunidade aos vinte e poucos anos. Poupei dinheiro, acumulei frias no-vencidas na empresa onde trabalhava e sa para o mundo sozinha, interessada
em conhecer vrios lugares mas, principalmente, interessada em entender o que significava, afinal, esse "sozinha". Que delcia. Ningum saber onde estou, o que comi
no almoo, quais os meus medos, quem eram as pessoas com quem eu cruzava. Olhar para os lados e no reconhecer nenhum rosto, direcionar meus passos para onde eu
quisesse, sem um guia, sem um acordo prvio, liberdade total. Desaparecida no mundo. Isso me conferia uma certa bravura, fortalecia minha auto-estima. Claro que
eu telefonava para casa de vez em quando e escrevia cartas, fazendo os relatos necessrios e tranqilizando o pessoal, mas eu estava sozinha da silva com meus pensamentos
e emoes novas.
A veio a tecnologia, com seus mil olhos, e acabou com essa histria de sozinha da silva. Hoje ningum mais consegue
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tirar frias da famlia, dos amigos e da vida que conhece to bem. Antigamente era uma aventura fazer um auto-exlio, sumir por uns tempos. Mas isso foi antes do
Skype. Do MSN. Do e-mail. Hoje, nem que voc v para outro planeta consegue desaparecer.
Claro que s usa essa parafernlia tecnolgica quem quer. Voc pode encontrar uma dzia de cibercafs em cada quarteiro da cidade onde est e passar reto por cada
um deles, fazer que no viu. Mas sua me, seu pai, sua namorada, sua irm, seu melhor amigo, todos eles sabem que voc est vivendo coisas incrveis e querem que
voc conte tudinho, em detalhes. No custa nada mandar um sinal de vida, p. Todos os dias, claro! Dois boletins dirios: s onze da manh e no fim da noite, combinado.
Sei que quando chegar a hora de minhas filhas sumirem no mundo you rezar uma novena pela sagrada internet, mas no quero esquecer jamais da importncia de se respeitar
o distanciamento e o prazer que o viajante sente ao estar momentaneamente fora de alcance, sem rastreamento, sem monitorao. Para os que ficam,  um alvio poder
ter notcias daquele que est longe, mas aquele que est longe tem o direito ao sumio - e o dever at. Quem no desfruta do privilgio de deixar uma saudade atrs
de si e curtir o "no ser", "no estar" e "no ser visto" perde uma das sensaes mais excitantes da vida, que  se sentir um estrangeiro universal.
20 de janeiro de 2008
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GUERREIRAS E HERIS

No estou assistindo ao BigBrother, mas vi a chamada para o programa dia desses. Mostrava uma moa, uma das participantes, olhando pra cmera e dizendo com ar
dramtico: "Eu sou uma guerreira!!".  de dar nos nervos. Guerreira por qu? Porque est participando de um programa de televiso que vai lev-la, no mnimo,  capa
da Playboy. Guerreira porque foi escolhida entre milhes de candidatos para ficar comendo do bom e do melhor e jogando conversa fora com um monte de desocupados?
As pessoas no tm culpa de serem burras, mas mereciam uma surra por se levarem to a srio.
O BigBrother  um programa de tev como outro qualquer e no defendo sua extino, mas  preciso ficar atento a certos exageros. Por exemplo,  um exagero condenar
o jornalista Pedro Bial por apresent-lo, o cara est trabalhando, s isso. Por outro lado, ele perde a noo quando chama aquele pessoal de "nossos heris".  o
mesmo caso do "guerreira": a troco de que usar essas expresses graves e superlativas para falar de uma brincadeira televisiva em que todos sairo ganhando?
O que irrita no BigBrother, mais do que sua inutilidade,  o fato de os participantes serem tratados como vtimas. Qual ? Circula pela internet um PPS que, pela
primeira vez na histria dos PPS, me tocou. Ele mostra heris de verdade: homens e mulheres que abrem mo do conforto de suas casas para fazerem trabalho voluntrio
em aldeias na frica e em
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clnicas mveis no Lbano. So pessoas que oferecem ajuda humanitria internacional atravs do programa Mdicos sem Fronteiras e que no medem esforos para dar
amparo e assistncia a moradores de rua e demais necessitados, seja no fim do mundo ou aqui mesmo nas ruas do Brasil. Isso  herico, isso  ser guerreiro. Quantos
de ns, bem nascidos e bem criados, abrem mo de seus pequenos luxos para ajudar quem precisa?
Por isso, se voc  da turma que liga pr BigBrother pra. votar em paredes, pense melhor antes de erguer o telefone. Direcione sua ligao para um programa assistencial,
gaste seu dinheiro com algo que realmente seja til. Assista ao BBB, divirta-se e d audincia, no h nada de errado com isso, mas, cada vez que tiver o impulso
de ligar pra tirar fulano ou sicrana do programa, se toque: tem gente mais necessitada precisando da sua ligao. O site da Unicef traz uma lista de entidades que
voc pode colaborar dando apenas um telefonema. Quer dar uma espiadinha? Ento espie o que est acontecendo  nossa volta.
5 de fevereiro de 2008
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ANTES DE PARTIR

Um filme cujos protagonistas so Jack Nicholson e Morgan Freeman, com dilogos bem construdos e um humor inteligente (mesmo tratando de um assunto difcil como
a finitude da vida) j entra em cartaz com vantagem, mesmo que o roteiro no seja l muito surpreendente.
Antes de partir no  mesmo surpreendente, mas isso tambm pode ser uma coisa boa. Ficamos sempre correndo atrs de frmulas novas quando deveramos nos dedicar
mais a reforar certas verdades. E a verdade do filme, se pudesse ser resumida numa frase, seria: aproveite o tempo que lhe resta. Nada que voc j no tenha escutado
mil vezes.
Nicholson e Freeman interpretam dois sessentes que descobrem estar com uma doena terminal. Os prognsticos apontam seis meses de vida para cada um, no mximo
um ano. E agora? Esperar a extrema-uno numa cama de hospital ou buscar a extrema excitao?
Sem piscar, eles aventuram-se pelo mundo praticando esportes radicais, conhecendo lugares exticos, desfrutando todos os prazeres de uma vida bem vivida - claro
que um deles  milionrio e banca tudo, detalhe que nos falta na hora de pensar em fazer o mesmo. Voc no pensa em fazer o mesmo?
Voc, eu e mais seis bilhes de homens e mulheres tambm estamos com a sentena decretada, s no sabemos o dia e a hora. Est certo que  morbidez pensar sobre
isso quando
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se  muito moo, mas alcanando uma certa maturidade, j d pra parar de se iludir com a vida eterna, amm. com dinheiro ou sem dinheiro, faa valer a sua passagem
por aqui. No sei se voc percebeu, mas viver  nossa nica opo real. Antes de nascermos, era o nada. Depois, vir mais uma infinidade de nada. Essa merrequinha
de tempo entre dois nadas  um presentao. No seja maluco de desperdiar.
Ok, quantos de ns podem sair amanh para um safri na frica, para um tour pelas pirmides do Egito, para um jantar num restaurante cinco estrelas na Frana? Ou
teriam coragem de saltar de pra-quedas e pisar fundo num carro de corrida numa pista em Indianpolis? Se no temos grana nem dubles, ento que a gente se divirta
com outro tipo de emoo, que o filme, alis, tambm recomenda.
Reconheamos o bsico: uma vida sem amigos  uma vida vazia. O mundo  muito maior que a sala e a cozinha do nosso apartamento. A arte proporciona um sem-nmero
de viagens essenciais para o esprito. Amar  disparado a coisa mais importante que existe.
Que mais? Desmediocrize sua vida. Procure seus "desaparecidos", resgate seus afetos. Aprenda com quem tiver algo a ensinar, e ensine algo queles que esto engessados
em suas teses de certo e errado. Troque experincias, troque risadas, troque carcias. No  preciso chegar num momento-limite para se dar conta disso. O enfrentamento
das pequenas mortes que nos acontecem em vida j  o empurro necessrio. Morremos um pouco todos os dias, e todos os dias devemos procurar um final bonito antes
de partir.
5 de maro de 2008
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OS QUATRO FANTASMAS

Leiga, totalmente leiga em psicanlise,  o que sou. Mas interessada como se dela dependesse minha sobrevivncia. Para saciar essa minha curiosidade, costumo ler
alguns livros sobre o assunto, e acabei descobrindo, atravs do escritor Irvin Yalom, as quatro principais questes que assombram nossas vidas e que determinam nossa
sanidade mental. So elas:
1) sabemos que vamos morrer;
2) somos livres para viver como desejamos;
3) nossa solido  intrnseca;
4) a vida no tem sentido.
Basicamente, isso. Nossas maiores angstias e dificuldades advm da maneira como lidamos com nossa finitude, com nossa liberdade, com nossa solido e com a gratuidade
da vida. Sbio  aquele que, diante dessas quatro verdades, no se desespera.
Realmente, no so questes fceis. A conscincia de que vamos morrer talvez seja a mais desestabilizadora, mas costumamos pensar nisso apenas quando h uma ameaa
concreta: o diagnstico de uma doena ou o avano da idade. As outras perturbaes so mais corriqueiras. Somos livres para escolher o que fazer de nossas vidas,
e isso  amedrontador, pois coloca a responsabilidade em nossas mos. A solido assusta tambm, mas sabemos que h como conviver com ela: basta que a gente d contedo
 nossa existncia, que tenhamos uma
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vontade incessante de aprender, de saber, de se autoconhecer. Quanto  gratuidade da vida, alguns resolvem com religio, outros com bom humor e humildade. O que
estamos fazendo aqui? Estamos todos de passagem. Portanto, no aborrea os outros nem a si prprio, trate de fazer o bem e de se divertir, que j  um grande projeto
pessoal.
Volto a destacar: bom humor e humildade so essenciais para ficarmos em paz. Os arrogantes so os que menos conseguem conviver com a finitude, com a liberdade,
com a solido e com a falta de sentido da vida. Eles se julgam imortais, eles querem ditar as regras para os outros, eles recusam o silncio e no vivem sem aplausos
e holofotes, dos quais so patticos dependentes. A arrogncia e a falta de humor conduzem muita gente a um sofrimento que poderia ser bastante minimizado: bastaria
que eles tivessem mais tolerncia diante das incertezas.
Tudo  incerto, a comear pela data da nossa morte. Incerto  nosso destino, pois, por mais que faamos escolhas, elas s se mostraro acertadas ou desastrosas l
adiante, na hora do balano final. Incertos so nossos amores, e por isso  to importante sentir-se bem mesmo estando s. Enfim, incerta  a vida e tudo o que ela
comporta. Somos aprendizes, somos novatos, mas beneficirios de uma ddiva: nascemos. Tivemos a chance de existir. De nos relacionar. De fazer tentativas. O sentido
disso tudo? Fazer parte. Simplesmente fazer parte.
Muitos tm uma dificuldade tremenda em aceitar essa transitoriedade. Por isso a psicoterapia  to benfica. Ela estende a mo e ajuda a domar nosso medo. S convivendo
amigavelmente com estes quatro fantasmas - finitude, liberdade, solido e falta de sentido da vida -  que conseguiremos atravessar os dias de forma mais alegre
e desassombrada.
16 de maro de 2008
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UM CARA DIFCIL

 rezada, leitora: se um dia voc sair com um cara pela primeira vez, motivada a iniciar um relacionamento amoroso, e ele adverti-la dizendo "sou um cara difcil",
acione a luz amarela. Ok, pode ser que seja apenas charminho dele, uma maneira de se valorizar aos seus olhos - usou o adjetivo "difcil" como oposto de "tedioso".
Sim, talvez ele s queira deix-la ainda mais a fim, dizendo uma frase desafiadora que pode ser traduzida como: ser que voc consegue dar conta do meu temperamento
explosivo, ter atributos suficientes para me amansar e me fazer virar um cordeiro na sua mo? Mulheres adoram esse joguinho perigoso.
S que pode no ser jogo algum, e ele estar sendo absolutamente modesto na sua prpria descrio: talvez ele no seja difcil, e sim impossvel.
Nenhum de ns  muito fcil, nem homens, nem mulheres. S o fato de termos sido criados em cativeiro numa famlia com suas prprias regras, valores e manias j
faz de cada um de ns uma aposta arriscada na hora de ter que negociar com uma espcie nascida em um cativeiro diferente. Mas, como relaes entre irmos so veementemente
desaconselhadas, o jeito  procurar uma alma gmea na praia, no bar, na rave, e torcer para que ele no d o fatdico aviso "sou um cara difcil", porque se ele
for mais difcil do que todos naturalmente so, a danou-se.
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O cara difcil vai estar superentusiasmado quando falar com voc ao telefone pela manh e,  tardinha, ligar de novo para desmarcar o cinema porque precisa ficar
sozinho. E o mais grave: ele vai mesmo ficar sozinho, com a luz apagada, em embate silencioso com seus demnios internos.
Quando vocs estiverem na platia de um show com trs mil pessoas, ele vai encasquetar que um homem de camiseta verde est olhando com insistncia pra voc, e
vaiter certeza de que voc est retribuindo o olhar, e voc vai perder a voz tentando explicar, no meio daquela barulheira, que tem pelo menos oitocentos marmanjos
de camiseta verde em volta, todos olhando pr palco.
Alis, se estivessem olhando pra voc, qual o problema, ele no se garante?
Que audcia, voc peitou o cara difcil. Ele vai deix-la sozinha no show e desligar o celular por trs dias. Se voc no am-lo, o prejuzo ser apenas a bandeirada
do txi que voc ter que pegar para voltar sozinha pra casa, mas se voc o ama, prepare-se para esvair-se em explicaes e declaraes, a fim de traze-lo de volta
 realidade. Um cara difcil exige uma pacincia ocenica.
Ele vai ser romntico e muito bruto. Ele vai ser generoso e muito casca-grossa. Ele vai dizer a verdade e vai mentir s vezes. Ele vai faz-la se sentir uma eleita
entre todas, e depois vai dar mole pra muitas. Ele vai implicar com as mnimas coisas, e com as grandes tambm. Ele vai exibir qualidades que voc nem sabia que
um homem poderia ter e, em troca, vai abusar de todos os defeitos que voc sabia que todo homem tinha. Ele vai ser timo na cama. Vai ser um perigo dirigindo um
carro. Vai ser gentil com sua me. Vai ser um brucutu com a me dele. Ele mudar de humor a cada vinte
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minutos, ele vai brigar por nada, vai beij-la demoradamente por horas e, com essa bipolaridade bem ou mal disfarada, ele a deixar to tonta e exausta que voc
pensar que foi atropelada por um trem descarrilhado. "Quem sou eu?" ser sua primeira pergunta ao acordar sobre os trilhos.
No primeiro encontro, pergunte: voc  um homem difcil? Se ele responder gue , procure imediatamente um psicanalista. Pra voc, santa.
23 de maro de 2008
206
JOGO DE CENA

O novo documentrio de Eduardo Coutinho, Jogo de cena, merece ser visto por inmeros motivos.
Primeiro,  um show de humanidade. Na tela, uma seqncia de depoimentos de mulheres annimas de todas as geraes e classes sociais. Elas contam seus dramas particulares
como se estivessem numa sesso de psicanlise. So dramas parecidos com os de todo mundo: relaes complicadas com filhos, separaes conjugais, sonhos que foram
adiados, superaes, o enfrentamento da morte. Mas cada uma dessas histrias torna-se nica pelo foco, pelo close, pela ateno que somos convidados a dar para cada
uma dessas desconhecidas: ateno que quase no damos a mais ningum aqui fora.
O pulo-do-gato da obra  que esses depoimentos so intercalados pela apario de atrizes famosas que interpretam essas mulheres annimas, repetindo o mesmo texto.
Marlia Pra, Fernanda Torres e Andra Beltro aceitaram o desafio, e a vem o instigante do filme: no chegaram l, apesar de toda a tarimba que possuem. Os depoimentos
verdadeiros do um baile nos depoimentos encenados. Fica evidente que ningum consegue reproduzir uma emoo verdadeira, a no ser que no seja confrontado com
a referncia que lhe inspirou, ou seja: essas atrizes do vida a personagens fictcios em novelas e peas de teatro com total competncia, a gente at acredita
que seus personagens existam, mas quando eles
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existem mesmo e so confrontados com a interpretao que recebem, a interpretao  desmascarada como tal.  incrvel ver a reao das atrizes diante do resultado,
elas ficam desestabilizadas por no conseguirem dramatizar com naturalidade aquilo que no  arte roteirizada, e sim vida real. E  nessa desestabilizao que as
atrizes tambm mostram sua faceta mais humana - e acabam por participar do documentrio com depoimentos delas mesmas. A funciona.
Enfim,  um jogo de espelhos fascinante.
Por fim, mas no menos importante, todas as mulheres que aparecem no filme, por mais que tenham vidas sofridas
- e como tm! - no perdem sua graa. No auge de seus depoimentos dilacerantes, surge uma ou outra frase que faz a platia gargalhar, porque todas elas conseguem,
em algum momento de sua narrativa, buscar algo que atenua o drama, que alivia a presso, que relativiza o que est sendo contado. No importa que elas no sejam
grandes intelectuais: so inteligentes em sua postura de vida, sabem que at do sofrimento  possvel arrancar um sorriso. Fiquei orgulhosa delas e de todas as mulheres
que, mesmo mergulhadas em dor, no perdem a noo de que a vida  apenas uma breve passagem e merece ser curtida com esperana e sem reverncia extrema. No final
das contas, ficou claro que a tal alegria brasileira  mesmo redentora.
26 de maro de 2008
208
MUITO BARULHO POR TUDO

Tem uns a que acabaram de completar trinta anos de idade e j comeam a falar coisas como: "no meu tempo" isso, "no meu tempo" aquilo. Imagina ento quem est
fazendo quarenta. Ou cinqenta. Ou mais. Est todo mundo em pnico, com medo de envelhecer. O que, de certa forma,  um medo mais razovel do que ter medo da morte:
essa vir a qualquer hora e crau. com sorte, a gente no vai nem perceber o que est acontecendo. J envelhecer  um processo lento e com muitos dissabores. A
perda da energia. A perda do pique. A perda do charme. A perda da sade fsica.
Por essas e outras, recomendo aos "idosos" que amam bossa nova, chorinho, jazz, msica clssica, msica barroca, msica instrumental, pagode, samba e bolero que
vo assistir imediatamente ao documentrio Rolling Stones - Shine a Light. Voc pode odiar rock'n'roll, mas se ama a vida e anda sendo rondado pelo fantasma da decrepitude,
o filme  um tratamento de choque da melhor qualidade. Voc sai do cinema com uma viso renovada da terceira idade.
Mick Jagger far 65 anos em julho. Keith Richards, 65 em dezembro. O baterista Charlie Watts tem 67, e o caula Ron Wood, 61. No d para dizer que eles tm uma
pele de anjo - seus rostos mais parecem o Grand Canyon. O brilhante Martin Scorsese (66 anos), que dirigiu Shine a Light com o talento que a gente conhece no 
de hoje, simplesmente no teve condescendncia alguma com os quatro rapazes da banda: d pra enxergar at suas cries.
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Mas no  um filme de terror. Assistir por duas horas a Mick Jagger no palco  a prova inconteste de que l adiante, ou ali adiante (no sei em que idade voc se
encontra) no h, necessariamente, perda de energia, nem perda de pique, nem perda de charme. Perda nenhuma de charme, alis.
O homem  um dnamo.
Apesar de mostrar um show quase o tempo inteiro, l pelas tantas aparece uma cena de Jagger bem garoto, recm comeando a fazer sucesso, com aparncia de quem cheirava
a leite (mas j com ar de quem cheirava outra coisa). Um jornalista pergunta a ele: "Voc se imagina fazendo a mesma coisa aos 60?" Resposta: "Fcil". Era provocao,
mas o fato  que ele chegou em 2008 fazendo exatamente a mesma coisa. S um pouquinho mais ofegante, mas menos do que muito quarento que faz meia hora de esteira
na academia.
Alm de um registro histrico da banda mais longeva e mais importante depois dos Beatles, esse documentrio  de tirar o flego. D um tapa na cara do nosso cansao,
nos envergonha pela nossa falta de atitude (palavrinha manjada, mas  a que define os Stones, no tem outra), e nos avisa: velhice? Sem essa. Ns tambm temos um
palco: aqui, este. A vida. Tambm temos platia, luz, figurino, a no ser que voc tenha optado por virar ermito. Um resfriado violento pode nos jogar na cama e
nos fazer sentir velhos aos vinte anos, mas se temos sade, no h velhice que nos detenha, a no ser que tenhamos, por vontade prpria, deixado de usar o crebro.
V assistir ao documentrio mesmo gostando apenas de canto gregoriano.  uma injeo de adrenalina. E se voc gosta de rock como eu, bom, ento nem preciso recomendar
nada: voc j deve ter ido e est a, fazendo planos para depois de se aposentar aos cem.
9 de abril de 2008
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DOIDAS E SANTAS

Estou no comeo do meu desespero/ e s vejo dois caminhos:/ ou viro doida ou santa." So versos de Adlia Prado, retirados do poema "A serenata". Narra a inquietude
de uma mulher que imagina que mais cedo ou mais tarde um homem vir arrebat-la, logo ela que est envelhecendo e est tomada pela indeciso - no sabe como receber
um novo amor no dispondo mais de juventude. E encerra: "De que modo you abrir a janela, se no for doida? Como a fecharei, se no for santa?'
Adlia  uma poeta danada de boa. E perspicaz. Como pode uma mulher buscar uma definio exata para si mesma estando em plena meia-idade, depois de j ter trilhado
uma longa estrada onde encontrou alegrias e desiluses, e tendo ainda mais estrada pela frente? Se ela tiver coragem de passar por mais alegrias e desiluses - e
a gente sabe como as desiluses devastam - ter que ser meio doida. Se preferir se abster de emoes fortes e apaziguar seu corao, ento a santidade  a opo.
Eu nem preciso dizer o que penso sobre isso, preciso?
Mas vamos l. Pra comeo de conversa, no acredito que haja uma nica mulher no mundo que seja santa. Os marmanjos devem estar de cabelo em p: como assim, e a minha
me???
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Nem ela, carssimos, nem ela.
Existe mulher cansada, que  outra coisa. Ela deu tanto azar em suas relaes, que desanimou. Ela ficou to sem dinheiro de uns tempos pra c, que deixou de ter
vaidade. Ela perdeu tanto a f em dias melhores, que passou a se contentar com dias medocres. Guardou sua loucura em alguma gaveta e nem lembra mais.
Santa mesmo, s Nossa Senhora, mas, c entre ns, no  uma doideira o modo como ela engravidou? (No se escandalize, no me mande e-mails, estou brin-can-do.)
Toda mulher  doida. Impossvel no ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida no vale a pena ser vivida, e
d-lhe usar nosso poder de seduo para encontrar "the big one", aquele que ser inteligente, msculo, se importar com nossos sentimentos e no nos deixar na
mo jamais. Uma tarefa que d para ocupar uma vida, no  mesmo? Mas alm disso temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir, s vezes, que somos santas,
ajuizadas, responsveis, e que nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo para o alto e embarcar num navio pirata comandado pelo Johnny Depp, ou ento virar uma
cafetina, sei l, diga a uma fantasia secreta, sua imaginao deve ser melhor que a minha.
Eu s conheo mulher louca. Pense em qualquer uma que voc conhece e me diga se ela no tem ao menos trs destas qualificaes: exagerada, dramtica, verborrgica,
manaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois ento. Tambm  louca. E fascinante.
Todas as mulheres esto dispostas a abrir a janela, no importa a idade que tenham. Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver at a Ultima Gota. S as
cansadas
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 que se recusam a levantar da cadeira para ver quem est chamando l fora. E santa, fica combinado, no existe. Uma mulher que s reze, que tenha desistido dos
prazeres da inquietude, que no deseje mais nada? Voc vai concordar comigo: s sendo louca de pedra.
13 de abril de 2008
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A MULHER BANANA

A. esta altura do campeonato, voc j deve saber quem  a Mulher Melancia e a Mulher Jaca. So duas danarinas de funk que ganharam notoriedade por possurem quadris
avantajados (respectivamente, 121 centmetros uma, 101 centmetros a outra). Essa  toda a histria, com comeo, meio e fim.
Tem tambm a Mulher Rodzio, forma bem-humorada com que a Preta Gil se autobatizou, justificando que ela tem carne pra todo mundo.
Pois agora vou apresentar pra vocs a grande novidade desse mercado to nutritivo: a Mulher Banana.
A Mulher Banana, se tivesse um quadril de 120cm, correria trs horas por dia numa esteira. Se isso no adiantasse, correria para uma mesa de cirurgia a fim de lipoaspirar
uns cinco bifes de cada lado, pois ela acha que ter um bundo desmesurado  uma coisa meio vulgar. Faria isso por vaidade, pois acredita que, na prtica, no faz
a menor diferena para os homens se a mulher tem 90 centmetros ou 120 centmetros. Eu avisei que ela  banana.
Essa questo da vulgaridade quase a deixa doente. Ela no se conforma que essa bobajada ganhe tanto espao na imprensa, incentivando um monte de menininhas a tambm
rebolarem no ptio da escola. Ela morre de vergonha ao ver
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a me da Mulher Melancia dizer para um reprter que sente muito orgulho de ter uma filha vitoriosa. Ela se pergunta: pelamordedeus, no existe ningum pra avisar
essa gente que ter bunda no  um talento? A Mulher Banana  totalmente sem noo, coitada.
A Mulher Banana no se d conta de que h pouco assunto para muito espao na mdia. No h novidade que chegue para preencher tanto contedo de internet, tanta matria
de revista, tanto programa de tev, e  por isso que qualquer bizarrice vira notcia. Sem falar que, hoje em dia, tudo  cultura de massa, tudo  pop, tudo  passvel
de anlise para criarmos uma identidade nacional. No, no, no pode ser!! Pode, Mulher Banana.
A Mulher Banana, como o prprio nome diz,  ingnua, inocente, tolinha. Ela acredita que o discernimento nasceu para todos e que ser elegante vale mais do que ser
ordinria.  boba, mesmo. No no mercado das mulheres hortifrutigranjeiras, minha cara. Alis, mercado ao qual voc tambm pertence. Banana.
A Mulher Banana ainda se choca com certas imagens, com certas fotos. No que ela desacredite no que est bem diante do seu nariz (j sondei e no tem parentesco
algum com a Velhinha de Taubat). Ela v, ela sabe, ela est bem informada. S que no consegue tirar isso pra piada, no leva na boa, no passa batido: ela  to
banana que se importa!!
Aviso desde j que a Mulher Banana no tem empresrio, no posa para sites erticos, no d entrevistas e muito menos aceita sair de dentro de um bolo gigante usando
apenas um tapa-sexo. Ela  banana. Vai morrer sem dinheiro, s  rica em potssio. E no pense que  movida  inveja. Se fosse,
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invejaria a bundinha da Gisele Bndchen, que tambm andou  mostra por esses dias e tem um tamanho bem razovel. A Mulher Banana, tadinha, ainda sonha com a valorizao
de um padro esttico razovel e de um comportamento social menos nanico. No pode ser brasileira! Mas , conheo-a como a mim mesma.

20 de abril de 2008
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NO SORRIA, VOC EST SENDO FILMADO

Sou incentivadora de alguns mtodos clssicos para garantir a segurana pblica - por exemplo, policiais bem remunerados e bem treinados, e em quantidade suficiente
para monitorar as ruas. Mas no sou fantica. Tenho me constrangido com um procedimento que est se tornando comum nos "prdios inteligentes", todos eles de escritrios.
Falo dessa mania irritante de nos ficharem na recepo.
Antes de pegar o elevador,  preciso passar por uma catraca. E, antes da catraca, h os recepcionistas que, no bastasse pedirem nossos documentos (at a, ok),
pedem para nos fotografar e tambm para que a gente aplique nossa digital num sensor para que a visita fique registrada para a posteridade. No deve ser muito diferente
de entrar num presdio, s que no estou visitando nenhuma cadeia de segurana mxima, quero apenas consultar um dentista.
Outro dia fui bem antiptica num desses halls de entrada, logo eu que costumo ser uma flor de condescendncia.
Pediram documentos, dei.
Pediram para tirar foto, tirei.
Pediram para aplicar minha digital numa mquina, apliquei.
Mas minha digital no ficou registrada. Sei l, o teclado do computador deve ter gasto a ponta dos meus dedos.
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Ento a recepcionista me perguntou: posso passar um hidratante na sua mo?
Juro, sou calma, uma monja beneditina, mas no vou passar um hidratante qualquer no meio de uma tarde calorenta s porque minha digital no est sendo bem registrada
por uma mquina incompetente. Vim trazer minha filha para uma consulta de reviso, e no trazer escondido um celular para um traficante.
Coitada da moa, estava ali apenas cumprindo ordens. Eu no disse nada disso, no nesse
tom, mas, admito, me recusei a passar o tal creme. Acabaram me deixando
entrar a contragosto, temendo que eu violasse todos os cdigos de segurana e estivesse escondendo uma Uzi embaixo do vestido a fim de cometer uma carnificina naquele
prdio todo espelhado. Ah, me deu vontade mesmo de incorporar um Javier Bardem, de cabelinho chanel e portando uma arma de matar gado. Onde os fracos no tm vez,
r-t-t-t.
Da mesma forma, meu esprito selvagem aflora cada vez que vejo uma placa avisando: sorria, voc est sendo filmado! Sorrio nada. E quase viro um Hannibal Lecter
quando passo por aquelas portas giratrias e intimidatrias dos bancos, onde revistam nossa bolsa como se vasculhassem nossa alma. Sei que so tempos difceis e
paranicos, sei que todo esse aparato serve para identificar criminosos, mas c entre ns:  urna praga essa histeria com segurana. Daqui a pouco essa vigilncia
insana vai se tornar mais desconfortvel do que ser gentilmente assaltado.
 23 de abril de 2008

DIFERENA DE NECESSIDADES

Procedamos de galxias diferentes, como dois cometas que se cruzam efemeramente no espao. Ele vinha da infncia e nunca tivera uma parceira estvel, queria me
viver at me esgotar, queria que montssemos juntos uma casa, que sonhssemos um futuro, que nos enchssemos de compromissos de eternidade at as orelhas. Eu provinha
dafatigante travessia da idade madura e sabia que a eternidade sempre se acaba, e tanto mais cedo quanto mais eterna. E assim fui avarenta, me neguei a ele, afastei-o
de mim. Quanto mais ele me exigia, mais me sentia asfixiada; e, quanto mais me regateava, mais ansiosamente ele queria me segurar. Dito isso, se ele se retirava,
eu avanava, e ento o perseguia e o exigia: porque o amor  um jogo perverso de vasos comunicantes."
Gastei bom pedao da coluna transcrevendo esse pargrafo do excelente livro A filha do canibal, da espanhola Rosa Montero, pois eu no saberia descrever melhor
a razo de tantos desencontros amorosos. O relato refere-se a um homem e uma mulher com alguma diferena de idade - ela  a mais velha, lgico, como tem se tornado
comum hoje em dia. Muitas pessoas duvidam de que uma relao assim possa dar certo. Claro que pode. Tudo pode dar certo e tudo pode dar errado, e a idade nada tem
a ver com isso,  apenas um detalhe na certido de nascimento. O que transforma nossa vida amorosa num melodrama  a diferena de necessidades. A no h casal
que encontre seu ponto de apoio, seu eixo e seu futuro.
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Um quer compromisso srio; para o outro, amar j  srio o suficiente. Um quer filhos, o outro nem em sonhos. Um quer uma casinha no meio do mato, o outro  curioso,
precisa de informao, cinema, teatro, gente. Um valoriza a transa antes de tudo, o outro acha que conversar  importante tambm. Ao menos, os dois gostam de danar.
Um quer se sentir o centro do universo, o outro quer inclu-lo no seu amplo* universo. Um quer fugir da solido, o outro aceita a solido. Um no quer falar de suas
dores, o outro pergunta demais. Um briga por amor, o outro silencia por amor. Os dois se amam, isso no se discute.
Um no precisa conhecer o mundo, o outro traz o mundo em si. Um  romntico para disfarar a brutalidade, o outro  doce para despistar a secura. Um quer muito de
tudo, o outro se contenta com o mnimo essencial. Nenhum dos dois liga pra dinheiro, mas o dinheiro quase sempre est no bolso de quem viveu mais. Um fica inseguro,
o outro diz que nada disso importa, mas claro que importa.
Um quer que lhe dem ateno por 24 horas, o outro precisa que lhe esqueam por uns instantes. Um quer aproveitar cada rstia de sol, o outro gostaria de dormir
um pouco mais. Um gostaria de saber o que no sabe, o outro queria desaprender metade do que a vida lhe ensinou. Um precisa berrar, o outro chora.
Um quer ir embora e, ao mesmo tempo, no. O outro quer liberdade, mas a dois.
Ento um se vai e deita em todas as camas, sofrendo. E o outro mergulha sozinho na dor, sobrevivendo.
Diferena de idade no existe. A necessidade secreta de cada um  que destri iluses e constri o que est por vir.
 4 de maio de 2008
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O NIBUS MGICO

Embriagada. Acho que essa  a palavra que resume como sa do cinema depois de assistir Na natureza selvagem, filme brilhantemente dirigido por Sean Penn, que conta
a histria de Christopher McCandless, um garoto americano de 23 anos que, depois de se formar, larga tudo e sai pelo mundo como um andarilho at chegar no Alasca,
onde pretende levar s ltimas conseqncias sua experincia de desprendimento, solido e contato com a natureza. No meio do caminho, faz novos amigos e realiza
trabalhos temporrios, tudo isso em meio a um cenrio mais que deslumbrante, e sob a trilha sonora de Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam.
Aconteceu de verdade.  a histria real de Chris, mas poderia ser a histria de muitos de ns - alguns que levaram esse sonho adiante anonimamemte e outros (a maioria)
que nem chegaram a planej-lo, mas que sonharam com isso. Quem de ns - os idealistas - no imaginou um dia viver em liberdade total, sem destino, sem compromisso,
recebendo o que o dia traz, os desafios que vierem, em total desapego aos bens materiais e em comunho absoluta com a natureza e as emoes? S se voc nunca teve
vinte anos.
Chris, depois de muito trilhar pelas estradas, chega ao Alasca e encontra, em cima de uma montanha, a carcaa de um nibus velho e abandonado, que ele logo trata
de batizar de "nibus mgico": faz dele seu lar. Ali ele dorme, escreve, l, cozinha os animais que caa e vive plenamente a busca
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pela sua essncia.  nesse lugar que consegue atingir um contato mais ntimo com o que ele  de verdade, at que um dia decide: ok, agora estou preparado para voltar,
e quem viu o filme e leu o livro (sim, tambm h um livro) conhece o desfecho.
Esquea-se o desfecho.
Fixemos nossa ateno no nibus mgico que cada um traz dentro de si, ainda. Ao menos aqueles que no perderam o idealismo, o romantismo e a porra-louquice da juventude.
Eu conservo o meu "nibus" e estou certa de que voc tem o seu. Porque, francamente, tem hora que cansa viver rodeado de arranha-cus, com trnsito congestionado,
com pessoas bvias, com conversas inteis e estando to distante de mares, lagos e montanhas. Todo dia a gente perde um pouquinho da nossa identidade por causa
de medos padronizados e cobranas coletivas. Antes de descobrir qual  a nossa turma - seja a turma dos bem-sucedidos, dos descolados, dos espertos -  bom estar
agarrado ao que nos define, e isso a gente s vai descobrir se estiver em contato com nossos sentimentos mais primitivos. No  preciso ir ao Alasca, no  preciso
radicalizar, mas manter-se fiel  nossa verdade j  meio caminho andado.
7 de maio de 2008

UM POEMA FILMADO

Eu recomendei, cerca de um ms atrs, a trilha sonora de My Blueberry Nights, que  excelente. Agora vi o filme, que no Brasil ganhou o nome de Um beijo roubado.
 sobre o que, esse filme? Sobre absolutamente nada, a no ser a vida, essa que passa pela nossa janela sem roteiro, sem dilogos geniais, simplesmente a vida que
nos convida: vai ou fica?
Ela, a vida, essa que nos faz entrar em bares suspeitos, chorar de amor, espiar pelas frestas, pegar no sono em cima do balco depois de beber demais.  noite escura
e a gente sofre calado, deixa a conta pendurada, bebe de novo quando havia prometido parar e morre - morre mesmo! - de cimes sem ter tido tempo de saber que ramos
amados.
A vida e nossos vcios, nossas perdas, nossos encontros: quanto mais nos relacionamos com os outros, mais conhecemos a ns mesmos, e  uma boa surpresa descobrir
que, afinal, gostamos de quem a gente , e quando isso acontece fica mais fcil voltar ao nosso local de origem, onde tudo comeou.
A vida e a espera por um telefonema, a vida e seus blefes, e nosso cansao, e nossos sonhos, e a rotina e as trivialidades, e tudo aquilo que parecer sem graa
se ningum colocar um pouco de poesia no olhar. A vida e suas pessoas belas, feias, fortes, fracas, normais. Todas atrs da chave: aquela que abrir novas portas,
velhas portas, a chave que
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nos far ter o controle da situao - mas queremos mesmo ter o controle da situao? No ser responsabilidade demais? Deixar a chave nas mos do destino  uma
opo.
Os sinais fecham, os sinais abrem. Voc segue adiante, voc freia. A gente atravessa a rua e vai parar em outro mundo, basta dar os primeiros passos. Viaja para
esquecer, viaja para descobrir, e algum fica parado no mesmo lugar, aguardando (quando pequeno, sua me lhe ensinou que, ao se perder na multido, no  bom ficar
ziguezagueando, melhor manter-se parado no mesmo lugar, a fica mais fcil ser encontrado). Muitos esto parados no mesmo lugar, torcendo para serem descobertos.
A vida como uma estrada sem rumo, a vida e seus sabores compartilhados, um beijo tambm  compartilhar um sabor.
Afinal, vou ou no you falar sobre o filme? Contei-o de cabo a rabo. V com poesia no olhar.
25 de maio de 2008
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OS OLHOS DA CARA

Recentemente participei de um evento profissional s para o pblico feminino. Era um bate-papo com uma platia composta de umas 250 mulheres de todas as raas,
credos e idades. Principalmente idades. L pelas tantas fui questionada sobre a minha, e, como no me envergonho dela, respondi. Foi um momento inesquecvel. A platia
inteira fez um "Oooohh" de descrdito. E quando eu disse que, at aqui, ainda no enfiei uma nica agulha no rosto ou no corpo, foi mais emocionante ainda: "Oooooooooooooooohhhhhh"

 A fiquei pensando: p, estou neste auditrio h quase uma hora exibindo minha incrvel e sensacional inteligncia, e a nica coisa que provocou uma reao calorosa
na mulherada foi o fato de eu no aparentar a idade que tenho. Onde  que ns estamos?
Onde no sei, mas estamos correndo atrs de algo caqutico chamado "juventude eterna". Esto todos em busca da reverso do tempo, e com sucesso: quanto mais ele
passa, mais moos ficamos. Ok, acho timo, porque decrepitude tambm no  meu sonho de consumo, mas cirurgias estticas no do conta desse assunto sozinhas. H
um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avanada. A fonte da juventude chama-se mudana. Eu sei disso, voc sabe,
e a escritora Betty Milan
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tambm, tanto que enfatizou essa frase em seu mais recente livro, Quando Paris cintila. De fato, quem  escravo da repetio est condenado a virar cadver antes
da hora. A nica maneira de sermos idosos sem envelhecer  no nos opormos a novos comportamentos,  ter disposio para guinadas.  assim que se morre jovem, sem
precisar termos o mesmo destino de um James Dean ou de uma Marylin Monroe. Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos.
Mudana, o que vem a ser tal coisa?
Minha me recentemente se mudou do apartamento em que morou a vida toda para um bem menorzinho. Teve que vender e doar mais da metade dos mveis e tranqueiras que
havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu. Uma amiga casada h 38 anos cansou das
galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos
65 anos de idade. Rejuvenesceu. Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um timo emprego em Porto Alegre por um no to bom, s que em Florianpolis, onde
ela caminha na beira da praia todas as manhs. Rejuvenesceu.
Toda mudana cobra um alto preo emocional. Antes de tomar uma deciso difcil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos so inmeros, a vida se desestabiliza.
Mas ento chega o depois, a coisa feita, e a a recompensa fica escancarada na face.
Mudanas fazem milagres por nossos olhos, e  no olhar que se percebe a tal juventude eterna. Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgio a ponto
de as rugas sumirem, s que continuar opaco, porque no existe plstica que resgate seu brilho. Quem d brilho ao nosso
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olhar  a vida que a gente optou por levar. Um olhar iluminado, vivo e sagaz impede que a pessoa envelhea. Olhe-se no espelho. Voc tem um olhar de quem estaria
disposta a cometer loucuras? Tem que ter.
E a pode abrir o jogo, contar a verdade: tenho 39, 46,
57, 78 anos! Ooooooohhhhh. Uma guria.
1 de junho de 2008
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ABSOLVENDO O AMOR

Duas historinhas que envolvem o amor.
A primeira: uma mulher namora um prncipe encantado por trs meses e ento descobre que ele no  prncipe coisa nenhuma, e sim um bobalho que no soube equalizar
as diferenas e sumiu no mundo sem se despedir. Mais um, segundo ela. So todos assim, os homens. Ela resmunga: "No d mesmo para acreditar no amor".
Pera. Por que o amor tem que levar a culpa desses desencontros? Que a princesa no acredite mais no Pedro, no Paulo ou no Pafncio, v l, mas responsabilizar o
amor pelo fim de uma relao e a partir da no querer mais se envolver com ningum  preguia de continuar tentando. No foi o amor que caiu fora. Alis, ele talvez
nem tenha entrado nessa histria. Quando entra,  para contribuir, para apimentar, para fazer feliz. Se o relacionamento no d certo, ou d certo por um determinado
tempo e depois acaba, o amor merece um aperto de mos, um muito obrigada e at a prxima. Fique com o carto dele, voc vai cham-lo de novo, vai precisar de seus
servios, esteja certa. Dispense namorados, mas no dispense o amor, porque esse estar sempre a postos. Viver sem amor por uns tempos  normal. Viver sem amor pra
sempre  azar ou incompetncia. S no pode ser uma escolha, nunca. Escolher no amar  suicdio simblico,  no ter razo pra existir. No adianta querer compensar
com amor pelos amigos, filhos e cachorros, no  com eles que voc fica de mos dadas no cinema.
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Segunda histria: uma mulher ama profundamente um homem e  por ele amada da mesma forma, os dois dormem embolados e se gostam de uma maneira quase indecente, de
to certo que d a relao. Tudo funciona como um relgio que ora atrasa, ora adianta, mas no pra, um tiquetaque excitante que ela no divulga para as amigas,
no espalha, adivinhe por qu: culpa. Morre de culpa desse amor que funciona, desse amor que  desacreditado em matrias de jornal e em pesquisas, desse amor que
deram como morto e enterrado, mas que na casa dela vive cheio de gs e que ameaa ser eterno. Culpa, a pobre mulher sente, e mais: sente medo. Nem sabe de que, mas
sente. Medo de no merec-lo, medo de perd-lo, medo do dia seguinte, medo das estatsticas, medo dos exemplos das outras mulheres, daquela mulher l do incio do
texto, por exemplo, que se iludiu com mais um bobalho que desapareceu sem deixar rastro - ou bobalhona foi ela, nunca se sabe. Mas o fato  que terminou o amor
da mulher l do incio do texto, enquanto que essa mulher de fim de texto, essa criatura feliz e apaixonada  ao mesmo tempo infeliz e temerosa porque teve a sorte
de ser premiada com aquilo que tanta gente busca e pouco encontra: o tal amor como se sonha.
Uma mulher infeliz por ter amor de menos, outra, infeliz por ter amor demais, e o amor injustamente crucificado por ambas. Coitado do amor,  sempre acusado de provocar
dor, quando deveria ser reverenciado simplesmente por ter acontecido em nossa vida, mesmo que sua passagem tenha sido breve. E se no foi, se permaneceu em nossa
vida, a  o luxo supremo. Qualquer amor merece nossa total indulgncia, porque quem costuma estragar tudo, carssimos, no  ele, somos ns.
8 de junho de 2008
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A GAROTA DA ESTRADA

Dasta entrar na estrada e ela vira uma pessoa diferente. Coloca a msica que mais gosta, abre a janela do carro e pensa, com um sorriso indisfarado: "Estou deixando
pra trs aquela outra". No porta-malas, uma sacola com as roupas que a outra no usa durante a semana - tnis, um jeans surrado, umas camisetas e um biquni. Seu
iPod. Sua cmera fotogrfica. Um livro ou dois, porque  preciso terminar a leitura que aquela outra comeou, mas nunca tem tempo para concluir. Palavras cruzadas,
um vcio que ela no conta pra ningum. Uma garrafa de champanhe, porque na pousada pode no ter. E ela est ao lado do amor da sua vida, coisa que a outra no consegue
dar valor, j que  to atarefada.
Ao passar por cada placa de sinalizao, mais distante ela fica da sua cidade e mais perto de si mesma. Os assuntos durante o trajeto? Os mais bobos, os mais srios,
mas nada discutido com pressa e nem com necessidade de concluso, a nica regra  no deixar de se divertir. No  todo dia que se sai de frias, mesmo que durem
apenas 48 horas de um final de semana. No so frias de julho nem frias de vero: frias da outra!
Pelo espelho retrovisor lateral, ela percebe que est sem batom. Ora, ele vai beij-la de novo daqui a dez minutos, nem vale a pena retocar. Claro que ela levou
o batom: est indo para um recanto secreto, mas no perdeu o juzo. Deixou na casa da outra as sombras, bases, esfoliantes, mas
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o batom e o secador, isso ela no consegue abandonar. No
tem mais quinze anos.
Tambm no tem mais dezoito, nem vinte, nem trinta. Mas quem  que consegue convenc-la de que no  mais uma garota? Aquela outra, a que ficou, bem que tenta. Abre
a agenda e mostra todos os compromissos marcados. Avisa que a geladeira est vazia. Coloca sobre a mesa todas as contas pra pagar. Abre o site do banco e analisa
seu extrato. Traz  tona as encrencas da famlia, os problemas dos filhos. Marca hora no mdico. E, cruel, se posiciona na frente de um espelho muito maior do que
um retrovisor de carro e pergunta  queima-roupa:  uma garota que voc est enxergando na sua frente? Uma tentativa de aniquilamento, mas felizmente malsucedida.
Ela lembra disso tudo enquanto est na estrada e pensa: a outra tem razo, algum tem que trabalhar, pagar as contas, cumprir a agenda, dar ordens, receber ordens,
ser responsvel. Mas no todo dia, no toda a vida. Aquela l, a que ficou,  uma mulher confivel,  uma mulher de olho no relgio e no calendrio, uma mulher cumpridora
do que esperam dela. Mas ela no pode estar no controle o tempo todo, ela tem que permitir que eu escape dessa organizao de vez em quando, que eu busque a alegria
sem hora marcada, o descomprometimento total, que eu fique -toa desde a hora de acordar at a hora de dormir, um dia inteiro, dois dias inteiros. Ela tem que aceitar
e at mesmo incentivar que eu pegue essa estrada e a deixe de lado, que eu faa isso sem culpa, que eu faa isso por ela.
Eu, a garota dentro dela.
13 de julho de 2008
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